 O Bandido do Rio das Mortes

Romance Histrico em continuao ao

Maurcio

ou os Paulistas em So Joo D'El-Rey






BERNARDO GUIMARES



 Sobre esta edio

        O presente texto foi estabelecido a partir da seguinte edio, transcrita de microfilme cedido pela Biblioteca Nacional:

GUIMARES, Bernardo. O Bandido do Rio das Mortes. Romance Histrico em continuao a Maurcio ou Os Paulistas em S. Joo d' El-Rey. Bello Horizonte: Imprensa Official
do Estado de Minas Gerais, 1905.

Procuramos preservar ao mximo o texto original, apenas atualizando a ortografia e, em alguns momentos, alteramos a pontuao, de forma a adequ-la s normas atuais. 
Alguns coloquialismos, ou mesmo expresses anacrnicas, foram conservados, uma vez que em nada poderiam prejudicar a compreenso do leitor contemporneo. 
       Alguma dvida pode surgir quanto ao nome da personagem Indaba, denominada Judaba em Maurcio. Conservamo-lo como estabeleceu D. Tereza Guimares. Ademais, 
o romance anterior nos deixa em dvida quanto  verdadeira denominao da jovem indgena, pois, na edio Briguiet, de 1941, Bernardo Guimares nos apresenta como 
origem da denominao uma palmeira, ora evocada como Indai, ora como Judai. Considerando-se que a primeira forma est dicionarizada, optamos por considerar Judaba, 
presente em Maurcio, como um erro de impresso ocorrido na edio Garnier e conservado na seguinte, uma vez que o autor, j falecido, no poderia corrigi-la. 
       Parece-nos ter ocorrido uma leitura equivocada dos originais, j que, em caracteres manuscritos,  In se assemelha bastante a Ju, especialmente em talhes pouco 
arredondados. Considerando-se o perfeito conhecimento que D. Thereza Guimares possua da grafia de seu marido, acreditamos ter optado pela denominao correta.
       
       
       
       L.C.
       


AO LEITOR

        Termos apresentado na Cmara dos Deputados um projeto, convertido em lei, autorizando a impresso deste livro por conta do Estado de Minas, motivou caber-me 
a tarefa de rever as provas tipogrficas e corrigir o original, a pedido da viva do inditoso poeta e romancista.
        Mais do que espervamos, se nos tornou rdua a empresa, pois Bernardo Guimares ser um marco milenrio de um dos estdios da lngua brasileira; di-lo com 
incontestvel autoridade Slvio Romero: "Bernardo Guimares pode ser tomado como um documento para estudar-se as transformaes da lngua portuguesa na Amrica. 
Nas locues, no modo de dizer, no tour de frase o esprito atilado vai marcar as variaes da lngua no Brasil".
         bem de ver e fcil para [ser]1 compreendido o respeito, o acatamento, a timidez cuidadosa com que ousamos corrigir erros, mui poucos, preencher faltas 
e alinhar frases, que pelo autor seriam certo melhor torneadas, se no deixasse apenas um autgrafo inacabado, incompleto, desconexo s vezes, o qual muito brilho 
daria s letras se Bernardo o houvesse remodelado. 
        Quem pretendesse retocar um painel de Murilo, quem ousasse enflorar  moderna uma estncia de Cames ou um hexmetro de Virglio, nem mais respeito e nem 
mais timidez teria do que ns com a tarefa de rever o original e as provas tipogrficas. Ao labu de sacrlego, que com desembarao profanamos uma obra de arte, 
preferimos que a severidade da crtica nos acuse, porque perdoamos senes, porque no ornamos de passamanes vistosos os perodos, donde ressumbram o "carter nacional 
das narraes, a simplicidade dos enredos e a facilidade do estilo de Bernardo Guimares".
        Precatado andamos que nosso ofcio se limitasse a simples reviso, e, como escusa bastante, nos acolhemos  autoridade de Slvio Romero, que para muitos 
pontifica em matria de letras: "Bernardo Guimares era do nmero dos que se no preocupam com as portentosas maravilhas do purismo: no quebrava a cabea nem perdia 
o sono cismando sobre a colorao dos pronomes e outras brilhaturas da espcie... quando o escritor  como Bernardo Guimares inteiramente despreocupado de purismo, 
quando escreve conscientemente em dialeto brasileiro, podem-se-lhe desculpar certos erros". 
        Saboreiem os leitores a prosa mimosa e lou de Afonso Celso, o mais mimoso dos nossos estilistas, aquilatem como de subido valor o livro de Bernardo Guimares, 
e deixem passar despercebidos os ligeiros senes de um autgrafo, que no foi corrigido, emendado e revisto pelo autor.

                S. Domingos do Prata, 1 de agosto de 1905.

                                        P. Joo Pio.

DUAS PALAVRAS DE APRESENTAO

I

        Segundo os antigos, os livros, como os homens, tm o seu destino.
        Nas velhas cousas h sempre verdade.
        Continua cada opsculo moderno a ser levado por uma sina, boa ou m. A histria de no poucos constitui genuno romance, cheio de peripcias dramticas. 
 o caso deste que ides compulsar4, leitor. O presente romance tem o seu romance. Basta isso a que por ele vos interesseis.
        Comp-lo Bernardo Guimares ou, melhor, improvisou-o, no j ao correr, mas ao galopar da pena. Anoitecia-lhe a existncia. Deixou apenas em esboo os derradeiros 
captulos.
        A novela  continuao e concluso de outra do mesmo genitor: Maurcio ou os Paulistas em S. Joo d'el-Rei. Andou o manuscrito de mo em mo,  procura de 
quem lhe desse remate. Extraviou-se. Parecia condenada a obra a definitivo desaparecimento e olvido.
        A isso, porm, no se resignou a digna viva do morto, D. Thereza Guimares. Com inexcedvel solicitude, com insigne perseverana (que no conseguem as mulheres?) 
logrou reaver os trechos esparsos. Concatenou-os, recopiou-os, engendrou para a narrativa o desfecho que lhe faltava. Em seguida, graas   dedicada coadjuvao 
do Ex.mo. e Rev.mo. Padre Joo Pio de Souza Reis, alcanou do Congresso Mineiro que fosse o trabalho impresso  custa do Estado. Tornou-se, destarte, D. Thereza 
Guimares secretria, colaboradora, editora de seu marido. Mais ainda: salvadora do livro. Revelou inteligente devotamento  obra do esposo morto, equiparvel ao 
de Madame Michelet, ou de Madame Alphonse Daudet, acrescendo que a soma de esforos necessrias no Brasil foi incomparavelmente mais meritria do que a reclamada 
em Frana.
        De maneira indireta, toda consorte de escritor pode eficazmente cooperar na tarefa de seu companheiro: organizando-lhe os meios de produo fcil e fecunda, 
quer dizer, poupando-lhe certas preocupaes domsticas, mantendo-lhe a serenidade do lar,  proporcionando-lhes as condies de esprito indispensveis  elaborao 
de primores. 
        D. Thereza Guimares foi alm. Debateu-se contra a indiferena e a m vontade, superou mil embaraos, para que o ltimo filho intelectual de Bernardo, nascido 
quase invivedouro, no perecesse  mngua.
        Durou nada menos de 4 lustros esse carinhoso labor maternal. Vinte e um anos aps o falecimento do autor, surge  publicidade, e reconstitudo integralmente, 
o derradeiro volume. 
        Representa a publicao ingente cabedal de fadigas, sacrifcios e tenacidade. D. Thereza Guimares fez jus  gratido das letras mineiras. E D. Thereza Guimares 
assim procedeu arcando com bices de outra ordem. Imaginai: viva, pobre, educando filhos, sustentando velha me enferma!
        Deve ser, pois, de agora em diante, lembrada, sempre que se nomear o seu glorioso marido. O nome dela ainda uma vez se enlaou perpetuamente ao do preclaro 
autor do Seminarista e do Ermito do Muqum. 
        No achais o fato belo e tocante, leitor? Sois mineiro, isto , acessvel a todas as nobres comoes. Vejo-vos, portanto, curvado, qual eu estou, na mais 
respeitosa reverncia, perante D. Thereza Guimares.
        Salve, nclita mineira, excelentssima senhora!

II

        Valeria a pena o empreendimento de D. Thereza Guimares?
        Sem dvida. Quando menos, assiste ao romance pstumo de Bernardo a valia de curioso documento. Sucinta resenha do entrecho vo-lo demonstrar.
        De bandido nada se percebe no heri.  galhardo, cavalheiro. Consiste-lhe o crime nico em amar D. Leonor, filha de D. Diogo, capito-mor de S. Joo d'El 
Rei, no tempo dos bandeirantes, disputando-a  ambio de Fernando, primo da mesma.
        Deseja Fernando desposar D. Leonor, com o s intuito de herdar a fortuna e o cargo do tio, j idoso.
        Abre-se a exposio quando Maurcio, foragido, vai buscar, a Ouro preto, reforos e munies para atacar os emboabas capitaneados, em S. Joo, pelo cruel 
e ambicioso Fernando, ataque no qual cumpria proteger ao capito-mor e  sua filha.
        A Maurcio acompanham Itaubi, tambm chamado Antnio, ndio catequizado, filho de Itapema, ex-chefe de poderosa tribo Aimor, e Iambi, negro forte e corajoso.
        Itaubi,  semelhana de Maurcio, vota dio de morte aos emboabas; Maurcio, pela crueldade com que tratam os indgenas e desdm que empregam relativamente 
aos altivos ncolas de S. Paulo de Piratininga; Itaubi, porque eles escravizaram Indaba, aquela a quem adora, a formosa filha de Irabussu, ex-cacique dos carijs.
        H para Maurcio outros motivos de acometer o arraial: vingar-se de Fernando que insidiosamente convencera Leonor ser ele, Maurcio, traidor e vilo; justificar-se, 
ante aquela e o capito-mor, da morte de Afonso, jovem e impetuoso irmo da moa, que, em renhido combate entre paulistas e emboabas, sucumbira s mos do mesmo 
Maurcio.
        Auxiliado por Itapema e Itaubi, alcana Maurcio um troo de Aimors e paulistas fugitivos de S. Joo. Com essa diminuta  gente, vai investir contra o arraial. 
Em caminho, sucede topar com seu amigo Gil, que lhe vinha ao encalo, comandando um bando de paulistas.  tropa de Gil agrega-se Maurcio, formando pequeno exrcito.
        Dirigem-se  gruta do pai de Indaba, Irabussu. Devem a reunir-se ao resto dos indgenas e paulistas escapos de S. Joo, aps a peleja em que expirara o 
irmo de Leonor. Na gruta, alm de Irabussu, o bugre feiticeiro, conforme o alcunhavam os emboabas, estacionava mestre Bueno, velho mestio, devotadssimo a Maurcio 
e inimigo, por seu turno, dos emboabas, que lhe haviam escravizado a filha, a graciosa Helena. 
        Ainda outro afeioado de Maurcio ali se via, o Capito Nuno, valente paulista. Aprestavam-se Maurcio e Gil para o assalto, quando souberam por Irabussu 
que Fernando se aliara a Caldeira Brant, clebre bandeirante, orgulhoso e mau, aumentando assim consideravelmente a guarnio defensora do arraial.
        No desanimam. Enviam Iambi entender-se com Amador Bueno, outro afamado bandeirante, de ndole benvola, amigo dos paulistas, rival de Caldeira Brant. 
        Amador acede, desejoso de responder a um desafio do altaneiro Caldeira Brant. Guiado pelo intrpido Itambi, marcha  frente dos seus, para a gruta de Irabussu, 
onde este, ao lado de Maurcio, Gil, Itaubi e mestre Bueno o aguardam impacientes. 
        Entretanto, Leonor no olvidara Maurcio, como Indaba, identicamente, no olvidara Itaubi. Julgava a primeira que Maurcio trara a D. Diogo, pactuando 
com os indgenas assaltantes do arraial; supunha-o assassino do irmo. Amava-o, a despeito de tudo; e, ao anunciar-lhe Fernando de boa f a morte de Maurcio, no 
vingou a donzela dissimular o seu desespero. Da imensa clera em Fernando. Odiava Maurcio; deplorava no o apanhar vivo, para o torturar  vontade, antes de, com 
a prpria mo, o trucidar.
        Eis o dia da peleja. Leonor e seu pai vo v-la do cimo de um morro. Indescritvel o jbilo da bela, ao avistar na frente dos contrrios o nunca esquecido 
Maurcio. So completamente batidos os emboabas e Caldeira Brant; Fernando, mortalmente ferido, no tardar a expirar. Maurcio acerca-se do capito-mor e de sua 
filha, dando-lhes cabais explicaes restaurando a verdade, perfidamente falseada por Fernando.
        Calixto, outro amigo de Maurcio, noivo de Helena, corrobora as asseres daquele. Termina a histria, a contento geral: mestre Bueno, Itaubi e Irabussu 
abraam os filhos que choravam; casam-se os adoradores com as respectivas adoradas.

III

        , como se viu, a um tempo... ingnuo e complicado. Escassa psicologia; violenta ao. Acumulao de personagens; disperso em escusados episdios, repeties, 
cousas perfeitamente dispensveis.
        Sem embargo, interessa. o carter de cada indivduo desenha-se acentuadamente. Nos incidentes, h seguro colorido e firme perspectiva. Mais que cho, em 
extremo familiar, encanta o estilo pela espontaneidade borbulhante. No se azou ao autor ensejo de ser conciso.
        Afirmadas em tantos trabalhos anteriores, persistem aqui  as qualidades de Bernardo.
        Em primeiro lugar, o vivo amor  natureza brasileira, o dom de evoc-la, de lhe interpretar a suavidade e a excelsidade. De quase todas as pginas, evola-se 
o olor das florestas virgens, com os pios speros ou bramidos de aves ariscas. De sbito, desvenda-se imenso panorama, impreciso, misterioso e soberbo. Sombra intensa, 
agora, cortilhada de vagas cintilaes infinitas...
        A par desse amor e dessa evocao, conhecimento dos costumes, das tradies, das particularidades natais. Sente-se que conversou afetuosamente assuntos antigos; 
viajou; tratou com os moradores, tropeiros ou garimpeiros, apreendendo-lhes, sobre a linguagem, o modo especial do pensar e do sentir. Da a apresentao de tipos 
inconfundveis, substancialmente nacionais, que perambulam nos volumes.
        Em seguida, a graa, - graa desajeitada, muita vez, - como a das formosas virgens da roa, graa desataviada e fresca, a provocar indulgente sorriso de 
simpatia.
        Dominando, embebendo tudo, acendrada poesia. Porque Bernardo Guimares foi primordialmente poeta. Poeta pela fina sensibilidade, pela opulncia das sensaes, 
pelo transcendente predicado de perceber e traduzir aspectos sutis do mundo material e do mundo ntimo. No j de seus versos, mas de seus mnimos escritos exala-se 
poesia. Poesia inconsciente, como a do pssaro trinando, ou a do arroio a derivar. 
        Poeta pela maneira como produziu, pelo jeito do seu viver.
        Embora desordenado, escreveu bastante. Foi um ativo, um fecundo. Considerando a existncia que levou, o meio onde o seu esprito evolveu, desprovido de estudos 
e estmulos, ningum se eximir a lhe admirar assim a cerebrao como a fertilidade dela decorrente.
        Ser de eleio, dotado de nobre engenho, no o malbaratou. 
        Poderia deixar ainda mais e ainda melhor? Poderia, sem dvida. Abundam em seus livros fragmentos esparsos de obra prima. Coordenados, ajustados com pacincia 
e tempo, eliminadas as excrescncias, surdiria a obra prima absoluta e imortal.
        Mas o que deixou basta a lhe perpetuar a memria na estima e venerao de quantos o lerem; basta a lhe insculpir a figura na galeria dos brasileiros egrgios.
        Jacta-se Minas Gerais das pedras preciosas extradas das suas entranhas.
        Por maioria de razo, deve ufanar-se desta inteligncia.
        Nascida, descuidosamente lapidada no solo mineiro, despediu ela fulguraes inefveis, cristalizadas em livros, - fulguraes mais valiosas que as das gemas 
riqussimas.

                                        Affonso Celso

                Vila Petiote - Petrpolis - VII - 1905








OS BANDIDOS

        Nas sombrias e lbregas2 serranias que demoram ao sul de Ouro Preto, nas vizinhanas do pequeno arraial do Itatiaia, que ento no existia e que hoje em 
runas tende a desaparecer do mapa da provncia, se  que algum dia a figurou, h um pequeno vale dominado por um serrote de singular configurao.
        Quem, passando ao p do Itatiaia, se dirige para a Capital de Minas, depois de passar sobre uma ponte o ribeiro que tem o mesmo nome do arraial, sobe continuamente 
por espao de cerca de meia lgua at chegar a esse pequeno vale no meio do qual desliga um regato a cuja margem esquerda se estende uma vargem de uns cem metros 
de largura. Esta vargem, elevando-se em suave declive, vai morrer ao p de um serro que se eleva abrupto e alcantilado3, quase a prumo, em extenso de meio quilmetro, 
como a barbac4 de um castelo de gigantes. O que concorre ainda para dar-lhe a mais perfeita semelhana  de uma fortaleza colossal,  que, sobre seus cimos, traados 
por uma linha horizontal quase sem inflexo alguma, dois cmoros se elevam nas duas extremidades de forma to regular que imitam perfeitamente dois torrees como 
esses que na velha Europa guarneciam as antigas muralhas das cidades gticas.
        A poca em que comeam os acontecimentos de cuja narrao nos vamos ocupar  nos primeiros anos do sculo passado, poca em que os exploradores portugueses 
e as bandeiras paulistanas cruzavam as regies destas minas em contnuo movimento,  semelhana das tribos selvagens.
        Figuraram ento trs nomes que ficaram para sempre clebres nos anais dos primeiros descobridores das minas: - Amador Bueno, Borba Gato e Nunes Viana.
        Os dois primeiros, paulistas, fiis e submissos s leis e autoridades da Metrpole, mas aventureiros audazes e ambiciosos, s curavam de estender suas exploraes 
por todo o territrio de Minas. O terceiro, Nunes Viana, era portugus, mas a acreditar-se a tradio muito verossmil, viera ainda criana para o Brasil, e era 
to bom sertanista como qualquer dos outros. Enriquecera extraordinariamente, e por seu tino e habilidade alcanara tal influncia e prestgio entre seus patrcios, 
que estes, suportando com impacincia o jugo das leis do Reino, se insurgiram e aclamaram seu chefe a Viana, que nesse posto causou bastante inquietao ao governo 
do reino. 
        V-se, pois, que no eram os paulistas os mais rebeldes ao governo da metrpole, mas sim os portugueses. Todavia no era em todos os pontos das minas que 
isto sucedia; isolados e dispersos como andavam os diversos grupos de uma e outra origem, por toda a vasta extenso, no podia haver entre eles uma combinao geral, 
e nem sempre eram os paulistas os vassalos fiis, nem os emboabas os revoltosos; mesmo em uma ou outra localidade se congraaram sem se dar entre eles a menor ciznia5, 
como se ver no decurso desta narrativa.
        Ali, bem ao p do serro, junto a um rancho coberto de capim e de beira de cho, sentados sobre a relva, em um dia de novembro de 1709, achavam-se trs vultos 
que conversavam entre si em tom grave, sombrio e misterioso.
        Estes trs personagens divergiam essencialmente entre si na cor, no trajo e na fisionomia. O que se achava colocado entre os dois era um jovem de cor branca, 
e, posto que com a tez bastante tisnada pelos rigores do sol tropical, mostrava pelas feies nobres, regulares e caucasianas; que em suas veias girava sem mescla 
sangue europeu, talvez andaluz ou castelhano. Estava todo vestido de couro de veado e trazia na cabea um largo sombreiro de palha de coqueiro; tinha por armas um 
punhal com guarnies de prata, uma escopeta e uma pistola de dois tiros. Em sua fisionomia ressumbrava um certo ar de sombrio abatimento. O outro era um ndio, 
tambm moo, que no rosto e no olhar tinha uma expresso franca, audaz e resoluta; vestia os restos esfarrapados de uma camisa e calo tecido de algodo grosso. 
Trazia no cinto uma comprida faca de mato e jaziam-lhe ao lado, sobre a relva, um reforado arco e um feixe de flechas. 
        O terceiro era um preto de estrutura agigantada, algum tanto mais idoso que seus comparsas, mas que parecia ser tanto ou mais gil e robusto que os outros. 
Os ndios e espadados ombros nus luziam-lhe ao sol como bano brunido; trazia como nica vestimenta um saiote ou tanga de couro de ona que da cintura lhe descia 
at um pouco abaixo dos joelhos. Suas feies enrgicas e pronunciadas nada tinham da grosseria e irregularidade africana e indicavam pertencer ele a essa raa mina, 
cujo tipo em nada diverge do rabe ou do muulmano, seno na cor da pele ou no encarapinhado dos cabelos. Suas armas eram uma faca de ponta e uma comprida azagaia 
munida de aguda choupa de uma madeira to rija como o ferro. Mais ao longe, em distncia de uns duzentos passos, se divisava, remoinhando, um grupo confuso de vinte 
e tantos a trinta homens, em porte, feies, traje e armamento to originais e divergentes entre si, como os trs que acabamos de descrever. 
        O leitor naturalmente pensar que essa tropilha no  mais do que um bando desses exploradores ou bandeirantes que percorrem os sertes, afrontando todos 
os perigos, sujeitando-se a todo gnero de privaes para descobrir jazidas de ouro ou pedras preciosas; e nem outra coisa  de presumir.
        Ouamos o dilogo que entre si travam os trs personagens de que acima nos ocupamos, e veremos at que ponto pode ser exata a nossa conjetura. 
        - Itapema - disse o branco, dirigindo-se ao caboclo, - estou quase a desesperar. H mais de quatro meses que andamos foragidos por estes ermos e nada conseguimos, 
nem gente, nem ouro.
        - Se quer que lhe fale verdade, patro, - respondeu o bugre, - ns no fizemos bem em vir para to longe. L mesmo pelas redondezas de S. Joo d' El Rei, 
hoje mais perto, amanh mais longe do arraial, se podia ter arranjado gente para dar cabo daquele maldito Capito-mor e de toda a sua grei.
        - Mas Itapema, e minha cabea a prmio. E os agentes assassinos, a quem prometeram quantos mil cruzados?... j nem me lembro...
        - Vinte, patro.
        - Ah! bem vs... por aquelas imediaes todos me conhecem perfeitamente e no haveria disfarce que pudesse me livrar do punhal dos prfidos e avaros assassinos, 
e eu no quero morrer sem me justificar aos olhos de Leonor, sem desmascarar o infame Fernando e salv-la, vingando-me dele.
        - Sim, patro; mas mesmo para isso, no teria sido melhor ficar por l, mais perto?... ao menos poderamos ter notcias de nossa gente que l ficou nas unhas 
do capito-mor e do maldito Fernando; de D. Leonor, de minha Indaba, de mestre Bueno... quem sabe o que ser feito deles?!...
        - Sim, meu amigo; esta incerteza da sorte das pessoas a quem tanto amamos, por quem temos feito tantos sacrifcios,  sem dvida mais um martrio cruel; 
mas por l, nos domnios do capito-mor, a vigilncia deve ser extrema, e, antes que pudssemos arranjar meios de fazer frente a eles, e exigirmos com as armas na 
mo aquilo que, bem podemos dizer  nosso, que constitui nosso cabedal, nossa ventura e nossa paz, tnhamos de ser vtimas de alguma emboscada bem armada, ou de 
alguma traio.
        - Ah! meu branco! - exclamou o negro, erguendo o corpo musculoso e firmando-se na azagaia arrimada ao cho. Para que a gente h de estar aqui agora a cismar 
no que j se passou e a lastimar  toa a sorte da gente que l ficou nas mos daqueles malditos?  O que est feito, est feito. Uma vez que estamos aqui vamos ver 
se ajuntamos gente. Estamos em Vila Rica; sempre eu hei de encontrar algum malungo6 meu, que me queira acompanhar...
        - E eu aposto, replicou vivamente o bugre, que, pelo menos uns vinte dos meus irmos do mato, posso arranjar; e com mais vinte ou trinta pessoas podemos 
bem avanar para S. Joo d' El Rei, ficando por minha conta amarrar toda aquela corja de emboabas.
        - No  to fcil como supem, meus amigos. Tenho grande confiana na amizade e dedicao de ambos, mas  preciso pensar...
        - Pensar em qu, Senhor Maurcio, - falou com sofreguido o ndio.
        - Maurcio! ... No te lembras que no deves pronunciar esse nome! ... no te esqueas, eu me chamo Gaspar e tu Itaubi...
        -  verdade, patro, tinha me esquecido.
        - E eu, todos me conhecem por Joaquim; mas agora se no me chamarem Zambi, eu no acudo.
        -  preciso fazer-vos sempre esta advertncia.
        - Certo; mas daqui em diante no havemos de esquecer mais.
        - Pelas bandas de Sabar e Caet nada pudemos conseguir; Nunes Viana ali persegue os meus patrcios e os enxota como as feras do mato e foi-nos preciso fugir 
de l, como fugimos de S. Joo d' El-Rei. Em Itaverava, onde eu esperava encontrar Amador Bueno, que de certo nos prestaria auxlio  contra o inimigo comum, no 
encontramos ningum. Queira Deus que o mesmo no acontea em Vila Rica.
        - Pois bem, - disse Gaspar, eu parto agora mesmo para Ouro Preto, que fica a mais de trs lguas de distncia; vou sondar os nimos e ver se posso obter 
a com o Padre Faria e Antonio Dias, que so paulistas, o que no pudemos arranjar em Sabar, Caet e Itaverava.
        - Mas, por que h de ir sozinho, patro? O patro bem sabe que nasci nestas serras e, posto que sasse daqui pequenino, ainda me lembro de tudo isto palmo 
a palmo. Quero ir com o patro.
        - No  preciso, Itaubi, eu tambm j por aqui andei e conheo bem estes sertes. Tu e Zambi levai nossa gente para o alto desse morro. Costeando pela esquerda 
h caminho muito bom para l subir...
        - Oh! bem estou me lembrando, patro! H l em cima uma extensa campina e uma grande lagoa, caa, pesca com fartura e muito palmito pelas beiras do morro. 
L ficaremos s mil maravilhas. 
        - Tanto melhor, Itaubi. Desse ponto, tu com Zambi bem podes encontrar, em tuas sadas para caar e procurar palmitos, alguma gente, alguns dos teus parentes 
do mato que rodam por estas montanhas; procura angari-los... No preciso te dizer mais nada seno que  necessrio muito cuidado para que nenhum da nossa gente 
deserte.
        - No tenha susto, patro; deixe tudo por  nossa conta e se Deus nos ajudar, o patro h de achar mais algum no nosso rancho.
        - A vosso respeito, meus amigos, eu vou com o corao bem sossegado; mas no sei o que me suceder l pelo Ouro Preto.
        - Oh! patro; se acha que corre algum perigo, por que vai sozinho? Por que no vamos todos?
        - Perigo srio no h contra minha pessoa; os que l governam so paulistas e meus conhecidos; mas tenho pouca esperana em seu auxlio.
        - Nesse caso,  melhor ficar conosco: vamos procurar s gente do mato. 
        - No. Meu branco, v sempre, para ajuntar gente do mato ns dois chegamos.
        Da a momentos, a pequena tropilha se ps em movimento, e, depois de costear a ponta oriental do serrote, aquele bando de homens tomou a esquerda, subindo 
por uma encosta bastante ngreme, mas muito acessvel, em procura de palmito, enquanto Maurcio, guiando-se mais pelo rumo, pelas vertentes e serros desse pas que 
j conhecia, do que pelos mal abertos trilhos e confusas veredas que ento existiam, se dirigia para Ouro Preto.
        Estas paragens eram, ainda inspitos e incultos sertes onde apenas se divisavam, aqui e alm disseminados, alguns comeos de toscas povoaes e alguns fracos 
vestgios da passagem dos inquietos e vagabundos exploradores, que as percorriam em procura de ouro e pedras preciosos.
        J nesse tempo Antnio Dias e o padre Faria lanavam os fundamentos de Vila Rica nos bairros que at hoje conservam os nomes dos dois ilustres paulistas 
e onde existem ainda as venerandas relquias daquela poca.
        Ento o pequeno vale, que  hoje atravessado pela estrada que comunica Ouro Preto  Corte, era um recesso escuro e ignorado.

CAPTULO II

Ouro Preto em 1709

O PADRE JOO DE FARIA FIALHO

        O bandido que havia partido do Itatiaia s duas horas da tarde chegara a Ouro Preto ainda no era sol posto. Quando, havia oito anos, a estivera pela primeira 
vez, comeavam apenas a desbastar o solo de bastas e emaranhadas florestas que o cobriam, e apenas aqui e acol via-se uma arranchao pendurada dos alcantis7, ou 
quase sumida no fundo dos grotes e alguns acervos de cascalho e esmeril pela beira dos crregos.
        Ao chegar a o bandido, a tarde estava morna, serena e radiante, mas no silenciosa. O eco refrangia pelas quebradas das montanhas os ltimos golpes do almocafre8 
e do alvio9 entre alegres vozerias. Avizinhava-se a hora em que os trabalhadores, largando o servio, punham as ferramentas ao ombro e se recolhiam s suas habitaes, 
cantando ou conversando alegremente.
        As falas do povo, que palrava e cantarolava, casavam-se admiravelmente com o marulhar das guas dos ribeiros que chocalhavam brincando e enredando-se entre 
o cascalho. Grandes borboletas azuis e brancas esvoaavam como flores volantes, pairando e pousando sobre as areias alvas e cintilantes das praias. 
        Andando por entre essas turmas, o bandido via ali uma casa que se construa, acol os alicerces de um templo e de outros edifcios que at hoje so notveis, 
seno pela grandeza e elegncia, ao menos pela solidez da construo e pela superior qualidade dos materiais empregados.
        O bandido passava maravilhado por entre esses grupos que trabalhavam, alegres e descuidosos, e notava o vivo contraste que se apresentava no aspecto daquele 
descoberto comparado com o de S. Joo d' El Rei, onde os trabalhadores, livres ou escravos, taciturnos e cabisbaixos, pareciam manejar contra a vontade a ferramenta 
e, em vez de cantiga alegre e algazarras, murmuravam a meia voz queixas e maldies.
         que em Vila Rica no tinha lavrado a ciznia que separava paulistas e portugueses, e ambos os grupos congraados lavravam o mesmo solo sem rivalidades 
odiosas, sendo qualquer conflito, que porventura entre eles surgisse, logo terminado com prudncia e esprito de justia pelos dois ilustres chefes paulistas, a 
quem todos acatavam. 
        De fato, Antnio Dias e o padre Faria, como todos os outros chefes e descobridores, governavam com poder absoluto essas colnias, que, sem leis nem autoridades, 
separadas por longas distncias e nvios10 sertes dos centros administrativos, viviam quase como em regime patriarcal; e, portanto, no  para admirar que das boas 
ou m qualidades de seus chefes dependessem, muitas vezes, a paz e a prosperidade desses nascentes povoados.
        Gaspar, com ar sombrio e abatido, abeirando os crregos, ora encontrando, ora mesclando-se com diversos grupos de trabalhadores que se recolhiam em todas 
as direes, procurava em vo achar alguma pessoa conhecida, paulista ou emboaba, bugre ou negro.
        Por fim enxerga um ndio velho, que se achava em companhia de um moo da mesma raa e que, longe de acompanharem a alegria geral, se tinham deixado ficar 
assentados ao lado um do outro, como que conversando tristemente.
        Pelo caminho, Gaspar ia monologando consigo:
        - Aqui tudo est satisfeito e contente; no acho companheiro. Aqui h paz e alegria, no  como em S. Joo d' El Rei.
        Quando, pois, encontrou os dois bugres, cujo ar de descontentamento se harmonizava com a situao do seu esprito, dirigiu-se afoitamente a eles.
        Gaspar conhecia algum tanto a lngua indgena e em um dialeto misturado pediu que lhe ensinassem a casa do Padre Faria.
        - Somos de l, - respondeu o velho - e estamos descansando um pouco para nos recolhermos.
        O ndio velho respondeu em to bom portugus, que Gaspar ficou maravilhado, comeando portanto, a falar com ele a lngua portuguesa sem mescla de indianismo.
        - Quero que me conduzas  casa dele. 
        - Daqui at l no tem nem um quarto de lgua - podemos ir conversando pelo caminho.
        - Pois vamos.
        O ndio pegou em sua ferramenta, o alvio, o almocafre e o carumb11, o filho fez outro tanto e puseram-se os trs a caminho, Gaspar, o bugre velho e o moo.
        Gaspar, que marchava atrs, observando-os com ateno, notou que tanto um como o outro traziam ao pescoo, em vez dos enfeites selvticos, rosrios e bentinhos; 
compreendeu que eram j catequizados e cristos e tratou de entabular conversao com eles.
        - Ento, como te chamas, meu velho?
        - Quando estava com os meus companheiros do mato me chamavam Tacapemba, e a este curumim12, que  meu filho, Juruci. Mas sinh Padre Faria quando nos batizou, 
me botou nome de Jos e a este o de Francisco.
        - H muito tempo que esto em poder dos brancos?
        - H muito mais de dez anos.
        - J deviam estar acostumados a servi-los; mas pelo ar de abatimento em que os vejo, parece-me no estarem to satisfeitos como os outros trabalhadores deste 
povoado.
        - Que quer, meu branco? A idade  muita e eu tenho padecido tanto!...
        - Pois o Padre Faria no os trata bem?
        - Muito bem, o sinh Padre  um santo homem e nos trata muito bem, mas uns malvados emboabas, que nos agarraram no mato  traio, a mim, a minha mulher 
e a meus colomins, que eram quatro, mataram o mais velho que procurou resistir; a menina, que j era grandinha, foi dada a um perro de paulista velho que, em pouco 
tempo, a poder de maldade, enviou a pobrezinha para o outro mundo. O segundo, que era um rapazito muito vivo e muito bonzinho, foi enviado para longe, para S. Paulo 
do Piratininga; e, por mais que me diga o sinh Padre que ele est l muito bem arranjado, com um patro muito bom, assim mesmo meu corao no fica sossegado. Ele 
era o mimo, o regalo de minha pobre companheira, que a semana passada deu a alma a Deus! Coitada! To desconsolada por no ver o filho! Ah! meu Deus!... estou vendo 
que tambm vou morrer sem enxergar mais o meu colomim.
        Gaspar escutava comovido as palavras do velho indgena, que no pareciam sair dos lbios de um selvagem catequizado j em idade avanada, mas, sim, de um 
velho cristo que desde o bero professara a religio do Crucificado. Percebeu que o desventurado pai de famlia enxugava furtivamente com a palma da mo, ao proferir 
aquelas palavras to repassadas de d e sentimento, umas lgrimas escassas, que lhe brotavam dos olhos quase exaustos e, sulcando-lhe as faces, nela se embebiam 
como gotas de chuva pelos rigores da seca.
        Enquanto Gaspar, enternecido, maravilhava-se de ver em um filho daquelas brbaras e incultas regies uma alma to afetuosa e bem formada como a do velho 
caboclo, uma suposio, luminosa e rpida, como um meteoro, lhe atravessou o esprito.
        - E como se chamava esse teu filho? perguntou com sofreguido.
        - Chamava-se Itaubi; mas de certo por l j lhe deram outro nome.
        - Que feliz achado!... murmurou consigo Gaspar -  o pai do meu Antnio!...
        - Pois sossega teu corao, meu bom velho, - continuou em voz alta, - quando quiseres, tu poders ver teu filho.
        - Como?... quando? exclamou o bugre em alegre sobressalto.
        - No te posso dizer ainda; mas pode ser isso com mais facilidade e mais depressa do que imaginas.
        - Qual! murmurou o velho abanando a cabea com incredulidade - j estou muito velho. E dizem-me que Piratininga  muito longe; e que morrerei antes de l 
chegar. 
        - Mas, ele pode vir c.
        - Ah! isso sim!... mas ele, coitado, nem sabe onde estou, nem se sou vivo ou morto...
        - Tem esperana, meu bom velho; deixa tudo isso por minha conta. Eu sou de S. Paulo de Piratininga e conheo muito teu filho; no hs de morrer sem v-lo 
e sem deitar-lhe ainda muitas vezes a tua bno. Mas, por agora, apressemo-nos a chegar  casa do Padre Faria; estou impaciente por falar-lhe hoje mesmo sobre negcio 
da maior importncia.
        Esperanado com as palavras de Gaspar, o ndio sentiu novo alento dilatar-lhe o peito alquebrado, acelerou os passos, impaciente e ansioso por ter ocasio 
de ouvir da boca do forasteiro notcias mais circunstanciadas de seu filho. Gaspar, por seu lado, exultava dentro d'alma com aquele encontro to propcio, pois no 
lhe restava no esprito a menor dvida de que aquele velho selvagem era o pai do jovem ndio que vimos a seu lado junto  serra do Itatiaia.
        Escravo ou camarada do Padre Faria, pessoa nenhuma se achava em melhores circunstncias para conduzi-lo  presena daquele venervel sacerdote, cuja virtude 
e sabedoria eram apregoadas e exaltadas por todas as bocas naquela redondeza. A idia, porm, que mais lhe sorria era a esperana de encontrar nele e em seu filho 
o mas poderoso auxiliar para angariar por aquelas paragens mais alguma gente a fim de reforar o grupo de que dispunha, grupo ainda to fraco em vista da arriscada 
empresa em que pretendia aventurar-se contra os emboabas de S. Joo d' El-Rei. Parecia-lhe fora de toda dvida que o velho bugre, descontente da sua sorte com os 
brancos e ansioso por ver seu filho, no hesitaria um momento em abandonar o Padre Faria e associar-se a ele, levando o outro filho, arrebanhando parentes e conhecidos 
que, sem dvida, os teria muitos por aquelas brenhas. 
        Itaubi sara de dez anos daquelas paragens, onde nascera e, por certo, no teria tido seno mui confusa recordao das localidades e das pessoas de que vivia 
separado desde a infncia; mas reunido ao pai e ao irmo, com a dedicao ilimitada que votava a Gaspar, e com a resoluo, fora, coragem, tino e perspiccia de 
que era dotado, poderia, por certo, em pouco tempo, fornecer-lhe um valioso contingente. Parecia-lhe certo que Antnio no o abandonaria jamais para ficar em companhia 
do pai, que mal conhecia, em tranqilo e ignbil cativeiro; e no s a extrema amizade e dedicao que o ndio lhe votava, como principalmente o amor que votava 
 ndia Idaba, que ficara prisioneira em S. Joo d' El-Rei em poder do capito-mor, tambm eram garantia mais que segura ainda, se  possvel, que Itaubi jamais 
o abandonaria e no deixaria por motivo nenhum de acompanh-lo a S. Joo d' El-Rei. Era mais provvel, sem dvida, que o velho ndio, em vista da saudade e afeto 
que mostrava pelo filho que perdera, e do descontentamento em que vivia, no hesitaria em acompanh-lo por toda a parte.
        Gaspar, mui de propsito, no quis revelar ao velho que seu filho se achava ali bem perto, apenas a duas lguas de distncia; a sofreguido do pai para tornar 
ver o filho, cuja perda tanto lastimava, o faria talvez l ir procur-lo imediatamente, e no lhe convinha que se divulgasse a sua chegada queles sertes com o 
bando que capitaneava. Reservava-se para, em ocasio mais azada, conversar largamente com ele e sondar melhor a disposio de seu nimo.
        Refletindo assim, Gaspar e os dois ndios treparam silenciosamente uma extensa ladeira que vai  eminncia que hoje se chama - Alto da Cruz.
        Descambando do Alto da Cruz, os trs caminheiros desceram por um ngreme declive para o fundo de um estreito e sombrio vale, onde estavam as casas e os estabelecimentos 
do Padre Faria, paulista natural da Ilha de S. Vicente, que penetrara nas Minas e ali viera se estabelecer com uma bandeira, da qual era ele ao mesmo tempo o chefe 
e o capelo. Viera pouco tempo depois do seu conterrneo Antnio Dias, que se achava estabelecido no bairro que tambm at hoje conserva o nome de seu fundador.
        Havia j nove para dez anos que os dois ilustres paulistas, com razo considerados os fundadores da Capital de Minas, se tinham ali estabelecido, e, entretanto, 
como  natural, a povoao nascente apresentava mais o aspecto de um acampamento provisrio e temporrio do que os delineamentos e planos para uma futura cidade. 
E esse desalinho e falta de simetria nos edifcios persistiu e veio a dar  cidade de Ouro Preto, alm do acidentado do terreno, o privilgio de ser a mais irregular 
de todo o mundo.
        Todavia j nesse tempo o bairro do Padre Faria, que era ento o ncleo principal do extenso povoado, apresentava certos visos de uma aldeia mais ou menos 
regular. 
        Graas aos esforos, atividade e  boa vontade de seu fundador, j a se achava ereta a pequena capela que at hoje existe, solidamente construda de pedra 
e cal, tendo em frente uma grande cruz de pedra. A casa do Padre Faria era vizinha  capela e, como esta, pequena, mas construda com solidez; os mveis asseados 
de jacarand preto modelados segundo o gosto da poca, por artfices que consigo trouxera.
        Faria no escravizava os ndios; provavelmente filiado  Companhia de Jesus, como eram quase todos os sacerdotes daquela poca, no s por ndole, como por 
esprito de disciplina, os protegia; era um eloqente pregador e um grande catequista.
        Era o seu arraial composto de grande nmero de famlias indgenas por ele catequizadas. Tinha lavras de que tirava grandes cabedais, mas no se locupletava; 
empregava os rendimentos em benefcio da catequese, em alfaias e ornamentos para a capela e em outros muitos atos de caridade. Era um verdadeiro patriarca no meio 
de sua tribo pacfica e laboriosa.
        Chegados  casa do padre, o velho indgena deixou  porta Gaspar com seu filho e penetrou no interior da habitao. Da a momentos voltou com o padre, o 
qual veio  porta e guiou seu hspede  pequena sala modestamente mobiliada com algumas cadeiras de jacarand, de assento de sola lavrada, e uma mesa da mesma madeira, 
sobre a qual ardiam duas velas de cera amarela cravadas em grandes castiais de prata, em frente de um bonito oratrio, o que tudo dava quele recinto ares mais 
de sacristia do que de sala de visita.
        O padre era homem de uns cinqenta anos, de porte mediano, compleio vigorosa, fisionomia inteligente e expressiva; apesar da simplicidade do seu trajo, 
de suas maneiras lhanas e afveis, tinha em seu olhar um no sei qu de grave e severo que incutia respeito e ante o qual Gaspar no deixou de sentir-se impressionado.
        - Tenho muito prazer todas as vezes que hospedo em minha casa um patrcio, - disse o padre ao desconhecido, depois dos primeiros cumprimentos.
        - Ao que parece V. Merc anda foragido; talvez seja um desses infelizes a quem persegue o Sr. Nunes Viana, esse homem fatal que no quer prestar obedincia 
s leis do reino. Pode estar certo que aqui h de achar no s refgio e abrigo seguro, como tambm meios fceis de fazer fortuna, se quiser trabalhar. No estamos 
em desavena com ningum, merc de Deus, nem mesmo com os gentios; obedecemos de boa vontade s ordens d' El-Rei e pagamos de bom grado o tributo que lhe  devido. 
Paz e trabalho  a nossa divisa.
        Este intrito acabou de desconsertar Gaspar, que ali no vinha com nenhuma inteno pacfica nem vontade de estabelecer-se, mas sim com o interesse de agenciar 
auxlio e gente para uma resistncia  mo armada contra os opressores dos paulistas em S. Joo d' El-Rei. Pareceu-lhe que aquelas palavras eram ditadas pelo receio 
que, porventura, lhe inspirava o seu traje quase selvtico; e que sua chegada sem comitiva alguma e o ar sombrio e merencrio, que em vo procurava dissimular, despertavam 
desconfianas no esprito do padre.
        Conservou-se mudo por alguns instantes, perplexo, sem atinar com o que deveria responder.
        - Enfim, - continuou o sacerdote, como para provocar uma resposta do seu hspede, - estou ansioso por saber quem  e o que pretende deste velho servo de 
Deus, que est pronto para o seu servio em tudo que no ofenda  lei divina nem a de El-Rei, nosso Senhor.
        As palavras do padre cada vez mais confundiam e desalentavam o msero Gaspar. Dir-se-ia que j tinha adivinhado quem era ele e as intenes com que vinha 
j lhe tinham sido denunciadas.
        - Minha cabea vale mil dobras e h centenas de caadores que a procuram e a cobiam com mais avidez do que o mineiro que esfuraca a terra em busca do ouro 
ou do diamante. Mas ai deles! antes que recebam o preo de minha cabea ho de provar a fora de meu brao, - pensava ele consigo. No tinha razo para pensar assim 
porque se achava entre bons e leais paulistas, os quais, ainda mesmo que tivessem notcia de quem ele era, e da perigosa e precria situao em que se achava, seriam 
incapazes de tra-lo. A hesitao e embarao de Gaspar durou poucos momentos, a dissimulao repugnava ao seu carter franco e resoluto; compreendeu que muito tardava 
em se explicar.
        - No venho aqui perseguido por Nunes Viana, senhor padre, e nem tampouco vim procurar estabelecer-me aqui com o fim de enriquecer-me. As minhas circunstncias 
so bem diferentes do que pensa Vossa Reverendssima; mas para que d conta dos motivos que me trazem a Ouro Preto e  presena de Vossa Reverendssima,  preciso 
que narre e explique por mido os graves acontecimentos que se deram, h perto de um ms, em S. Joo d' El-Rei, nos quais tomei grande parte.
        - Ah! - exclamou o padre com grande curiosidade, - j por aqui tnhamos tido uma leve notcia de que por l houve grandes distrbios e muita mortandade. 
Muito desejo saber de sua boca o que l houve, visto que diz ter tomado parte nesse movimento ou levante.
        - Tomei parte, sim, senhor padre, e parte bem importante e  por isso que me vejo foragido e minha cabea posta a prmio por mil dobras!
        - Oh! que horror!... isso  deplorvel! Pois V. Merc acaso cometeria crimes que...
        - Tranqilize-se, senhor padre; no  um criminoso que tem em sua presena. A parte que tomei nesse distrbio no foi de um bandido feroz, nem de um vassalo 
revoltoso; foi pelo contrrio impelido por fatal necessidade e circunstncias quase incrveis que me vi forado a envolver-me nesse horrvel conflito para conciliar 
os espritos, poupar sangue e proteger a pessoa do capito-mor e sua famlia. No pude consegui-lo e eis a razo por que me vejo prescrito e perseguido.
        A bela presena de Gaspar, o tom respeitoso, mas de nobre seguridade com que falava, produziram logo forte impresso no esprito do Padre Faria, subindo 
de ponto sua curiosidade.
        - H de contar-me a sua histria, no  assim, meu amigo? disse dirigindo ao forasteiro em tom afetuoso.
        - Sem dvida, senhor padre; e isso at me  indispensvel. a fim de que Vossa Reverendssima fique ciente dos motivos que me trazem hoje a sua presena; 
mas a histria no deixa de ser um pouco longa, e receio incomodar Vossa Reverendssima a estas horas com a narrao de acontecimentos que em nada lhe podem interessar.
        - Por que no? - interrompeu vivamente o padre - tudo que diz respeito  sorte dos paulistas que tm vindo a estas minas me interessa grandemente. Pode contar-me 
sua histria sem o menor receio de importunar-me.
        - Mas alm disso, senhor padre, eu desejaria contar-lhe essa histria em ocasio em que ningum pudesse me escutar. Bem compreende quanto  melindrosa e 
arriscada a minha situao; a narrao dos acontecimentos que desejo fazer-lhe  como uma espcie de confisso que venho confiar aos ouvidos de um venervel e virtuoso 
sacerdote, debaixo de todo o sigilo.
        - Compreendo. No instarei mais por hoje; tambm Vossa Merc deve estar fatigado. V descansar que amanh pela manh lhe proporcionarei meios de contar-me 
a sua histria sem receio de ser ouvido. O ndio velho que aqui o trouxe vai lhe dar ceia e aposento. At amanh. 

III

        Gaspar, a despeito das preocupaes que lhe agitavam o esprito, dormiu profundamente essa noite. Para isso contriburam no s as longas fadigas da escabrosa 
vida de foragido que h dois meses levava, como tambm o tranqilo e confortvel aposento, o leito quente e macio como por certo nunca encontrara em seu errar por 
brenhas e montanhas. Este sono reparador foi-lhe muito til para fortalecer o corpo e vigorar o esprito, to quebrantado pelas viglias, privaes e fadigas de 
dois meses de uma vida fragueira13, inquieta e rodeada de contnuos perigos e sobressaltos. O ndio velho que guiara Gaspar  casa do Padre Faria, nesse dias no 
quisera ir ao servio de minerao; estava ansioso por saber da sorte de seu filho de quem Gaspar na vspera lhe dera notcias vagas, que lhe alvoroaram o corao 
de curiosidade e esperana. 
        Desde que Gaspar se levantou, no o perdeu mais de vista.
        O padre, logo ao romper do dia, como era seu costume, tinha ido dizer missa na Capela vizinha de que j falamos. O bugre querendo aproveitar de sua ausncia 
para colher de Gaspar informaes mais minuciosas a respeito do filho logo que se lhe apresentou ocasio, acercou-se do hspede e, com um gesto, sem dizer palavra, 
postando-se diante dele, fitou-o com certo olhar to significativo e suplicante, que Gaspar logo lhe compreendeu o sentido interrogativo.
        - Queres saber de teu filho, no  assim, meu velho? - disse Gaspar. Posso te afianar que no est longe, e que amanh, mesmo hoje, poders v-lo, se quiseres 
me acompanhar.
        - Pois ele est to perto, porque no pode vir c?... disse o ndio sacudindo a cabea.
        - Logo sabers o motivo; nada te poderei dizer enquanto no conversar com teu amo; mas se quiseres, j t'o disse, amanh mesmo poders ver teu filho.
        - Pois sim, branco, eu vou; preciso ver meu filho antes de morrer; eu vou, sim, mas com ele ou sem ele, tenho de voltar; Deus no quer que eu largue a companhia 
de meu patro.
        - Fars o que quiseres, mas talvez te resolvas a ir comigo e com teus dois filhos para as bandas de S. Paulo de Piratininga.
        - Isso nunca, meu branco. Estou velho e cansado, j no presto para nada; devo morrer mesmo nestas serras onde nasci e quem me batizou  quem me h de enterrar...
        - E quem foi que te batizou?
        - Pois no sabe?... quem mais poderia ser? Quem me batizou a mim, a minha defunta e os meus filhos todos foi... aquele santo homem que l vem. 
        Era o padre Faria que saa da Capela e se recolhia  casa.
        O bugre retirou-se e Gaspar ficou  espera do seu hspede. 14
        - Depois de almoar iremos dar um passeio por estes arredores - disse o padre - e ento teremos ocasio de conversar sem testemunhas.
        De feito, depois do almoo, que foi frugal, mas suculento, o padre conduziu o mancebo beirando o longo de um crrego, por entre montes de cascalho j apurados 
e servios abandonados, at a um recesso semicircular, uma espcie de gruta descoberta, onde penetrava a luz de um formoso dia, formada por um grupo de massias 
(ver grafia) rochas, e tapizadas de tenra relva macia. Era enfim, um recanto misterioso que serviria maravilhosamente de rendez-vous para entrevistas e confidncias 
amorosas mas que ia agora ouvir horrveis e sinistras revelaes de um bandido.
        A seus ps murmurava brandamente, a alguns passos de distncia, o regato que vieram bordejando e que descia saltitando por entre alvas areias e cascalho; 
por cima, uns arbustos florescidos meneavam-se brandamente ao sopro da virao que entornava de vez em quando algumas ptalas cheirosas sobre eles e sobre a relva 
macia em que se reclinaram. 
        Era um pequeno e delicioso cenrio, mais prprio para servir de esconderijo s confidncias de um amor feliz do que para as sombrias revelaes que o leitor 
vai escutar.
        Sentados ali sobre a relva, Gaspar comeou assim sua narrao.
        - Em primeiro lugar, meu reverendo padre, devo declarar-lhe que o meu verdadeiro nome no  Gaspar, mas, sim, Maurcio, o nome que recebi na pia da S em 
S. Paulo de Piratininga. se uso de outro nome,  por motivos que Vossa Reverendssima ficar sabendo depois que ouvir a histria dos acontecimentos que lhe vou contar.
        Espero que depois que V. Reverendssima me tiver escutado, no me ter em conta de um aventureiro ambicioso e sem corao, nem de um vassalo rebelde que 
no quer sujeitar-se s leis e ao domnio de El-Rei, nosso senhor.
        Se vivo foragido  e perseguido como uma fera, no  por crimes que eu tenha cometido, mas por circunstncias de acontecimentos extraordinrios em que me 
vi envolvido em S. Joo d' El-Rei. Mas, para esse fim, me  preciso contar-lhe a minha histria com muitas minudncias e particularidades e muito receio tomar a 
V. Reverendssima um tempo precioso, incomodando-o com uma longa narrativa.
        - No lhe d isso cuidados, senhor Maurcio; conte-me, tudo muito por mido, que com isso em vez de incomodar-me, dar-me- grande satisfao. Se no puder 
terminar agora, deixar o resto para a tarde, e, se ainda lhe ficar alguma coisa a dizer, deixaremos para o dia de amanh.
        Maurcio comeou ento a contar, por mido, ao padre Faria a histria que constitui o assunto do nosso romance, que tem por ttulo "Maurcio ou os Paulistas 
em S. Joo d' El-Rei. 
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        Neste ponto batia meio dia na capela; o padre Faria interrompeu Maurcio:
        -  tempo de ir ensinar a doutrina a meus catecmenos, depois do que irei revistar os servios de minerao e algumas obras que estamos fazendo.  tarde, 
V. Merc poder continuar a relao de sua histria que muito est me interessando. Se no quiser acompanhar-me pode ficar em nossa casa; l achar o ndio velho 
que o conduziu, o qual servir em tudo que for mister.
        Bem desejava Maurcio acompanhar o sacerdote na dupla faina de colher almas para a religio do crucificado e ouro que assegurasse a prosperidade de sua nascente 
colnia... porm, maior era o interesse que tinha em achar-se a ss, dispondo de tempo para conversar largamente e em plena liberdade com o velho pai de Antnio. 
Se conseguisse chamar a si o velho chefe de tribo que ainda contava por aquelas brenhas em derredor numerosos arcos, prontos a acompanh-lo a toda parte, a um aceno 
seu, poderia marchar sobre S. Joo d' El-Rei com boas esperanas do feliz xito de sua empresa.
        O padre foi para a igreja e Maurcio para casa. Nesse intuito contou ao velho chefe indgena a histria de seu filho e a amizade que entre eles existia, 
fazendo-lhe as mais sedutoras promessas a fim de o conjurar a acompanh-lo a S. Joo d' El-Rei com seus dois filhos, e reunir os restos de sua tribo, espalhados 
pelo mato. Nada pode obter do velho seno a promessa de ir ter com Itaubi no dia em que Maurcio voltasse a Itatiaia. Desanimado, Maurcio contentou-se com essa 
promessa.

CAPTULO IV

         tarde, depois do jantar, Maurcio continuou, mesmo em casa do padre, sua narrativa, a qual terminou pela noite.
        - Agora vejo, depois do que acaba de me contar, que so bem tristes, bem complicadas e cruis as circunstncias em que V. Merc se v enredado. Eis a em 
que do estes amores to fceis quo impossveis, que se contraem na meninice. Devia ter comprimido, desde a nascena, essa fatal inclinao.
        - Devia, bem o sei; mas, meu padre, o clculo e a reflexo so coisas que se no compadecem com o amor e a mocidade.
        -  isso uma triste e pura verdade - disse com amargo sorriso o padre - mas vejamos o que pretende agora V. Merc fazer.
        - Pelo que acabo de lhe expor, bem v Vossa Reverendssima que me  foroso j no obter uma felicidade a que aspirei ardentemente e que talvez jamais poderei 
alcanar, por no ser digno dela, mas lavar meu nome da ndoa de traio que o mancha em S. Joo d' El-Rei, tanto perante meus patrcios como perante o capito-mor 
e sua filha; e para chegar at a presena do capito-mor, me  preciso abrir caminho  mo armada. 
        - Mas, V. Merc com um corao to bem formado, querer levar a guerra, a devastao, o sangue  habitao de seu benfeitor?...
        - No, de certo; mas se Vossa Reverendssima deu ateno  minha histria, ver que meu principal intento  salvar o capito-mor e sua filha, a fim de, perante 
eles, provar a minha lealdade e depois morrer.
        - No era melhor - replicou com grande fleuma o bom padre Faria - esquecer estas tristes aventuras, deixar l o capito-mor e sua filha e empregar-se aqui 
nestas lavras que so muito mais ricas do que as vossas de S. Joo d' El-Rei? Ficar aqui seguro e tranqilo, eu lhe afiano: com a habilidade e boas disposies 
que mostra ter, pode enriquecer-se e ser to considerado e poderoso como Bueno e Borba Gato.
        - No, senhor. No poderei viver aqui tranqilo; a sanha implacvel de meus inimigos me procurar por toda parte: ningum pode estar livre de uma traio. 
Nem a segurana de minha pessoa, nem a paz de meu corao acham aqui refgio. Vim - falo-lho agora com toda a franqueza - a ver se acho aqui algum reforo de homens 
que me coadjuvem na tentativa honrosa, que j expus, de ir justificar-me na presena de Diogo Mendes e sua filha da triste reputao em que as circunstncias me 
colocaram. Justificar-me e inocentar-me aos olhos de ambos  o meu principal e ardente propsito; tendo conseguido isto, pouco me importa o que depois suceder. O 
que me arroja a estes extremos no  tanto o amor mal sucedido, como a minha honra, a minha lealdade posta em dvida, digo mal, inteiramente destruda ante pessoas 
a quem tenho tributado a mais extrema dedicao, respeito e amor, e tudo isso pelos ardis de um celerado, de um ambicioso, intrigante e infame... ah! senhor padre, 
desculpe-me estas palavras odientas e inflamadas... em sua conscincia pura, em sua alma cndida e tranqila, que nunca esteve exposta ao embate das paixes, no 
pode V. Reverendssima, de certo, compreend-las; mas se h dio santo, se h vingana que merea as bnos do cu...
        - Perdo - atalhou o padre, est blasfemando; no h vingana alguma legtima tomada pela mo do homem... s Deus  justo, s Deus  reto; a ele s compete 
vingar e punir os transgressores de sua santa lei.
        - Mas ele pode servir-se de um instrumento para dar execuo s sentenas de sua eterna justia... meu brao  o instrumento escolhido por ele...
        - Cale-se, moo; a justia do Eterno nunca deixa de fulminar a cabea do criminoso; mas quem lhe disse que  V. Merc o encarregado da execuo dos decretos 
de sua vontade onipotente? Assim quer V. Merc punir um crime com outro crime?... e Deus mandar tambm um outro executor para puni-lo do crime que cometer.
        - Crime no, senhor padre; minha vida est em perigo constante, e a minha honra calcada aos ps de um miservel aventureiro sem brio e sem conscincia. Defender 
a prpria vida e a honra, por qualquer modo que seja, no  crime, nem perante Deus, nem perante a sociedade.
        O padre empregou ainda, em vo, por algum tempo, os recursos de sua palavra branda e suasiva para demover o mancebo de sua temerria empresa; mas viu-se 
suplantado sempre pela dialtica enrgica e fogosa de Maurcio que, alm de ser inspirado pela paixo, desenvolvia recursos de hbil polemista, graas  educao 
que recebera e a sua bela inteligncia.
        - Bem vejo que nada h que o arrede do obstinado e louco intento em que com tanto aferro persevera. Deixo-lhe o campo livre e lavo as mos sobre as conseqncias; 
declaro-lhe somente que em nada lhe posso valer. Na qualidade de sacerdote de Cristo e como sdito e vassalo fiel de S. Majestade Fidelssima, El-Rei de Portugal, 
no devo e nem posso cooperar, nem prestar auxlio algum  arriscada empresa em que V. Merc pretende se empenhar. Posso lhe fornecer alguns vveres para as necessidades 
de sua jornada, se deles tem preciso, mas no devo prestar-lhe nem armas nem soldados para empreg-los contra uma autoridade constituda por El-Rei. 
        No poderei impedir aqueles que quiserem acompanh-lo, pois no so meus escravos; s tenho irmos em Jesus Cristo; mas protesto, desde j, que iro contra 
a minha vontade. Espero que no se enfadar comigo por falar-lhe com franqueza.
        - Oh! no, por certo; e... posto que V. Reverendssima como que, por suas ltimas palavras, me autorizasse a angariar gente entre trabalhadores de seu arraial, 
no tentarei distrair nem um s deles da vida tranqila e invejvel, que aqui levam, para seguir-me atravs de riscos de minha vida errante. Mas devo declarar-lhe 
que no vim sozinho de S. Joo d' El- Rei; trouxe em minha companhia uns vinte camaradas foragidos e perseguidos como eu e pela mesma causa. Deixei-os a cerca de 
duas lguas daqui em um lugar chamado Itatiaia.
        - Ah!... sim?!... porque os no trouxe consigo?...
        - No queria incomod-lo com tantos hspedes. So bugres e alguns negros que talvez lhe inspirassem terror.
        - So cristos?...
        - Nem todos; mas so criaturas que me obedecem e me so dedicadas. Entre eles se acha um moo ndio, por nome Itaubi, que  meu amigo de infncia  e que 
 filho do seu velho ndio Itapema.
        - Deveras!?... exclamou o padre - tem em sua companhia um filho de meu velho caseiro!...
        -  exato!  o meu amigo Antnio, de  que lhe falei em minha histria.
        Ontem, em conversao com ele, descobri isso ao velho bugre, que ficou muito contente por poder ver ainda o filho de que nunca se esqueceu.
        - Ah! ... ele tambm me tem contado a histria desse filho, e chora sempre que fala nele.
        -  verdade, esse velho bugre tem alma to sensvel e bem formada como a de um cristo velho; achei nele um testemunho vivo do que se me tem contado dos 
esforos que V. Reverendssima emprega para chamar o gentio ao grmio de vossa santa religio, e do poder de sua palavra evangelizadora. O filho dele, o meu amigo 
Antnio,  tambm cristo, senhor padre; tem uma alma nobre e sensvel e, como sabe, fui eu quem o catequizou.
        - Ah!... muito bem! j me contou isso e reconheo com prazer os instintos generosos de seu corao. 
        - Pois bem; o velho quer ir comigo at o Itatiaia, ver seu filho; Vossa Reverendssima permite?
        - Por que no, meu amigo?... conheo bem esse velho chefe dos Aimors; por esse respondo eu; nunca mais me largar. Pode ir ver seu filho. Estou certo de 
que amanh ou depois estar de novo comigo.
        - E no serei eu quem procurar arredar o bom velho de vossa companhia.
        O padre Faria no mais desconfiou da lealdade e nobreza de carter do jovem bandido e at sentiu no poder prestar-lhe auxlio para a empresa to justa e 
to nobre em que ia se empenhar.
                No dia seguinte Maurcio, acompanhado do velho Itapema e de seu filho, dirigiu-se ao Itatiaia, onde chegou ao pr do sol, nesse vale, do qual, dois 
dias antes, o vimos partir em direo a Ouro Preto, deixando Antnio, Joaquim e seus companheiros de exlio homiziados nas nvias brenhas e nos sombrios e speros 
fraguedos daquelas cercanias. Itaubi e Zambi l se achavam sentados no mesmo stio em que os encontramos no comeo desta histria. Conversavam e olhavam de contnuo 
para o caminho de Ouro Preto, ansiosos pela volta de seu patro. Quando o avistaram, de um pulo puseram-se em p, batendo palmas de contentamento. Logo, porm, que 
no divisaram em sua comitiva mais do que dois bugres, um dos quais bastante alquebrado pelos anos, sentiram esmorecer todo o seu entusiasmo.
        - Ah! Itaubi! - exclamou o preto abanando a cabea, a est a gente que o patro achou!...
        - Ora, - replicou Itaubi, - quem sabe se os outros no viro mais atrs? Esperemos.
        - Tempo perdido!... repetiu Zambi depois de algum silncio - no vem mais ningum!...
        - E ns tambm, que vamos apresentar ao patro?... ah! Zambi, Zambi!... a coisa vai nos correndo bem mal; mas... Deus  bom e h de ter piedade de ns. No 
desanimemos.
        - Ento, meus amigos! disse Maurcio chegando; - pelo que vejo no foram mais felizes do que eu?... esto sozinhos!...
        - Nossa gente est l no alto do serrote, - disse Itaubi - no so muitos, mas creio que arranjamos mais do que o patro que no traz seno esse pobre velho 
e este columim... oh! este sim, continuou chegando-se para perto do ndio moo e examinando-o e olhando-o com muita ateno, este sim!... est um belo rapagote!... 
Ah! ... se o patro trouxesse ao menos mais uma dzia destes!... Columim, no me conheces? At te pareces comigo!... Que bonito?...
        Assim exclamava Itaubi com alegria quase infantil, batendo no ombro do jovem bugre, rodeando-o por todos os lados, como quem examina um animal que deseja 
comprar. Enfim, o moo bugre, vendo-se apertado pelas alegres carcias de seu novo camarada, abriu a boca e falou estas palavras: - No te conheo, no, meu camarada, 
mas j te quero bem, no sei por qu. E se abraaram.
        Maurcio assistia sorrindo quela cena de dois irmos que, sem se conhecerem, atrados por instinto misterioso, se abraavam, como dois regatos que, partindo 
de pontos opostos das montanhas, se confundem no mesmo leito.
        O velho bugre, j prevenido de que Antnio era seu filho, estava extasiado a contemplar aquele espetculo, impaciente tambm por se dar a conhecer.
        - E a mim, columim, - disse, chegando-se defronte a Itaubi; - no me conheces?
        Itaubi encarou fixamente o velho e o mediu com o olhar por trs vezes de alto a baixo; uma vaga reminiscncia vinha-lhe ascendendo ao esprito. Fora aprisionado 
e remetido a S. Paulo na idade de dez anos, portanto, no podia deixar de conservar a lembrana da figura de seu pai; mas o decurso de quinze anos tinha-lhe alterado 
consideravelmente o porte e as feies, de modo que no foi possvel a Itaubi reconhecer logo,  primeira vista, seu pai, o antigo e valente cacique dos Aimors.
        -  talvez Itapema!...  meu pai!... murmurou consigo, ainda hesitando; mas logo toda a dvida desapareceu, quando divisou no antebrao esquerdo do velho 
uma larga cicatriz.
        Um dia, - Itaubi teria sete ou oito anos, - Itapema conduzia sua tribo atravs das matas que bordejavam o rio Piranga; trazia no brao Itaubi, enquanto a 
esposa com os outros filhos o acompanhava, conduzindo s costas, na maca pendente da cabea, o columim mais moo, ainda em tenra idade, quando foi atacado por uma 
horda de tupinambs.
        Uma flecha vinha certeira ao menino que ele carregava: aparou-a no largo e musculoso brao, que ficou horrivelmente lacerado. O cacique entregou o menino 
aos cuidados da me e, empunhando com a mo direita o truculento tacape, soltou o grito de guerra, caiu sobre os tupinambs e os ps em fuga, depois de uma pavorosa 
carnificina. Itaubi conservava sempre vivamente gravada na memria aquela terrvel cena, e nunca se esquecera daquele profundo golpe que lhe salvara a vida e a cujo 
curativo havia assistido com as lgrimas nos olhos e a sede de vingana no corao, no obstante sua tenra idade. No fosse o acontecimento que o havia roubado ao 
seio de sua tribo e o arrancara  vida selvagem, apenas pudesse brandir um arco e sopesar um tacape, teria marchado contra os tupinambs e no descansaria enquanto 
no tivesse tomado a mais cabal vingana.
        Ao ver aquela cicatriz, sua memria despertou de sbito, como  luz de um relmpago; caiu aos ps do velho indgena, abraando-lhe os joelhos. Ergueu-se 
depois e beijando a cicatriz, exclamou:
        - Oh!  ele mesmo!... - bradou o cacique com voz rouca e alquebrada; e pelas faces rugosas e tisnadas lhe correram, lentamente, duas lgrimas e sumiram-se 
logo como duas fontes que nascem no osis para logo secarem imediatamente no rido areal do deserto.
        - Ah! como ests grande e bem feito; no tinha mais esperana de ver-te, meu Itaubi; mas graas a esse generoso branco de quem hoje s companheiro, no morro 
sem essa consolao. Aqui est teu irmo mais moo; eu e ele, como tu, tambm j somos cristos. Tu acompanhars esse branco porque foi ele quem te  fez cristo, 
mas eu e teu irmo no podemos deixar de ir para a companhia do bom padre que nos batizou.  ele que h de me fechar os olhos, quando eu for dormir na cama do sono 
eterno.
        - Nem ns queremos que nos acompanhes, Itapema; no deves abandonar, como um ingrato, esse homem a quem tanto deves. Viste e abenoaste teu filho,  quanto 
desejava, - disse Maurcio.
        -  tal qual; nem Itapema almeja outra coisa, e nem ele, velho e cansado como est, podia ser prestimoso; mas Itapema quer ficar aqui trs dias e trs noites 
com o branco e com seu filho. Por essas cercanias de serra do Itacolumim rondam muitos dos nossos irmos, os Aimors, que no tm querido adorar o Deus dos emboabas. 
Muitas vezes eles me tm chamado para de novo ir empunhar o tacape do comando, mas Itapema hoje no pertence a si e s obedece ao Tup dos brancos, que amaldioa 
a inbia da guerra e s quer a paz e a caridade.
        Amanh, Itaubi, tu te levantars quando apontar a barra do dia, e, tomando teu arco e flechas, te dirigirs para as matas das nascentes do rio Piranga; procurars 
teus irmos do mato e todos que encontrares conduzirs para aqui, dizendo-lhes que seu velho cacique Itapema lhes quer falar pela ltima vez antes de morrer. Espero-te 
dentro de trs dias.
        - Mas Itaubi vai sem Zambi? - disse o preto.
        - Iremos juntos, replicou Antnio.
***

        No dia seguinte, Itaubi, acompanhado por Zambi, ao primeiro alvorecer do dia, partiu alegremente para desempenhar a comisso de que o encarregara o velho 
cacique. Ainda no era meio-dia e j eles tinham transposto a pitoresca serra de Lavras Novas, que forma como o socalco15 do gigantesco Itacolomi, e se embrenhavam 
pelas espessas e profundas florestas que se estendem pelas faldas meridionais do altaneiro gigante de granito.
        Itapema nada dissera a seu filho nem a Gaspar a respeito da inteno que o levava a chamar  sua presena os restos dispersos da tribo que outrora havia 
to gloriosamente conduzido atravs de mil azares e brilhantes combates: e os dois, perplexos, faziam de si para si as mais divergentes conjeturas, esperando ansiosamente 
a terminao do prazo dos trs dias que Itapema tinha marcado a seu filho. Esses trs dias passaram sem novidade.
        Maurcio, depois da partida de Itaubi e Zambi, tinha-se dirigido com o velho bugre e seu filho para o planalto da serra de Itatiaia, a reunir-se ao pequeno 
grupo de companheiros que trouxera s cercanias de Ouro Preto, aumentado agora com o pequeno contingente de dez a doze homens angariados por Itaubi e o negro.
        Ali aguardaram a chegada de Itaubi, porque, por qualquer lado que entrasse, dali podiam divisar de longe a sua aproximao. Na tarde do terceiro dia, Maurcio, 
Itapema e o columim, inquietos e impacientes, procuravam as eminncias, perscrutando com o olhar, ao longe, os arredores a ver se chegava o filho do cacique com 
os valentes Aimors.
        Maurcio mostrava-se inquieto e apreensivo.
        - Cacique, quem sabe o que ter acontecido ao meu amigo l pelo mato?
        - Branco, melhor do que Itapema deves conhecer seu filho, que Deus te deu por companheiro. Duvidas dele?
        - Nem um momento. Sua coragem, dedicao e lealdade para comigo no precisam mais provas.
        - Pois ento, branco, sossega; dei a Itaubi trs dias; antes de meia-noite Itaubi estar conosco.
        - Esperemos, suspirou Maurcio; e assentou-se sobre a relva, escondendo a cabea entre as mos sem mais olhar para o horizonte. Entretanto, a noite descia; 
um bao luar lanava uma luz frouxa, como uma espuma de prata alvacenta, sobre os dorsos negros do Itacolomi. O velho Cacique avanou, descendo algumas centenas 
de passos pelo declive da serra; encostou o ouvido no cho e nada mais ouviu seno o murmrio vago, solene e misterioso das solides. Voltou para junto de seus companheiros 
e nada disse.
        O seu silncio desalentou-os; a esperana comeava tambm a desfalecer no corao de Itapema.
        Uma cruel preocupao o afligia; ele nenhum interesse tinha na empresa de Maurcio, era seu filho, esse a quem duas vezes tinha dado a vida, que agora era 
sacrificado, indo cumprir suas ordens. Os trs, acabrunhados, deitaram-se na relva entregues, a ansiosa inquietao, com o ouvido alerta.
        Assim decorreu mais de uma hora de angstia e de incerteza, quando, sbito alarido atroou ao longe as montanhas; os trs puseram-se em p, de um pulo, com 
o corao a saltar de emoo e alegria; os guerreiros de Itaubi que tambm se achavam deitados a alguma distncia, ouvindo o grito selvtico, igualmente, de sbito, 
se ergueram, meneando os cocares e apoiando-se nos rijos e truculentos tacapes.
        Aquele alarido era o grito de guerra dos Aimors.
        Minutos depois ouviu-se o tropel confuso de horda, e os trs observadores no tardaram em divis-la galgando rapidamente a encosta do serro em que se achavam; 
mal, porm, se foram avizinhando, uma nuvem de flechas voou silvando pelos ares e caiu como saraiva em torno deles, sem atingir nenhum.
        - Inimigos!... - bradou Gaspar, transido de surpresa e com o frio no corao.
        Um terrvel pensamento assaltara o esprito.
        - Oh!... Antnio trair-me!
        Quem o creria!... Ah! velho execrvel, continuou voltando-se furioso para o velho cacique, - foste tu por certo que urdiste esta traio nefanda...
        - Cala-te, branco, - interrompeu com energia o cacique, - onde ouviste tu falar que do sangue de Itapema nasce traidor?!...
        - No ouvi falar, mas estou vendo!
        - Que  que vs?... Se Antnio vier contra ns, acredita-me, branco, este brao velho ainda tem fora para brandir o tacape, e se eu no morrer, ser Itapema 
mesmo que, com as prprias mos com que j outrora o salvou da morte, esmagar o crnio de Itaubi; mas se no for ele...
        - Se no for ele, - interrompeu Gaspar assombrado com a nobre e herica linguagem do cacique, - para meu castigo atravessa meu corao com tua flecha.
        Entretanto, as setas continuavam a chover.
        - Branco, no  hora de conversa: eles a esto e so muitos. Vamos para acol com nossa gente; aqui no estamos bem. Dizendo estas palavras, Itapema apontava 
para uma espcie de cmoro que ficava a uns duzentos passos, como uma verruga na face lisa e aveludada do planalto, toda eriada de lascas de rochedo e de certos 
arbustos ou parasitas que nascem nos cimos pedregosos das cercanias de Ouro Preto e a que do o nome de canela d' ema. Estes arbustos, que crescem at a altura de 
um homem, so uma espcie de palmeira, cujo tronco relativamente grosso  coroado por um facho de espatos16 rijos e lanceolados que, na escurido, lhes do a aparncia 
de um guerreiro selvtico com o cocar na cabea. No nascem muito juntos, mas sim disseminados, dispersos em pequenas distncias.
        Imediatamente, Itapema, Gaspar e Juruci, chamando sua gente, que com os ndios de Itaubi chegariam apenas a cinqenta combatentes, correram ao lugar indicado 
por Itapema.
        Nesse reduto natural se alapardaram17, aguardando o inimigo que logo apareceu no planalto, soltando gritos ferozes e insolentes como quem j contava com 
o triunfo. Por conselho de Itapema os guerreiros de Gaspar ficaram imveis e mudos. 
        Os assaltantes olharam em derredor e nada viram e nem ouviram.
        - Que  desses valentes aimors!?... fugiram?...  essa a sua valentia!... hei de procur-los por todos os cantos... onde esto eles? covardes!... - bradava 
exasperado o chefe dos assaltantes.
        Nesse momento uma nuvem de flechas certeiras caa entre eles, matando e ferindo bom nmero de combatentes. O chefe surpreendido notou o lugar de onde choviam 
as flechas e para l guiou sua gente, quando chegaram perto do cmoro, outra chuva de flechas ainda mais certeiras fez pavoroso estrago e levou o desnimo s fileiras 
disseminadas dos assaltantes. A lua crescente sumia-se no horizonte.
        Olhando para os cmoros, os Tupinambs, em razo da escurido que aumentava, tomaram por combatentes as canelas de ema, e, possudos de pavor, julgando ter 
em frente inimigo trs ou quatro vezes superior em nmero, puseram-se em fuga precipitada. Entretanto o nmero de assaltantes excedia de cem, enquanto que os guerreiros 
de Gaspar no chegavam a cinqenta.
        - Branco, disse o velho cacique a Gaspar: parece-me que no so Aimors, mas sim Tupinambs, os guerreiros que nos assaltam; todavia, vamos acoss-los. Eu 
morrerei desesperado, se no ficar sabendo se Itaubi foi quem arremessou contra ns este magote de perros vis... Havemos de mat-los um por um e, se entre eles eu 
encontrar vivo o filho de Itapema, mat-lo-ei: se ach-lo morto, cairei tambm morto de vergonha e desgosto sobre seu corpo.
        Dizendo isto, o velho cacique sentia reviverem-se em seu sangue, aquecerem-se de novo ao fogo selvtico, indomveis paixes de sua mocidade e brandia o tacape 
com vigor juvenil.
        - Tens razo, disse Gaspar; eu tambm tenho o mesmo desejo. Vamos!...
        Imediatamente, toda a gente de Gaspar, que ainda no tinha recebido nem o mais leve ferimento, desceu rapidamente do cmoro, e ps-se no encalo dos fugitivos; 
grande, porm, foi o seu espanto, quando os viram voltar sobre seus passos em grande confuso, a toda pressa.
        -  um embuste de guerra, - disse Gaspar ao cacique, - querem-nos chamar a campo limpo... voltemos ao nosso posto.
        E imediatamente voltaram para o cmoro. Mal tinham retrocedido alguns passos, ouviram um tiro de escopeta! Pararam. Instantes depois, uma voz forte como 
o rugido do jaguar bradou em distncia:
        - Gaspar!... Itaubi aqui est!... toca para c esses perros!... So Tupinambs!...
        Um estremecimento inexplicvel de coragem e prazer percorreu os membros de Gaspar, Itapema e Juruci.
        - A eles! aos Tupinambs!... bradaram todos e voltando sobre o inimigo, caram sobre eles como onas esfaimadas. Poucos minutos durou esse combate; foi uma 
carnificina. Os Tupinambs, atacados por dois lados, foram todos trucidados at o ltimo. 

***

        -nos agora necessrio narrar sucintamente alguns fatos antigos e que aconteceram a Antnio ou Itaubi na expedio de que seu pai o encarregara, a fim de 
que o leitor possa compreender as causas que deram lugar aos acontecimentos que acabam de ler no captulo anterior.
        Entre os Aimors que volteavam pelas montanhas de Ouro Preto, havia uma ndia gentil como a mais bela de entre as filhas das selvas e cuja posse era ardentemente 
disputada pelos mais garbosos e valentes mancebos dessa audaz e belicosa tribo. Muitos despojos tinham sido depostos a seus ps; muitos jovens se tinham arriscado 
aos ltimos arrojos da guerra para merecerem sua preferncia. Ela, porm, mostrava-se insensvel a tantos extremos. Chamava-se Itajira, palavra formada de dois nomes 
indgenas dos quais o primeiro - Ita - significa pedra, e o segundo - Jira - quer dizer mel. Ela tinha o olhar e o sorriso suave e doce como o mel e o corao impenetrvel 
ao amor e duro como a pedra. De entre todos os adoradores de Itajira distinguia-se um, seno pelo garbo e gentileza e pelas proezas que tivesse praticado, ao menos 
pela tenacidade e obstinao com que aspirava ao amor da insensvel filha da selva... Aconteceu que um dia Itajira foi com seu pai e sua tribo a Ouro Preto. A a 
moa viu, pela primeira vez, o jovem Juruci, filho do cacique Itapema e o amor pela primeira vez entrou em seu corao.
        No quis mais voltar para o mato e ficou nos braos de seu amado, com quem se casou, sendo batizada e catequizada pelo padre Faria. O jovem ndio malogrado 
perdeu o tino e seu corao entregou-se aos furores do cime.
        Muitas vezes tentou insurrecionar a tribo dos Aimors contra a colnia de Ouro Preto, mas seus irmos que eram l agasalhados e tratados com caridade, nunca 
quiseram acudir ao seu apelo. Os ndios selvagens dos arredores de Ouro Preto naquela poca visitavam os arraiais, sem receio de serem perseguidos nem escravizados, 
graas  tolerncia e esprito benvolo do padre Faria e do capito Antnio Dias, que no perseguiam nem escravizavam os bugres; por isso, as tribos que ento erravam 
em terreno de sua colnia em um raio de dez lguas, Pirajs, Tupinambs, Coroados, Botocudos e Aimors, no hostilizavam os brancos; pelo contrrio, visitavam muitas 
vezes seus arraiais e a se demoravam dias, como em uma feira, trocando caas, peles, esteiras, redes, cabazes e outros artefatos de sua selvtica indstria por 
quinquilharias e bugigangas da indstria europia.
        Por fim, apresentou-se-lhe ocasio asada, e a inspirao do dio e do cime sugeriu-lhe o plano da mais hedionda e execrvel traio. Quando Antnio, que 
ignorava completamente estes fatos, se dirigiu ao mato a fim de convocar a tribo  presena de seu antigo chefe, acertou por acaso de encontrar no primeiro grupo, 
que se lhe deparou, o despeitado amante. 
        Antnio exps-lhe a comisso de que vinha encarregado e o ndio afetou tomar tambm a peito essa empresa e prometeu auxili-lo quanto pudesse.
        Indicou-lhe onde poderia achar maior nmero de guerreiros aimors, e ele prprio, com os poucos que trazia em sua companhia, dirigiu-se para lado diverso, 
a fim de angariar mais gente: mas em vez disso, enquanto Itaubi com o negro se entranhava pelas matas que bordejam o Ribeiro do Carmo at sua juno com o Gualaxo, 
por onde Merib estava certo que bem poucos Aimors Itaubi houvera de encontrar, dirigiu-se para os lados de Itaverava, onde vivia uma numerosa horda de Tupinambs, 
implacveis inimigos dos Aimors.
        Insinuou-se entre estes Merib, dizendo-se carij, outra tribo igualmente infensa aos aimors, e facilmente os induziu a marcharem contra estes, para o planalto 
do Itatiaia, onde, Itapema esperava o filho com os guerreiros de sua tribo.
        Merib fora informado muito minuciosamente por Antnio, da estada de seu feliz rival com seu pai na referida localidade, que lhe era muito conhecida. A horda 
dos Tupinambs, que contava mais de cem combatentes, atacaria de surpresa os Aimors, mat-los-ia todos e Merib marcharia imediatamente para Ouro Preto, levando 
de presente a Itajira a cabea de Juruci. Vendo malogrado o seu amor, queria, ao menos, ver satisfeita a sede de vingana em que ardia. Mas, como vimos, saiu tudo 
ao invs do que esperava o desventurado traidor.
        Antnio e Zambi, guiados pelas falsas informaes do bugre, depois de infinitas voltas, pesquisas e fadigas extraordinrias por matas emaranhadas e escabrosas 
serranias daquelas speras regies, mal puderam arrebanhar trinta ou quarenta guerreiros de sua tribo, que com todo o entusiasmo e alacridade se prestaram a acompanh-los. 
O nome de Itapema era legendrio; gozava de reputao entre os Aimors; suas faanhas e numerosas vitrias contra hordas inimigas estavam na memria de todos; e 
ele tornou-se o dolo dos seus e o terror dos inimigos. 
        Quando, pois, tomou a resoluo, catequizado pelo padre Faria, de abandonar as selvas, trocar o tacape de chefe glorioso de uma poderosa tribo pela enxada 
e o alvio de mineiro, foi grande o descontentamento e desgosto dos seus; e, por mais de uma vez, tentaram, mas em vo, cham-lo de novo  vida rude das selvas e 
dos combates. Foi, pois, com animao e entusiasmo que acudiram ao seu chamado. Entretanto, aconteceu que, quando Antnio se recolhia de sua comisso com os seus 
trinta e tantos guerreiros, alcanou mais um pequeno grupo de Aimors que o esperavam no caminho. Estes, sem serem vistos, tinham presenciado a passagem da horda 
de Tupinambs, dirigindo-se para a serra do Itatiaia e o comunicaram a Antnio. Ao ouvi-los, Itaubi sentiu uma vaga inquietao, um pressentimento confuso de alguma 
trama qualquer. Sem perda de tempo, ps logo sua gente em marcha acelerada para as alturas do Itatiaia, onde o vimos chegar justamente a tempo para infligir aos 
assaltantes a mais completa e desastrosa derrota.
        Um sono profundo, ocasionado pelas fadigas das marchas e dos combates, apoderou-se da hoste de Gaspar, e os guerreiros, com as armas na mo, se prostraram 
sobre o campo ensangentado, dormindo tranqilamente mesclados entre os cadveres daqueles que ainda h pouco tinham feito morder a terra, dormindo o sono eterno.
        Se algum ali chegasse, quela noite, ao ver o cho juncado de corpos imveis, uns atracados com as suas armas, outros tendo-as quebradas e dispersas ao 
redor de si, escorregando na sangueira e sentindo o cheiro acre e repulsivo da carnificina, juraria que todos eram cadveres.
        Ao romper do dia, despertando Gaspar do seu profundo e no interrompido sono, o primeiro pensamento que lhe assaltou o esprito foi o voto insensato que 
fizera de deixar-se trespassar pela seta de Itapema, caso no se realizasse a cruel e irrefletida desconfiana que um momento concebera contra Itaubi.
        Na vspera, a excitao do combate e depois, a fadiga no lhe deram tempo de pensar nisso. Estremeceu, transido de vergonha, e mal pode encarar a Itaubi, 
que j em p junto dele com semblante risonho e sereno o contemplava, aguardando o seu acordar. Itapema no lhe havia dito se aceitava ou no o voto imprudente, 
mas Gaspar, em sua delicada conscincia, julgava-se bem digno e merecedor da punio a que ele mesmo se condenara. Itaubi no deixou de notar a perturbao de Maurcio.
        - Que tem o patro que est assim com o ar preocupado? - perguntou o ndio.
        - Nada, meu amigo; efeito do sono e da fadiga, - respondeu Maurcio, levantando-se da grama em que jazia, - estou orientando meu pensamento agitado pelos 
sucessos de ontem. Espera-me aqui, Itaubi; preciso dizer algumas palavras a teu pai.
        E Maurcio encaminhou-se para o lado em que, a alguns passos de distncia, dormira o velho cacique, que nesse momento tambm se ia levantando bem como toda 
a sua gente.
        - Cacique, - disse-lhe, - toma teu arco e tua melhor flecha e afastemo-nos um pouco do meio dessa gente.
        - Pronto, branco, respondeu o bugre; mas o branco est com o olhar torvo e sombrio; o que  que lhe aconteceu? para que esta flecha?
        - Mais adiante sabers; vamos.
        O cacique no insistiu mais, e, acompanhando Maurcio, se afastaram uns cem passos da turba dos guerreiros.
        - Cacique, disse Maurcio parado, j te esqueceste das palavras que ontem trocamos quando tive a louca idia de duvidar da lealdade de Itaubi? Fui um indigno, 
um insensato; agora cumpre que ds a punio que mereci, atravessando com tua flecha este corao ingrato e indigno da amizade de um heri como Itaubi. 
        - Branco, - respondeu Itapema - lembro-me bem de tudo isso, mas eu nada prometi; e nunca ser o arco de Itapema que despedir a flecha contra um guerreiro 
desarmado, quando mesmo fosse um inimigo.
        - Ah! exclamou Maurcio comovido, bem mostras ser o pai do meu valente e generoso Antnio. Perdoa-me, meu velho, se desconfiei to injusta e levianamente 
da lealdade de teu filho. Praza ao cu que nunca Antnio saiba que assim o ultrajei.
        - E quem lhe h de contar?... S Itapema sabe disso, e sua boca ser muda como o Itacolomi e mesmo que no o seja, daqui a pouco Itapema vai separar-se de 
seu filho para sempre.
        O velho cacique pronunciou estas palavras com voz trmula de comoo e seus olhos voltaram-se ao cu como quem, dizendo adeus ao mundo, procurava ali seu 
ltimo refgio. Voltando aos seus, Maurcio foi com Antnio e seu irmo Juruci percorrer o campo e examinar os cadveres inimigos de que se achava juncado. Eram 
todos tupinambs como reconheceram pelas armas e pelos sinais do corpo. Apenas um era aimor.
        - Eis um que me parece aimor, - disse Antnio examinando com surpresa o cadver, - e foi este quem nos traiu. Foi ele um dos primeiros que encontrei quando 
daqui me fui em procura dos nossos guerreiros. Ele prometeu-me gente para nos ajudar e foi buscar os tupinambs para nos atacar!...
        - Ah! maldito! - continuou Antnio, estendendo os punhos cerrados sobre o cadver com gesto ameaador, como se ele pudesse ouvi-lo: que motivo tinhas tu 
para assim nos atraioar!?...
        - Tambm eu estou conhecendo esse nosso desgraado irmo e adivinho a razo por que nos veio guerrear.
        - Qual  ela?
        - Merib amava muito a formosa Itajira, a mais bela das virgens aimors; porm ela no o quis e hoje  esposa de teu irmo Juruci.
        - Ah!... o motivo era bem forte!... exclamou Antnio, lembrando-se de que era tambm o amor que em grande parte o levava a estar envolvido na audaciosa empresa, 
em que se achava empenhado com Maurcio.
        - Ah!... sim, o amor!... o amor!... mas nem eu nem Maurcio atraioamos a ningum.
        -  verdade, - exclamou Maurcio - quem  capaz de uma traio  indigno do amor de uma virgem. Ah! Leonor!... Leonor!... e  principalmente para justificar-me 
a teus olhos da ndoa de traidor que hoje luto com todas estas dificuldades e me vejo envolvido em to terrveis azares!
        Pronunciando estas palavras, Maurcio cruzou os braos, fitou os olhos no cho e assim esteve por instantes entregue s mais tristes e acabrunhadoras impresses.
        Antnio que compreendeu perfeitamente a causa daquele abatimento, pois compartilhava infortnio em tudo idntico, o arrancou daquela cisma dolorosa.
        - Vamos, patro, disse batendo-lhe no ombro; a ocasio no  para ficar aqui a banzar; nada temos que fazer ao p do corpo de um traidor que nem sepultura 
merece.
        - Tens razo Itaubi; vamos. No h tempo a perder; hoje, agora mesmo, se for possvel, devemos procurar o rumo de S. Joo d' El-Rei.

***



        Uma hora depois do incidente que relatamos no captulo anterior, dava-se no mesmo planalto da serra do Itatiaia uma cena bem diferente do sanguinoso combate 
que a se travara na noite procedente. Itapema ia falar por sua prpria boca aos guerreiros da sua tribo e eles se achavam reunidos e enfileirados diante dele.
        A seu lado estavam seus dois filhos, Maurcio e o negro Zambi. O velho cacique tinha dado provas no combate do dia antecedente de que nem a valentia e a 
fora de seu brao, nem o tino haviam ainda de todo esmorecido sob o peso da idade e dos trabalhos.
        Os jovens guerreiros esperavam que ele mesmo em pessoa fosse gui-los a alguma grande empresa, como aquelas que outrora levara seus pais, contra tupinambs 
e carijs e outras tribos inimigas, e cada qual sonhava os mais arrojados sonhos de valentia, aspirando igualar, seno exceder, as faanhas do legendrio cacique.
        Mal sabiam eles quo arredado andava o esprito do bom velho daquelas cenas de vingana e morticnio. Se na vspera circunstncias imperiosas lhe fizeram 
ainda uma vez brandir o tacape e soltar flechas certeiras contra o inimigo, foi a isso forado em defesa sua e dos companheiros; posto que civilizado, Itapema nunca 
abandonara suas armas ou para a caa ou para emergncias provveis naquelas regies selvticas, e as preferia s melhores armas de fogo.
        Os guerreiros aimors, postados em semicrculo diante do velho cacique, o aclamavam com altos alaridos, chocando entre si os rudes tacapes, meneando os arcos 
e entoando pocemas de guerra.
        A tal espetculo Itapema sentiu ainda uma ltima vez aquecer-se-lhe o sangue no entusiasmo das lides hericas da guerra que tinham constitudo a ocupao 
e a glria de quase toda sua longa vida. Teve por alguns momentos saudades do tempo de suas selvticas proezas; mas para logo a reflexo extinguiu aquela quase apagada 
centelha que ainda restava debaixo das esfriadas cinzas de seu belicoso passado.
        Vieram-lhe  memria o padre Faria e a nova religio de paz e fraternidade que tinha abraado, e todo o seu entusiasmo se esvaneceu.
        Erguendo o tacape e brandindo-o por cima da cabea, fez sinal para que cessasse a vozeria das aclamaes. Imediatamente acalmou-se todo o barulho e reinou 
fundo silncio.
        O cacique em sua lngua selvtica falou assim:
        - Guerreiros aimors, quem est agora na vossa presena  o vosso velho cacique Itapema que em outras eras conduzia os vossos pais a longnquas distncias, 
desde o rio Piranga at as nascentes do Jequetinhonha, e da beira do Sabar-au at as serranias onde nasce o Paran. Todas as tribos tinham medo do seu tacape e 
os mais afamados e valentes caciques invejavam o seu nome. Nesses tempos os guerreiros de Itapema eram to numerosos como os coqueiros da floresta: ao seu primeiro 
aceno, mil arcos surgiam como por encanto do fundo dessas matas e cada guerreiro valia por dez. O sangue de nossos inimigos regava campos e florestas, e ns trazamos 
por braso, pendurados ao nosso pescoo, os dentes arrancados  boca de nossos irmos mortos por nossa mo. Mas isso era cruel e eu no me glorio, antes me envergonho 
e me arrependo dessas faanhas. Hoje Itapema no  o mesmo cacique daqueles tempos; no  porque a velhice e os trabalhos lhe tenham quebrantado as foras, o nimo 
e a valentia, mas... Itapema conhece hoje um Deus que abomina o sangue e a guerra e Itapema no quer ir contra a lei desse Deus Santo. Se Itapema ontem entesou o 
arco e dele despediu a flecha de guerra foi para defender a si e a seus amigos.
        Itapema est velho e cansado e em breve ir repousar na igaaba18 da morte... mas Itapema pede, moos e valentes guerreiros,... acompanhai meu filho que 
aqui est, - e batia com a mo no ombro de Antnio - e este nobre guerreiro branco - e designava Maurcio.
        Eles no vo com ms intenes, vo arrancar ao cativeiro muitos de nossos irmos do mato que esto em poder dos cruis emboabas.
        Quereis acompanhar meu filho Itaubi e seu amigo guerreiro que aqui est?
        Itapema no falou mais. Um murmrio confuso, como o da virao que agita a coma dos arbustos, se fez sentir por alguns instantes. Os jovens aimors estavam 
pesarosos de no ter a sua frente o seu velho e famigerado Cacique, e hesitavam em responder. Antnio ento avanou alguns passos para eles e falou assim:
        - Meus irmos, escutai-me. Se no vai  nossa frente o vosso chefe, vai seu filho que aqui est! Sou do mesmo sangue e tambm no sei o que  covardia e 
traio...
        Conosco vai este guerreiro branco que vale tanto como dez de ns... Quereis ou no quereis ir?
        A esta interrogao incisiva e terminante, seguiram-se alguns instantes de profundo silncio; mas em breve irrompeu uma exclamao ruidosa e entusistica, 
como lufada de vento que inopinadamente agita com violncia a copa da floresta.
        - Itaubi! bradavam todas as bocas; Itaubi, filho de Itapema!... Itaubi vai nos levar aos combates... e  vitria!...
        Passados aqueles instantes de alacridade e entusiasmo, Maurcio, comovido, tentou dizer algumas palavras; mas a vozeria e selvticas exclamaes recrudesceram 
e abafaram-lhe a voz.
        - So horas de partir cada um para seu destino, exclamou Itapema, erguendo o tacape para chamar a ateno dos guerreiros...
        As mulheres e crianas que aqui vieram voltaro comigo e ficaro em Ouro Preto; o paj dos brancos  caridoso e bom.
        No faltaro aos aimors nem a caa e o cauim e nem a taba do repouso, e o vil tupinamb nunca se atreveu a ir l perturbar a nossa paz que no se arrependesse 
amargamente. No  muito longe o lugar para onde partem os jovens guerreiros aimors; em menos de duas luas podero estar de volta. Fujamos deste lugar sinistro, 
manchado pelo sangue dos tupinambs...
        - E mais ainda, - interrompeu Antnio com voz atroadora de indignao - e mais ainda, oh! Itapema, ilustre chefe de uma tribo valente e generosa, - e mais 
ainda manchada pelo sangue de um aimor traidor!...
        Dizendo isto, Antnio apontava para o cadver de Merib que jazia a poucos passos de distncia.
        Os aimors, surpreendidos por estas palavras, rompendo a ordem mais ou menos regular em que at ali se achavam postados, afluram de tropel para junto do 
cadver apontado por Antnio, a fim de reconhec-lo.
        - Merib! Merib!... exclamaram soltando gritos medonhos de indignao e despejando flechadas e rudes golpes de tacape sobre o corpo inanimado do traidor.
        Tanto a traio  abominada at mesmo entre os selvagens!
        Em presena de tal espetculo, Itapema estremeceu horrorizado; sua alma regenerada pelo padre Faria e imbuda dos sentimentos da moral crist, no podia 
mais conformar-se com esses atos de ira brutal e canibalismo.
        - Que  isso, guerreiros aimors! - bradou ele, lanando-se indignado no meio do turbilho que refervia em torno do cadver e afastando-os violentamente 
a punhadas e golpes de tacape, - Que  isto?... onde se viu um guerreiro aimor despejar flechas e desperdiar valentia no corpo de um morto!... Oh!... vs no pareceis 
mais os descendentes daqueles que eu outrora guiara aos combates, que nem ao menos olhavam para o inimigo que caa morto a seus ps, e s se apraziam em apanhar 
vivo o mais valente de entre todos para abrilhantar com o seu suplcio a festa do triunfo... imol-lo e erguer um trofu tranqilamente na taba, ah!... e isso mesmo 
era bem cruel e feroz.
        O cacique murmurou estas ltimas palavras com voz cava e compungida, como que arrependido do assomo belicoso a que por um momento se deixara arrastar.
        - Fujamos daqui - continuou ele; os urubus do ar e os bichos do mato se encarreguem de consumir esses corpos indignos de sepultura e da igaaba dos guerreiros 
leais e valorosos.
        No mesmo instante Itapema, seguido por seus dois filhos, Maurcio acompanhado de Zambi e toda a horda dos aimors, tomando suas armas e seus cabazes cheios 
de frutas, palmitos, caas e legumes, abandonado aquele lugar sinistro, se puseram em marcha acelerada e desceram pelas ngremes, lisas e descobertas encostas orientais 
da serra do Itatiaia. Dir-se-ia o transbordamento de algum lago, que despejava pelo flanco da montanha suas guas trbidas e revoltas. 

***

        Dentro em pouco achava-se reunida, no vale do Itatiaia, cuja descrio j fizemos, a coorte dos guerreiros bandidos. A descansaram e tomaram alimento.
        Itapema falou assim a seu filho Antnio:
        - Itaubi, meu filho, tu marchas para a guerra em companhia do branco a quem juraste amizade. Itapema, teu pai, no quer que tu te afastes dele e o abandones; 
serias um traidor como este mal aventurado Merib, cujo corpo l ficou em cima entregue aos urubus.
        Vai; eu no posso acompanhar-te, mas a bno do padre Faria e de teu pai te livrem de todo mal. Adeus, meu filho!...
        Antnio abraou seu pai e beijou-lhe a mo, e depois com as lgrimas nos olhos, apertou nos braos seu jovem irmo, que apenas conhecia de vspera e de quem 
ia separar-se talvez para sempre.
        Maurcio, Zambi e todos os guerreiros assistiam comovidos o despedir dos dois ndios. Mesmo os selvagens alcanaram o sentido daquela nobre e tocante cena.
        O leitor talvez estranhe os sentimentos nobres e elevados, a linguagem por demais grave e sensata de que usava o velho chefe selvagem, to imprpria da boca 
de um botocudo; por isso lembraremos que Itapema, havia j dez anos, residia em casa do padre Faria, que durante todo esse tempo no cessou de doutrin-lo, e o bugre 
em suas mos tinha-se tornado um poderoso auxiliar para a domesticao e catequese das tribos que vagavam pelas cercanias de Ouro Preto.
        O ndio tem sempre a palavra veemente quando recorda os feitos hericos, e os chefes da tribo quando falam s coortes guerreiras, enchem de imagens os discursos 
e sabem fazer reviver na memria dos homens os feitos nobres dos guerreiros mortos. 
        Itapema era o intrprete de que se servia o padre em suas relaes com os selvagens e por seu intermdio no s se tinham evitado muitos ataques e correrias 
de ndios sobre Ouro Preto, como mesmo se havia atrado ao grmio do cristianismo e da civilizao europia considervel nmero de selvagens.
        Maurcio, abraando o velho cacique, expressou-lhe com palavras lhanas e sinceras o valioso auxlio que to generosamente acabava de lhe prestar.
        - Itapema - disse-lhe ele comovido, - tens dois filhos dignos de ti; um deles h muito tempo  meu irmo; o outro o ser tambm de agora em diante, - acrescentou 
cingindo ao peito com o brao esquerdo o jovem Juruci, enquanto com a direita beijava a mo mirrada e calosa de Itapema, dizendo-lhe: - Tens tambm em mim um amigo 
e um filho, em qualquer ocasio que precises de meu brao e do meu corao.
        - No preciso mais do socorro dos homens - atalhou Itapema, - minha esperana est no cu e na misericrdia de Deus!...
        Zambi tambm no podendo resistir ao empenho de mostrar sua gratido ao velho cacique, postou-se de joelhos aos ps dele, e curvando a cabea estendeu-lhe 
a mo direita, como que lhe pedindo a bno  maneira dos escravos. Itapema com o cavalheirismo e maneiras delicadas que aprendera do padre Faria, levantou-o, tomou-lhe 
a mo, levou-a ao peito e abraou o africano.
        Depois de volver um olhar saudoso aos guerreiros da tribo, Itapema fez um gesto a Juruci, e ambos, seguidos da turba de mulheres e crianas, seguiram caminho 
de Ouro Preto.
        Os guerreiros da tribo de novo aclamaram Itaubi seu chefe e, entoando uma pocema19 de guerra, se afastaram com Maurcio e Antnio, procurando o rumo de S. 
Joo d' El-Rei.
        Maurcio procurou ocultar, o mais que foi possvel, sua marcha com aquela numerosa horda em demanda da vila de S. Joo e para isso tinha razes de sobra.
        Devia afastar-se principalmente de todos os caminhos j batidos pelas bandeiras exploradoras que ento cruzavam aquelas regies, porque se acaso se encontrassem 
corria risco de ser reconhecido e no faltariam bocas que fossem levar aos ouvidos do capito-mor a notcia de que ele ainda era vivo e marchava em direo  vila 
com um numeroso squito. Embora nada revelasse das intenes com que ia, bastava esse fato para pr de sobreaviso Diogo Mendes o que por certo faria malograr sua 
empresa, cujo bom xito dependia sobretudo de uma surpresa.
        Demais disso, Maurcio devia esforar-se tambm para evitar encontros e travar combate com as hordas selvagens que porventura se apresentassem em seu caminho; 
era-lhe mister poupar sua gente e aproveitar o tempo.
        Para esse fim recomendou silncio, e nada de pocemas nem alaridos, o que com muito custo pode obter e, em vez de procurar o caminho mais trilhado e direto 
que de Ouro Preto conduzia a S. Joo d' El-Rei, demandou as montanhas escabrosas e cobertas de florestas que formam as cabeceiras do rio Piranga e por a se dirigiu 
ao arraial de Itaverava, a nascente colnia de Amador Bueno. Esperava talvez a encontrar o valente bandeirante paulista, que com sua gente se tinha retirado para 
o lado de Sabar e Caet a fazer novas exploraes, enquanto cresciam e amadureciam as plantaes que ali fizera. O paulista, porm, tendo sofrido contratempos e 
mesmo hostilidades da parte do portugus Nunes Viana, que ento dominava quase soberanamente naquela regio, no voltou mais a sua colnia, e, perseguido pelos emboabas, 
viu-se forado a recolher-se a S. Paulo de Piratininga, a fim de reunir mais numerosa comitiva com que voltasse s Minas.
        Maurcio, apesar de todas as precaues, no deixou de encontrar algumas hordas de selvagens; mas graas  astcia e habilidade de Antnio, que corajosamente 
se apresentava a parlamentar com elas, evitou suas hostilidades, e, no fim de seis dias de marchas, lentas e penveis, atravs de matas espessas, tendo de atravessar 
ribeires cheios, pois estava-se em fins do ano de 1709, poca das chuvas e do transbordamento dos rios, chegou s paragens onde hoje est assentado o arraial de 
Prados, que fica a pouca distncia da parte oriental da Serra de S. Jos d'El-Rei. Estava j nas vizinhanas do lugar em que ia jogar o seu destino, por isso, maior 
cautela e mistrio devia empregar em sua marcha, pois maior probabilidade havia de se encontrar com habitantes de S. Joo d' El-Rei, que o reconhecessem e avisassem 
ao capito-mor a sua chegada.
        Era j tardinha, quando Maurcio, com sua comitiva, chegou ao ribeiro que corre ao p do arraial de Prados, lugar ento coberto de densssimas matas. A chuva 
torrencial que desabava desde o meio-dia engrossara consideravelmente as guas do ribeiro, que roncava medonho pelas lbregas espessuras. No sendo possvel vade-lo 
antes que passassem as chuvas e as guas decrescessem, Maurcio mandou sua gente fazer alto ali. Com ramos e taquaras os guerreiros aimors em poucos momentos improvisaram 
uma barraca para Maurcio, Antnio e Zambi, a quem j adoravam enquanto eles mesmos, acocorados e encostados aos troncos das rvores, agarrados ao arco e ao carcs20, 
podiam se tomar por verdadeiras mmias tiradas da igaaba, se no fosse a mastigao com que devoravam avidamente o moqum21 de caas que de antemo traziam preparado. 
        Maurcio estava pensativo e sombrio. O rugir da chuva, o ronco das catadupas que caam das montanhas, o bramir do ribeiro, que fugia impetuoso como leo 
ferido que ruge bravio correndo atravs das florestas, inspiravam-lhe sinistras impresses e emoes desoladoras.
        De feito a situao difcil, arriscada e complicadssima em que se achava, no era prpria para alimentar em seu esprito seno acerbas e dolorosas apreenses, 
e, quanto mais se avizinhava do teatro em que ia jogar o seu destino em uma arrojada e quase louca empresa, mais temerosa e rdua se lhe afigurava a conjuntura em 
que se achava colocado. 
        Quantos motivos o levavam quele ato de desespero, que parecia uma rebeldia e uma traio, e que todavia era nada menos que um generoso e nobre impulso de 
lealdade e dedicao!!
        A torrente turva e impetuosa do crrego espumoso e revolto, solapando as ribanceiras e bramindo furioso  semelhana do jaguar ferido, que rompendo as florestas, 
solta rugidos de dor e de raiva, oferecia aos olhos de Maurcio a mais viva imagem de seu cruel destino.
        Tambm corriam-lhe dias turbados e inquietos, errante e foragido, ocultando os passos na escurido de selvas medonhas, e pelas escabrosas encostas de serros 
quase inacessveis, deixando em seu caminho sangue e runas, e arrastando-se, por singular e inexorvel capricho da sorte, de abismo em abismo, sem poder lobrigar 
no futuro qual seria o paradeiro a tantas e to desastrosos azares.
        Quando, porm, ali se achou, to prximo dos lugares onde outrora, ufano e cheio de esperanas, cavalgara ao lado da donosa e gentil Leonor, recrudesceram 
as hesitaes e as cruis apreenses que lhe atormentavam o esprito.
        A que terrveis azares ia expor os dias daquela por quem daria mil vidas que tivesse?... Ia pela segunda vez ensopar em sangue e talvez sepultar em runas 
a habitao do homem que o tinha abrigado em seu teto hospitaleiro, em quem sua infncia desvalida tinha achado um pai que o destino lhe negara! Mas, refletia ele 
tambm, - como posso eu viver passando por infame traidor aos olhos daquela a quem adoro e daquela a quem devo mais do que a vida, a quem devo tudo quanto sou e 
poderia ser ainda, se melhores destinos me sorrirem?
        Que outro recurso me resta para me justificar perante ambos seno avanar at eles com mo armada e vitoriosa? Se eu sucumbir na luta l est o memorial, 
que ficou entregue a mos fiis, honradas e dedicadas, e desvendar aos olhos daqueles cegos voluntrios tudo o que tem acontecido e justificar a minha memria. 
Ento compreendero claramente quem era o homem de bem, o amigo leal e dedicado, se eu, Maurcio, ou esse ignbil fidalgo, que para cavar minha runa lhes venda 
os olhos e os vai empurrando para um abismo, do qual queira Deus que escapem inclumes; e a lgrima de dor e de arrependimento, que eu sei que o pai e a filha ho 
de verter sobre minha sepultura, amaldioando o nome de Fernando, ser cabal vingana e a extrema consolao que minha alma levar para o outro mundo. Mas, se Deus 
proteger os meus desgnios, que so os da causa da verdade e da justia; se eu puder falar-lhes alto sem nada recear pela minha cabea e a de meus amigos, at agora 
expostas a todos, embustes e perseguies de um celerado... As reflexes de Maurcio foram atalhadas por Antnio - Que  isto?... O patro anda s a banzar!... estamos 
perto;  tempo de fazer alguma coisa!... 
        -  verdade, meu amigo - acudiu Maurcio, como que acordando de um pesadelo, - chama Zambi para concordarmos no que havemos de fazer.
***

        Maurcio, que se achava com Antnio sob o frgil abrigo de ramos que lhe haviam preparado os ndios, mandou chamar tambm para junto de si Zambi; enquanto 
a chuva desabava rugindo pela coma da floresta, os troncos rangiam aoitados pelo vento e as catadupas roncavam despenhadas pelos grotes da serra, os trs comearam 
a deliberar sobre o modo por que deviam avir-se no assalto que iam empreender contra os emboabas de S. Joo d' El-Rei.
        Antnio e Joaquim, o ndio e o africano, eram o brao direito e esquerdo de Maurcio; no lhe eram somente teis pela valentia e coragem nos combates; tambm 
nas deliberaes gostava de ouvi-los, pois eram ambos capazes de se encarregarem do mais arriscado empreendimento. 
        No lhes faltava para isso nem tino nem audcia, e bem se sabe a extrema lealdade que votavam no s  causa que serviam como mesmo  pessoa de Maurcio.
        Concordaram, facilmente e sem contestao, que o assalto devia ser dado de noite e, para esse fim, tomando todas as precaues para que sua aproximao no 
fosse percebida, deviam ir postar-se na gruta de Irabussu, que lhes era bem conhecida. Desse medonho esconderijo que com razo presumiam ainda no fosse descoberto 
pelos emboabas, poderiam mandar ao arraial de S. Joo, espias que se informassem do estado da povoao, se se achavam ou no ali prevenidos contra qualquer agresso. 
        Essa espionagem, tanto Antnio como Joaquim poderiam desempenh-la perfeitamente, pois conheciam melhor que ningum o terreno, as pessoas e mesmo as circunstncias 
do arraial. Algumas palavras que pudessem ouvir, sem serem pressentidos, podiam dar-lhes a revelao do estado em que ali se achavam os nimos e as coisas.
        Havia, porm, uma grande dificuldade em que Maurcio insistia e cuja soluo era dificlima e quase impossvel. Esse assalto devia ser um ataque e uma defesa 
ao mesmo tempo. Maurcio, como se sabe, tinha supremo interesse em derrotar os emboabas salvando no s a vida como a propriedade do capito-mor e sua filha. Queria 
um golpe rpido, seguro e certeiro, sem que o capito-mor sofresse a menor violncia ou desacato em sua famlia, golpe dado sem precipitao nem alarido e, se fosse 
possvel, sem o derramamento de uma s gota de sangue. Antnio tinha presa em casa do capito-mor sua querida Indaba, e, por conseqncia, receava igualmente que 
no furor do ataque a pobre menina fosse vtima da ferocidade dos guerreiros aimors.
        Estes no podiam conhecer o capito-mor, nem sua filha, nem Indaba, pessoas que nunca tinham visto. Joaquim, posto que no tivesse em casa do capito-mor 
pessoa por quem imediatamente se interessasse compreendia, contudo, perfeitamente a situao de seus dois companheiros de infortnio porque, l tambm tinha a sua 
amante, seno em casa do capito-mor, em outra qualquer parte que ele mesmo ignorava; e estava disposto a procur-la, a tom-la e defend-la, em qualquer parte, 
onde quer que a encontrasse,  viva fora.
        Perplexos e irresolutos assim estiveram por algum tempo, sem saberem em que haviam de acordar. Antnio, porm, depois de alguns minutos de silncio e reflexo, 
props este alvitre:
        - Patro, tenho uma idia, - exclamou ele batendo na testa e levantando-se com entusiasmo. -  coisa muito simples, mas no h no mundo ningum que a possa 
desempenhar, seno eu.
        - Qual  ela, Itaubi? dize-nos depressa.
        -  o seguinte. Amanh ou depois, quando for possvel, vou a S. Joo, entro s escondidas em casa de patro velho, procuro Indaba, que de certo ainda est 
l guardada...
        - Ah! meu amigo, - interrompeu Maurcio, - tu vais correr muito perigo... no devo consentir...
        - Deixe-se de sustos, patro. Vossa Merc bem sabe que no  a primeira vez que tenho feito isso sem correr nenhum risco.
        - Pois v feito; mas que vais tu fazer em casa do capito-mor?
        - Vou procurar Indaba e tais artes arranjarei que poderei conversar com ela sem que ningum nos perceba e hei de falar-lhe assim: - Indaba, olha que em 
tal noite, a tais horas, o senhor Maurcio, eu e muita gente armada vamos dar de sbito nesta casa, isto para teu bem, de Sinh Leonor e de Helena; nessa noite e 
nessa hora, tu e elas duas devem estar no oratrio rezando; vai haver guerra e sangue; mas haja o que houver, no saiam da capela porque correm grande risco, e l, 
nossos guerreiros, que sero avisados por mim, ho de respeit-las e no tocaro nem um fio de vossos cabelos.
        - E o capito-mor! - interrompeu Maurcio, - tu te esqueceste dele... onde se refugiar?
        - Ora! o capito-mor!... esse  um valente!... h de sair a combate; mas, o coitado!...  velho; Antnio de um pulo o agarra e o carrega para o meio dos 
nossos e, sem o magoar, pe-no fora do combate e de perigo.
        - Bem sei que assim o farias; mas, se ele cair em mos de outros?
        - Ah! nesse caso - redargiu Antnio hesitando - nesse caso... Antnio no meio do combate mostrar o capito-mor aos seus guerreiros e dir:  aquele; no 
toquem nele. E eles cumpriro minhas ordens.
        - Mas um ataque  noite! as flechas, os tiros que se disparam mesmo de perto, a esmo, sem pontaria?... quanto perigo no corre?... J te esqueceste do Afonso, 
o infeliz irmos de Leonor, que veio morrer na ponta de minha espada, por mais esforos que eu fizesse para nem de leve ofend-lo? E o temerrio e impetuoso Calixto? 
Pobre moo... coberto de feridas, combatia como um leo; consegui desarm-lo, mas ele caiu exangue e inanimado, no sei se morto. Oh! isto  cruel!  doloroso! confesso 
e sinto que me vai faltando coragem e resoluo para sujeit-los aos azares de um novo conflito, que poder talvez no ter outro resultado seno o de agravar mais 
os funestos efeitos do primeiro.
        - No tenha susto, meu branco; seu negro e Antnio, antes que haja sangueira e carnagem, ho de procurar e ho de achar modo de roubar as trs meninas e 
bot-las a salvo em lugar seguro. Desta vez a gente j est escarmentada e no se h de ir assim  toa, no, h de se riscar nosso plano, e, com a ajuda de Deus, 
Nosso Senhor, a coisa h de tomar rumo.
        -  justamente o que eu penso, Zambi; no temos mais que nos avir com essa gente barulhenta e desensofrida, como da primeira vez; os meus aimors me obedecem 
cegamente e nenhum deles  capaz de respingar contra o que eu disser. Mas, como eu j disse, para se poder roubar e pr a bom recato as trs meninas,  preciso que 
elas estejam avisadas para no se assustarem e no fazerem alarido; para isso  indispensvel que eu me introduza sorrateiramente em casa do patro velho.
        - No caias nessa, Itaubi; tu no compreendes que avisar Leonor  levar infalivelmente ao conhecimento do capito-mor e de Fernando a nossa aproximao e 
os nossos projetos?...
        Leonor hoje me tem na conta de um traidor, um facnora, julgando-me o assassino de seu irmo; esse rapto para ela atualmente  uma infmia, a que por modo 
algum se sujeitar; demais ela adora seu pai e, com os nobre e elevados sentimentos de que  dotada, vendo os riscos a que se acha exposto, como poder ela deixar 
de avis-lo a fim de prevenir-se contra o golpe que o ameaa?...
        - Mas Itaubi lhe far ver que o patro est inocente das desgraas que houve e do sangue que se derramou e lhe contar toda a histria da gruta.
        - Nem tocar nisso, Itaubi; isso  um passo arriscadssimo que iria denunciar-nos e transformar todos os nossos planos.
        No; se me queres bem, se queres bem a Leonor e Indaba, no faas semelhante loucura...
        - Loucura, meu patro?...
        - Sim, loucura, meu amigo: as cinzas do jovem Afonso ainda esto quentes; ainda fumega o sangue dos emboabas e paulistas que naquela fatal noite fomos forados 
a derramar. Foragidos, como andamos, por estes sertes, nada sabemos do que tem ocorrido no arraial de S. Joo.  bem provvel que todos, tanto emboabas, como paulistas 
que porventura ainda ali existam, sejam todos contra ns, at mesmo o prprio Calixto que, desarmado por minhas mos, foi posto fora de combate e nesse caso l ficou, 
ferido ou prisioneiro em casa do capito-mor. 
        - Cruz! Ave Maria, patro! nem  bom lembrar-se disso.
        -  bom lembrar, se bem que nos doa n' alma!
         exceo de Gil, que sabia de minhas intenes e que comigo to generosamente correu a me salvar na ltima refrega, com quem mais podemos contar?
        O prprio mestre Bueno, se por acaso ainda por l anda, me ter talvez em conta de traidor!
        - Maurcio pronunciou tristemente estas palavras, deixando pender a cabea para o cho.
        - E quem sabe -, acrescentou ainda, se a mesma Indaba a quem tanto adoras, embada pelo perverso e embusteiro Fernando, no estar tambm contra ti, contra 
mim e contra todos ns?
        - Ah! patro, patro!... no fale assim! exclamou o ndio soltando um rugido de jaguar - Se isso pode acontecer, Itaubi no descansa mais um momento; sozinho 
ou, com quem quiser acompanh-lo, l vai: mata tudo quanto encontrar diante de si, agarra pelos cabelos Indaba e, se ela no acreditar nele enterra-lhe esta faca 
no corao...
        - Oh! Antnio, oh! meu amigo - disse Maurcio com voz suplicante, arrependido das palavras que acabava de proferir, e que to violenta excitao haviam produzido 
no esprito do amoroso e valente ndio.
        - Antnio, no! bradou ele ainda exasperado - Iaubi! Itaubi! chame-me Itaubi. Se Indaba est pervertida,  pelos cristos, e eu quebro este...
        Dizendo isto, Antnio apertava com mo frentica o pequeno crucifixo de prata que sempre trazia ao pescoo. - O Deus que protege a esses que perseguem umas 
pobres meninas desvalidas no pode ser bom.        
       - Que dizes, Antnio!... ests a blasfemar! - Nesse momento, um trovo, e um raio que caiu a pouca distncia, prostara um enorme tronco.
        - Ests vendo, Antnio, o efeito de tuas palavras?
         uma ameaa!... O nosso Deus, que morreu por nosso amor, no pode proteger os maus. O mau, o nico mau, que l existe, tu bem o conheces,  o maldito Fernando. 
Esse, tarde ou talvez bem cedo, por desgnio desse mesmo Deus, de quem acabas de maldizer e desconfiar, h de cair prostrado a nossos ps e receber o castigo que 
merece. Oh! por quem s, Antnio, no percas a f no Deus de bondade e de justia, que  hoje nosso nico refgio.
        Ao proferir estas palavras, Maurcio, que tinha crena firme e profunda na religio do crucificado levantara-se em toda a altura do seu belo porte, e, apontando 
para o cu com um gesto inspirado, parecia um profeta a devassar os arcanos do futuro.
        O africano, com um joelho meio curvado e arrimando-se em sua zagaia, o contemplava cheio de respeito e comoo. Antnio prostrou-se aos ps de seu amo, abraando-lhe 
os joelhos: 
       - Perdo, meu amo - exclamava ele - Antnio j no sabe o que disse; no faa caso das palavras de um bugre grosseiro que nasceu no mato; ele tem a cabea 
muito ruim, mas seu corao  bom.
       - Levanta-te, meu bom Antnio; - tens um corao mais nobre do que a maior parte dos fidalgos, e se tua cabea desvaira alguma vez,  levada por impulsos 
generosos. Deus te perdoar o grito de blasfmia que h pouco te veio  boca e que de certo no nasceu de alma nem veio do corao, mas do mpeto da paixo.
        Enquanto se dava esta cena, a chuva havia cessado completamente; as nuvens expelidas do ocidente para o oriente por uma violenta lufada, deixaram o sol completamente 
descoberto, coando do ocaso inflamado seus raios horizontais atravs da ramagem e dos troncos da floresta.
        Agitado pela brisa que sucedera ao tufo, o teto verde-escuro da mata, de onde um outro pedao do azul aparecia, deixava cair o resto da chuva que ainda 
lhe umedecia a coma, aos pingos grossos, irisados. A selva apresentava ento um aspecto fantstico e deslumbrante; as rstias de sol que se insinuavam naquelas brenhas, 
quebrando-se, sem derramar luz muito viva nem sombras muito pronunciadas, expandiam uma claridade igual e cor-de-rosa; os troncos, cobertos desse musgo que lhes 
reveste a crosta spera e rugosa, pareciam colunas de bronze velho e azinhavrado e as gotas que caam da folhagem, iriadas22 pela luz do sol, pareciam uma chuva 
de ouro, de prolas, de rubis, de topzios e esmeraldas. Pura fantasmagoria!
        Os mal aventurados viventes, que ali se achavam, no encontravam diante de si seno brenhas e escalabrosidades a romper, seno trabalhos e privaes a suportar, 
azares e perigos.
        No h mais hesitar, refletiu Maurcio consigo mesmo - o meu destino, seja qual for o resultado, feliz ou desastroso, est traado de um modo fatal e inevitvel. 
O meu caminho  um s, sem desvio nem atalho possvel; devo marchar com as armas na mo, direito  casa do capito-mor. 
        No quero, no devo, no posso ter outro procedimento.  possvel que eu passe os dias, que ainda tenho de viver, errante, foragido, difamado  e at amaldioado 
pelos entes a quem mais prezo neste mundo e por quem tantos sacrifcios tenho feito? e ele, esse vil e embusteiro Fernando, o nico autor de todos meus infortnios, 
passe a vida junto dela, gozando de todas as venturas que o cu me tenha destinado?!
        Oh! no! nunca! nunca!  foroso arriscar um golpe decisivo, que me arranque de uma vez destas cruis conjeturas, deste inferno insuportvel em que h mais 
de seis meses me vejo sepultado e que cada vez se torna mais sinistro e desesperador!... No  s a honra e a liberdade de trs donzelas e os direitos de meus patrcios 
oprimidos por um perro de emboaba o que tenho de proteger com as armas na mo;  tambm a minha vida que tenho a defender e pr em segurana;  tambm e principalmente 
o baldo23 de traidor, que macula meu nome, baldo que, infelizmente, s poderei lavar com sangue. 
        Ah! Deus me perdoar por certo o sangue que for derramado;  em defesa da honra, da lealdade, da justia, do amor e da inocncia.
        Entretanto o sol havia inteiramente desaparecido atrs dos morros do poente; o ribeiro que a pouco trbido e espumoso rolava em catadupas rugidoras atravs 
das selvas, escalavrando as ribanceiras, agora, reduzido a seu leito natural, murmurava timidamente como o co irritado que se deita rosnando aos ps do senhor, 
que veio apazigu-lo.
        - Eia, meus amigos! - disse Maurcio com voz animada e resoluta; - j agora no  mais dado recuar. No tarda anoitecer; o ribeiro j esvaziou, passemos 
para outra banda antes que venha por a mais alguma pancada de chuva grossa, como a que acabamos de agentar. Esta noite mesmo, a no haver algum transtorno, poderemos 
estar na caverna de Irabussu.
        A estas palavras de Maurcio, Antnio e Zambi saltaram fora da pequena tolda de ramos, em que se achavam abrigados. Antnio deu um sinal aos seus Aimors, 
que em um momentos se puseram de p com suas armas e cabazes e se agruparam redemoinhando como uma vara de caitetus, gesticulando e resmungando com esgares, gestos 
e palavras indgenas, que denunciavam impacincia e vontade de partir.
        O troo de homens de Maurcio, composto como sabemos, de alguns poucos paulistas, de negros foragidos e de diversos bugres meio civilizados, tambm no tardou 
em se apresentar pronto para prosseguir na marcha. Em poucos minutos tinham todos passado para a margem direita do crrego.
        O dado estava lanado; Maurcio havia transposto o seu Rubico.
        


CAPTULO V

O Encontro

        Uma vez passados para a outra margem do arroio, Maurcio e seus companheiros se puseram em marcha e foram acompanhando o curso da torrente, no por caminhos 
nem trilhos, que no existiam, mas por uma batida, como se diz em linguagem sertaneja, que ali havia aberta h muitos sculos, por certo pelos animais silvestres, 
pelas antas, veados e caitetus e depois mais praticvel talvez pela freqente passagem das hordas errantes que cruzavam por aquelas paragens. Essa batida, que seguia 
at as proximidades da confluncia do ribeiro com o Rio das Mortes, j era muito conhecida de Antnio, de Zambi e mesmo de Maurcio, que em suas caadas tinha tido 
ocasio de reconhec-las.
        No pensem, porm, os leitores, que era um caminho franco e desimpedido; nas matas brasileiras, principalmente naquela poca, somente dois ou trs meses 
de chuva mudavam completamente o aspecto do solo.
        As torrentes pluviais e a extraordinria exuberncia de uma vegetao vigorosa e rpida apagam completamente, em pouco tempo, at o ltimo vestgio mesmo 
de uma estrada regular, feita pela mo do homem civilizado, atravs das florestas, se ela no continua a ser freqentemente transitada.
        A no ser o instinto selvtico de Antnio e o traquejo que Maurcio e Joaquim tinham daqueles sertes, bem difcil seria reconhecer o seguimento dessa batida. 
A marcha, portanto, no podia deixar de ser lenta e penvel atravs de uma floresta, onde ento apenas penetrava escassamente o claro da lua, que ainda no havia 
atingido ao seu quarto crescente.
        Antnio, Maurcio e Joaquim, como conhecedores e prticos da localidade, caminhavam adiante. Marchavam um a um, de frente, porque em semelhantes caminhos 
e com tal escurido, outra no podia ser a ordem da marcha. Assim andaram sem novidade nem contrariedade alguma por espao de duas horas, avizinhando-se do leito 
do Rio das Mortes.
        J estavam bem vizinhos do lugar em que, deixando o crrego, que desgua no rio, deviam descer, por este, passar a ponte e da continuar margeando-o sempre, 
seguindo guas acima o seu curso, chegando antes de amanhecer  gruta de Irabussu.
        - Graas a Deus, - disse Maurcio a Antnio - estamos quase chegados sem grande novidade nem contratempo no termo de nossa terrvel peregrinao. De amanh 
em diante s nos ser preciso astcia, coragem e prudncia.
        -  verdade, patro; no nos h de faltar nada disso: nimo e pacincia no trabalho e no perigo no nos falta, e Deus  por ns. 
        Poucos instantes depois de proferidas estas palavras, Antnio, que marchava uns cinqenta passos adiante de Maurcio, parou de sbito, deitou-se por terra, 
e encostou o ouvido ao cho, e nessa posio conservou-se por alguns instantes.
        - Que temos de novo, Antnio? perguntou Maurcio com sofreguido e voz abafada.
        - No sei, meu amo; mas parece-me que a vem gente pela nossa frente.
        - Ah! exclamou Maurcio com angstia; teremos sido percebidos!... estaremos denunciados?!
        - Isso no  possvel, patro; at o presente nenhum de nossa tropa desertou ainda e em nosso caminho ainda no encontramos viva alma. H de ser algum troo 
de bugres, como eu e meus Aimors; com esses eu sei me entender, o patro bem sabe; no  a primeira vez, esperemos. Zambi, manda nossa gente marchar avante depressa 
e parar...
        Zambi voltou cinqenta passos e com incrvel rapidez fez parar toda a horda debaixo do maior silncio. Maurcio e Antnio avanaram mais uns trinta passos 
e esperaram a p quedo e quase suspendendo a respirao na maior ansiedade; por fim ouviram distintamente o tropel surdo de homens, que se avizinhavam.
        Momentos depois, Antnio com sua vista de lince lobrigou atravs das trevas. na distncia de uns cinqenta passos, a vanguarda de um grupo de homens entre 
os ramos, que vinha avanando pela mesma batida. Antnio, sem dizer palavra, entesou o arco e despediu uma flecha, que voou zunindo e foi cravar-se em um tronco, 
pouco acima da cabea dos que vinham. A resposta foi um tiro, e uma bala, que silvou bem perto dos ouvidos de Maurcio e Antnio.
        - Bem vs, Antnio - que no so bugres, estamos descobertos, - disse Maurcio e depois com toda a fora de sua voz clara e vibrante - Antnio, Zambi, paulistas, 
temos inimigos pela frente! avanar...
        - Maurcio! bradou mais alto ainda outra voz do lado contrrio.
        Ouvindo esta voz, Maurcio estremeceu e parou hirto e imvel como se seus ps se cravassem de sbito no cho e clamou por trs vezes - Gil! Gil! Gil!
        Ambos voaram um para o outro, de braos abertos, e, atravs da escurido, como levados por uma poderosa atrao magntica, ou por uma impulso misteriosa, 
caram nos braos um do outro.
        - Ests ferido?
        - No, e tu?
        - Nem de leve! Louvado Deus!
        Gil no precisou dizer uma palavra a sua comitiva, composta de uns vinte homens em sua maioria paulistas e de alguns ndios domesticados.
        O nome de Maurcio, que ouviram distintamente dos lbios de Gil, nome que lhes era to conhecido, foi ecoando de boca em boca: -  Maurcio!  Maurcio!... 
e sustou imediatamente todo ato de hostilidade.
        Os Aimors, porm, que vinham ainda um pouco disseminados a uns cem passos atrs e que no sabiam quem era Gil, ignoravam inteiramente o que acabava de ocorrer. 
Antnio, deixando Maurcio e Gil, com rapidez do veado voltou ao encontro deles, que com Zambi  frente j vinham em passo acelerado e de flecha enristada, dispostos 
a combater a todo o transe.
        - Zambi! Zambi!... bradou Antnio, pra a, so amigos!  Gil, o amigo do patro.
        Em alguns instantes, mas no sem alguma dificuldade, Antnio e Zambi conseguiram conter e aplacar o mpeto belicoso, de que vinham animados e que impelia 
para diante aqueles selvticos guerreiros. Pareciam sentidos por terem perdido aquela primeira ocasio de mostrarem ao filho de seu velho chefe a pujana do tacape 
brandido por seus braos e os tiros certeiros de suas flechas aceradas.
        Posto que um pouco descontentes, avanaram lenta e tranqilamente; mas os paulistas de ambos os grupos encontradios, que eram todos conhecidos e amigos 
velhos, cheios de contentamento por aquele feliz e inesperado encontro, se apinhavam e enovelavam em derredor de Gil e Maurcio, cada qual mais ansioso por v-los. 
Aquele troo de cerca de quarenta homens, remoinhando em volta de um ponto limitado, falando-se uns aos outros com voz surda e abafada, no meio de uma floresta espessa 
e tenebrosa, alta noite, se no se assemelhava a um congresso de vampiros e duendes, devia parecer-se com uma vara de caitetus quando aglomerada em torno do caador, 
que, trepado em um tronco ou em um cupim, munido de uma foice os vai ceifando um por um.
        Assim Gil e Maurcio no se viram livres do aperto, enquanto no falaram e abraaram a cada um dos do grupo contrrio.
        - Que feliz encontro, heim? Maurcio?!
        -  verdade, meu Gil; feliz encontro, mas por um pouco nos ia sendo fatal.
        - Ah! Maurcio! Deus protege a boa causa.  tempo de nos vingarmos; tudo corre s mil maravilhas a nosso favor; s tu nos faltava, agora creio que podemos 
contar com o triunfo.
        - Deveras, Gil?!
        - Oh! por Deus, meu amigo! Mas no devemos perder tempo aqui parados. Eu s venho a rua procura; achei-te mais depressa do que esperava e agora tenho de 
voltar contigo.
        - Mas como sabias que eu estava vivo?
        - Vamos, Maurcio! ordena a tua gente, e toca a marchar; de caminho, apesar da escurido e da dificuldade da marcha, tudo te irei contando por mido. Puseram-se, 
pois, em marcha, os da comitiva de Gil, voltando sobre seus passos e os de Maurcio prosseguindo sua jornada.
        Se grande era o desejo, que tinha Gil, de contar a seu amigo tudo o que havia ocorrido depois que se haviam separado na calamitosa noite do assalto  casa 
do capito-mor, maior era ainda a ansiosa curiosidade de Maurcio por saber o que ali se passara depois. Portanto, apesar da escurido do caminho, Gil, interrompendo-se 
a cada passo, foi contando o que se vai ler nos captulos seguintes. Antnio e Zambi, igualmente interessados, seguiam-nos imediatamente e marchavam sobre as pegadas 
dos dois jovens paulistas, cosiam-se a eles como se fossem suas sombras, sempre de ouvido afiado a fim de no perderem uma s palavra. 

CAPTULO VI

        - Tenho muito que te contar, meu caro Maurcio.
        - Bem o sei e estou ansioso por saber tudo: mas em primeiro lugar d-me notcias de Leonor.
        - Ah! j eu esperava por essa pergunta!  to natural...  ela o teu eterno cuidado!
        - Desculpa-me, meu amigo.
        - Oh! sim, no te estou exprobrando nada, o amor  to natural em um moo e ela  to digna de adorao... mas espero que desta vez no irs cometer as imprudncias 
que da outra vez nos puseram a perder!
        - No tenhas susto, Gil; a experincia escarmentou-me; mas... como vai ela?
        - Infelizmente no te posso dar notcias muito circunstanciadas a seu respeito; s sei que ela vive muito triste depois daquela noite fatal, o que  muito 
natural e explicvel; tanto sangue, tantos desastres, a morte de seu irmo...
        - Ah1 sim! sim! no era preciso tanto para abalar profundamente aquele corao to nobre e to sensvel; e de mais, Gil, talvez o saibas, Afonso morreu atravessado 
por minha espada...
        - Ah! no sabia... como foi isso ento, Maurcio?
        - Sem eu querer... pelo contrrio, fazia todo o possvel para desarm-lo sem o ofender; mas enquanto eu, com a espada em riste, no meio daquela confuso 
medonha que tu bem viste, com minha capa enrolada no brao esquerdo aparava uma cutilada, o pobre moo atirou-se s cegas, como um furioso, sem reparar na espada 
e caiu morto a meus ps com a garganta atravessada. Bem podes calcular qual foi a minha angstia, o meu desespero, quando arranquei a minha espada fumegante do sangue 
do irmo de Leonor. julguei-me inteiramente perdido, e dessa hora em diante tambm brigando como um louco, tanto ou mais do que Afonso suspirava pelo golpe, que 
viesse dar cabo de meus dias. Mas da apareceste com Antnio, voando em meu socorro; refleti um pouco e compreendi que no devia morrer ainda; era um auxlio que 
parecia descer-me do cu; eu no devia morrer deixando meu nome como o labu de traidor aos olhos daquela por cujo amor at ali me tinha exposto a tantos e to estranhos 
azares. Correndo em meu socorro, tu e Antnio, no me salvastes s a vida; salvastes o meu nome do aprbio e da ignomnia.
        - Isso era nossa obrigao; servio por servio, dedicao por dedicao; o que nos cumpre agora  no descansar enquanto no pusermos um paradeiro a esta 
vida de proscritos que levamos, a esta srie de azares e sacrifcios, a que h perto de dois anos andamos condenados.
        - Isso  que  falar verdade, senhor Gil, exclamou Antnio, no podendo conter o desejo de tambm tomar parte na conversao, da gente h de andar perdido, 
por estes matos passando vida de cachorro, ao sol e  chuva l perseguido como ona, e eles, bem anchos e enxutos, debaixo de bons tetos, depois de terem roubado 
nosso ouro e aprisionado nossas amantes!... Ah! estou aflito por saber o que  que tem havido l pelo arraial de S. Joo d' El-Rei.
        - Igual impacincia tenho eu, Antnio.
        - Vamos, anda Gil, conta-nos o que aconteceu, e o que foi feito de nossos companheiros depois daquela desastrada noite.
        Gil foi contando pelo caminho o seguinte:
        - Na noite do malogrado e prematuro assalto dado  casa do capito-mor, ele, que ao ponto de Ave-Maria se tinha separado de Maurcio, foi direto a sua casa. 
Como sabemos, Gil, graas s diligncias do seu velho bugre Irabussu, era possuidor de uma considervel fortuna consistente em ouro bruto, em p e em folhetas, que 
o bugre colhia s escondidas no se sabia aonde.
        Como nessa noite tinha de arriscar-se aos azares de um conflito, cujo resultado era bem duvidoso, desejava pr a bom recato esses valores, a fim de que no 
cassem nas mos dos emboabas.
        Sabia que todo o mal que estes lhe desejavam provinha no tanto do dio, que votavam  sua pessoa, como da inveja e gana que tinham de sua riqueza, que reputavam 
dez vezes superior ao que realmente era.
        Gil preferia ver esse tesouro restitudo ao seio da terra donde sara, ao entregar s mos vidas de seus perseguidores. 
        No tinha a quem confi-los por que seus melhores amigos andavam, como ele, foragidos e expostos aos mesmos perigos e perseguies. Depois de pensar por 
algum tempo, tomou uma ltima deliberao.
        - Foi Irabussu quem me deu estas riquezas, - pensou ele. Saram da gruta, onde ele morava e talvez mora ainda. Se ele adquiriu este ouro, com tantos trabalhos 
e perigos para mim. Assim, pois, levemos este tesouro para o lugar, donde veio. Em parte alguma pode ficar mais bem guardado, do que ali, debaixo das vistas de quem 
o descobriu.
        Tendo tomado esta resoluo, Gil, chegando  casa formou um pacote de todo o ouro e jias que possua, montou com ele a cavalo, e partiu a trote largo para 
a gruta de Irabussu, de onde nessa noite ele e Maurcio deviam conduzir os insurgentes contra o arraial e contra a casa do capito-mor. Tomando, como era seu costume, 
um caminho muito diferente daquele que seguia a coorte dos insurgentes, ao chegar  gruta ficou surpreendido ao encontr-la completamente abandonada. No era possvel 
que os insurgentes tivessem sido atacados pelos emboabas.
        Gil no encontrou na gruta o mnimo sinal de combate, nem cadveres nem sangue. Logo atinou com o verdadeiro fenmeno.
        Foi a impacincia e sofreguido dos insurgentes que, no achando quem os reprimisse, os levaram a antecipar o rompimento sem esperarem nem por ele nem por 
Maurcio.
        Esta apreenso, que era uma certeza, o encheu de inquietao; mas, como o mal estava feito e sem remdio, Gil, pegando em um tio dos fogos ainda no extintos 
para alumiar seus passos, procurou na gruta um lugar onde depositasse seu tesouro. Desviou uma espcie de nicho, cuja cobertura no era grande, mas parecia ter cavidade 
bastante profunda. Por cima deste nicho forma-se em relevo uma perfeita cruz de cintilantes estalactites; era um lugar bastante assinalado e com o sinal auspicioso; 
em qualquer tempo Gil, que conhecia muito bem a gruta, poderia reconhec-lo. Estendendo bem os braos, a custo puderam alcanar a altura do nicho, Gil a atirou 
o pacote, que continha sua riqueza. Depois, voltando-se para o interior da gruta:
        - Irabussu! clamou com voz bem alta, - teu amigo Gil vem confiar  tua guarda este ouro, que lhe deste. Se ainda s vivo, vigia bem esse tesouro, para que 
no caia em mos de nossos inimigos.
        - Branco, vai-te em paz! rugiu uma voz pesada e lgubre do fundo dos socaves da gruta.
        - Ningum tocar no teu ouro, porque, vivo ou morto, Irabussu sempre aqui estar. Vai-te, mas no voltes mais aqui sem trazer pela mo minha filha Indaba 
e o teu punhal tinto no sangue do emboaba.
        - Confesso, dizia Gil depois de ter contado este estranho episdio, - confesso que no esperava resposta alguma, e que quando ouvi na medonha solido daquela 
caverna os ecos sepulcrais de uma voz, que parecia falar das margens do outro mundo, tive arrepios de medo, e tremi dos ps at a cabea. No tive nimo de falar, 
sa da gruta a toda a pressa e voltei  rdea solta para a povoao.
        - Ah! senhor Gil - acudiu Antnio, nessa mesma noite, j Irabussu nos tinha falado, e foi ele, o pai de Indaba, que alvoroou a gente toda... ele e Calixto... 
eu tambm fiquei com os cabelos arrepiados... aquele velho bugre ou  um demnio, que nos tenta, ou  o nosso anjo da guarda.
        - Seja o que for, aquele ndio velho e matreiro ainda existe em sua caverna misteriosa, e  um grande auxlio, com que podemos ainda contar.
        Gil, continuando a sua narrativa, contou como no chegar  casa ouviu os primeiros tiros, e a vozeria e estrondo do assalto  casa do capito-mor. 
        Sua conjetura se realizava, largou o cavalo e correu imediatamente para l. Ao entrar no ptio encontrou com Antnio, que do lado oposto vinha correndo tambm 
para o teatro daquele horroroso conflito em procura de Maurcio.
        O leitor j sabe como se terminou essa terrvel e tremenda refrega com a fuga de Maurcio e Antnio para um lado, e a derrota e a disperso dos insurgentes 
para outro.
        Depois que se separou de seus amigos, Gil andou percorrendo as ruas da povoao arrebanhando seus patrcios destroados e em debandada. Os portugueses felizmente 
para os paulistas, ou por temerem ainda algum novo assalto, no abandonaram a casa do capito-mor, de maneira que no foi difcil a Gil reunir sem grande perigo 
os insurgentes fugitivos e conduzi-los para sua casa.
        Alm dos que morreram no conflito, muitos, gravemente feridos, tinham ficado prisioneiros em casa do capito-mor, e outros tinham-se desnorteados e no fim 
de contas Gil s pode reunir trinta ou quarenta insurgentes, quase todos paulistas, alguns bugres, e um ou outro africano. Tabajuna, o valente e prestigioso chefe 
dos caets, havia sucumbido na luta; uma bala logo no comeo do ataque, lhe havia atravessado o crnio. Este terrvel incidente encheu de fria a seus guerreiros, 
que foram os primeiros a sair  varanda e encher a casa do capito-mor de sangue e de cadveres. Mas restava ali vivo e bem disposto o velho ferreiro, o valente 
mestre Bueno, to rijo e resistente como o ferro em que costumava a malhar, e que estava preso por causa do minhoto, e que fora solto pelos insurgentes. Gil depois 
de ter pensado algumas leves feridas dos seus camaradas e de lhes ter dado algum conforto e alimento que tinha em sua casa, dirigiu-se a mestre Bueno pedindo-lhe 
conselho sobre o que deviam fazer.
        - Ento, meu velho amigo, que devemos fazer agora?... Dentro de duas ou trs horas vai amanhecer o dia; no podemos ficar aqui reunidos no arraial; os emboabas 
cairo sobre ns, e somos bem poucos para lhes poder resistir.
        - E o que  que o patro pretende fazer? - perguntou mestre Bueno.
        - Eu... eu... respondeu Gil hesitando, vou-me embora daqui com os companheiros que quiserem seguir-me. Aqui at agora j no havia segurana, nem liberdade 
para ns; daqui em diante, depois do desastre desta noite, temos de ser perseguidos como onas.
        - Pois eu, patro, no saio dessa redondeza; aqui hei de ficar como ona mesmo que sou: aqui hei de espiar, aqui hei de negociar tudo.
        L est minha filha na casa daquele capito-mor de uma figa. Calixto tambm l ficou, no sei se vivo ou morto. Ou hei de arranc-los de l, ou hei de botar 
fogo na casa e l morrer com eles.
        - E onde pretendes tu ficar, que no te persigam e no te apanhem...?
        - Onde? na caverna de Irabussu. L est o meu velho ndio; ele bem me conhece; ns nos arranjaremos.
        Gil refletiu um momento e convenceu-se de que, na urgente situao em que se achavam, o melhor expediente era mesmo tomarem imediatamente todos os que ali 
se achavam o caminho da gruta.
        L somente poderiam encontrar segurana e tempo para deliberarem tranqilamente sobre o que agora deviam fazer. Tomada esta resoluo por acordo unnime, 
Gil ajuntou tudo que havia de aproveitvel em sua casa, armas, vveres, vesturio, ferramenta, e cada um, tomando o que podia carregar, evacuaram a pequena casa 
seguindo o rumo da gruta de Irabussu. Gil foi o ltimo que saiu, e tirou a chave, dizendo com seus botes:
        - Vo achar a casa vazia; mas no  mau dar-lhes o trabalho de arromb-la; iro a meu quarto, arrombaro tambm a minha gaveta, e l acharo somente um pedacinho 
de papel com estas linhas:
       "O ouro do minhoto acha-se em poder do senhor Dom Fernando; o de Gil, Irabussu o levou de novo para o outro mundo."
        Com este ardil, que a ningum tinha comunicado, era seu intento assanhar os emboabas contra a cobia de Fernando, e darem-se de novo a perros para descobrirem 
Irabussu em sua gruta, ou seu tesouro. Talvez ousassem fazer uma expedio ou explorao com to bom resultado como a primeira. Era isso o que Gil mais desejava. 

CAPTULO VII

        Sem novidade nem contratempo, os insurgentes derrotados chegaram  caverna de Irabussu, quando j ia rompendo o dia. Gil contava a encontrar o tesouro, 
que na vspera confiara aos cuidados do velho bugre. Era um grande recurso, com que poderia armar muita gente e empreender nova tentativa para sacudirem o jugo dos 
emboabas. 
        Acenderam fogos dentro da caverna e, enquanto iam tomando algum descanso e refeio no deixaram tambm de deliberar.
        Ficou convencionado que mestre Bueno continuaria a ficar na gruta, dirigindo a espionagem e preparando elementos para uma nova tentativa, enquanto Gil com 
alguns companheiros sairiam com direo a Sabar e Caet, por onde andava o tenente-general Borba Gato, paulista opulento e de grande prestgio, que anos antes, 
 frente de uma numerosa bandeira, ali tinha feito as primeiras descobertas de ouro e fundado diversos arraiais. Borba Gato andava tambm por aquelas bandas em luta 
encarniada e em contnua rivalidade com os emboabas, dirigidos pelo clebre Manoel Nunes Viana, riqussimo e hbil caudilho que gozava de imensa considerao e 
prestgio e exercia em quase toda a regio das minas ento conhecidas tamanha influncia, que os prprios governadores o respeitavam e temiam.
        Quando Gil, depois de tudo assim ficar deliberado e resolvido, percebeu que todos os seus companheiros, em conseqncia das fadigas daquela desastrada noite 
que acabavam de passar, se achavam profundamente adormecidos, chamou de parte o mestre Bueno que, em razo da extrema preocupao de seu esprito, ainda no tinha 
sucumbido ao sono. Em poucas palavras contou-lhe tudo que tinha acontecido e o que tinha feito na vspera de tomar parte no assalto e como tinha escondido os seus 
tesouros naquela gruta, confiando-os a Irabussu, que de fato lhe aparecera e assegurara de que seriam fielmente guardados.
        - Fez muito bem, disse mestre Bueno, - antes se percam para sempre essas riquezas do que caiam nas mos desses perros excomungados. 
        - Mas, entretanto, respondeu Gil, -  de absoluta necessidade que tu saibas em que lugar desta gruta escondi esse ouro que no  meu, e nem o quero para 
mim, e s o tenho para servir  causa dos oprimidos contra os emboabas.
        Tenho de partir e no sei se voltarei, pois vou expor-me a toda sorte de riscos e azares. Tu, mestre Bueno, tu, que aqui ficas, se bem que no estejas em 
plena segurana, com tudo melhor do que eu poders vigiar esse tesouro, que nos pertence a todos.
        - Mas Irabussu? retorquiu mestre Bueno, - Irabussu no vos prometeu vigi-lo?
        -  verdade; mas Irabussu  um ente misterioso, que aparece e desaparece de tempos a tempos nas sombras de seus esconderijos impenetrveis, como um fantasma 
que se some no sepulcro ou dele surge conforme seu capricho. Ningum sabe onde dorme aquele esqueleto animado e um dia pode bem acontecer que por l fique dormindo 
o sono eterno.
        Portanto  bom que fiques sabendo em que lugar est esse ouro. Em ti, meu bom e valente velho, deposito a mesma confiana que depositaria em Maurcio ou 
Antnio.
        - Pois vamos com isso, patro; permita Deus que vossa merc no nos falte; mas, se faltar, Bueno jura que no h de pr a mo nesse ouro seno para defender 
nossa gente e acabar com essa corja de emboabas. Mas o patro bem v que este velho ferreiro tambm anda jogando a vida, e que to fcil  vossa merc perd-la por 
l como eu por aqui. E se ns dois morrermos ou cairmos nas unhas do emboaba?
        - Irabussu entregar esse tesouro a quem lhe parecer.
        - Mas Irabussu, vossa merc mesmo ainda agora o disse, - vivo ou morto pode desaparecer.
        - Ah! tens razo, mas o que fazer, meu velho?
        - Chamar mais um terceiro, que seja de confiana, que fique sabendo do lugar...
        - Tens razo; eu da minha parte nenhum receio tenho de confiar esse tesouro a qualquer de nossos patrcios... todos so leais e de conscincia pura; mas 
nem todos so prudentes e ajuizados... Eu tambm j fui um desmiolado como ningum... a experincia escarmentou-me.  preciso um homem que saiba fazer desse ouro 
bom emprego a bem de nossa causa. Quem ser esse, mestre Bueno?
        - O senhor capito Nuno.  homem de idade e que goza de respeito; no  nenhuma cabea de vento, como o meu pobre Calixto...
        - Bem lembrado, mestre Bueno; vai cham-lo.
        - Este capito Nuno - deves lembrar, Maurcio - disse Gil contando esse episdio -  aquele paulista no muito velho, mas de idade madura, que tantas vezes 
procurava moderar a impetuosidade dos nossos...
        - Oh! se me lembro, Gil!... Posso eu esquecer-me de um dos nossos mais leais e valentes camaradas?
        Foi ele que na caada do capito-mor voltou depressa a rdea a acalmar a gritaria que nos ia comprometendo.
        - E foi ele, Maurcio, que na noite do assalto, segundo me contaram, empenhou debalde os ltimos esforos para conter o levante, at que tu chegasses.
        - Bem, disse Maurcio, - continua; conta-me o resto; estou ansioso por saber tudo.
        Gil continuou a contar o que vamos resumindo.
        Mestre Bueno foi procurar entre os numerosos vultos, que jaziam adormecidos, a pessoa do capito Nuno, no lhe sendo muito fcil reconhec-lo com a fraca 
luz que reinava na gruta, mais fraca que um luar de quarto crescente ou minguante. Sacudido por mestre Bueno, o capito Nuno acordou algum tanto sobressaltado.
        - Que me queres, mestre Bueno?...
        - Pouca coisa, meu capito, mas coisa de importncia.
        O valente paulista ps-se em p em um instante procurando suas armas. -  inimigo?, perguntou ele.
        - No, respondeu Bueno; - mas eu e o senhor Gil precisamos agora mesmo de sua presena.
        - Pronto, seja l o que for.
        Guiados por Gil, Bueno e o capito Nuno foram direito ao lugar onde Gil escondera o tesouro comum.
        - Oh!  aqui - exclamou Nuno -  um lugar bem assinalado... e comeou a reparar mais, - aqui bem perto emparedamos ontem o maldito Tiago... ter j morrido 
o malvado?!...
        Gil nem mestre Bueno estavam presentes na ocasio em que, na vspera, os insurgentes haviam emburacado o Tiago; no podiam bem compreender o sentido das 
palavras de Nuno; mas este continuava a andar e a apalpar nas paredes de estalactites. Por fim parou.
        - Estamos perdidos, exclamou ele - o maldito escapou... o buraco est aberto! oh! meu Deus! oh! meu Deus! estamos perdidos!...
        - Que  l isso? perguntaram ao mesmo tempo Gil e mestre Bueno, aterrados pela exclamao de Nuno.
        Como o leitor sabe, Gil e mestre Bueno ignoravam o que se tinha dado na vspera a respeito de Tiago, e por que maneira ele tinha sido entaipado por alvitre 
de Antnio em um buraco da gruta. Nuno, que na vspera havia assistido a essa horrvel cena, contou-lhes em poucas palavras.
        - S ele, - terminou Nuno - conhece a existncia e o caminho desta gruta. Ele escapou, estamos bem mal parados.
        - Quem o soltaria? Por si mesmo era impossvel ao homem mais robusto metido nesse buraco arredar estas pedras.
        - O certo  que escapou, exclamou Gil, e nenhuma segurana temos mais no abrigo desta gruta;  preciso abandon-la imediatamente e fugirmos para mais longe. 
A qualquer hora a gente do capito-mor pode dar sobre ns e somos bem poucos para podermos resistir.
        - Sim, mas  preciso levar o vosso ouro.
        - Sem dvida; vamos tir-lo do esconderijo.
        - Dizendo isto; Gil pegou em um grosso bloco de estalactite, colocou-o bem junto  parede da gruta, e subiu sobre ele para melhor poder retirar o pacote 
de ouro, que ali depositara; mas suas mos debalde tatearam por todos os lados o vo que ali formava a parede; nada encontrara seno pedra!... Enfim saltou abaixo, 
esmorecido.
        - Ainda esta nos faltava! meus camaradas - disse com desalento; tambm o nosso ouro fugiu, desapareceu!
        - Embora, disse Bueno; no havemos de morrer de fome; temos armas e no falta caa por essas matas.
        -  verdade, disse Gil; porm que falta vai fazer-nos aquele ouro!... Sem dvida o mameluco que ali estava emburacado, ouviu minhas palavras e as de Irabussu 
e foi direito ao buraco e de l levou nosso ouro para as mos dos emboabas... ah! Irabussu! Irabussu! por que fatalidade desta vez no soubeste guardar o nosso tesouro!? 
Esta exclamao, que Gil pronunciou voltando-se para o fundo da caverna, retumbou com voz plangente, mas sonora e forte e, apenas morreram os ltimos ecos pelas 
profundas anfractuosidades da gruta, ouviu outra voz cavernosa e lgubre bradar l de dentro:
        - Cala-te, branco, e espera.
        Da a instantes, os trs companheiros viram ir-se desenhando na penumbra o vulto hirto e esguio de Irabussu que avanava para eles. O espectro avizinhou-se 
de Gil, e pousando-lhe sobre o ombro a comprida e descarnada mo: - Branco, disse-lhe, escuta o que teu amigo Irabussu vai te dizer.
        Nem Irabussu nem teu ouro ainda no saram desta toca; quem saiu foi s o maldito columim. Quando ontem partiram, eu vim aqui. Queria tambm acompanhar os 
guerreiros: mas a voz de Tup me disse: Irabussu no deve sair: os guerreiros ainda voltaro. Irabussu ficou e ouviu uma voz lamentosa que chorava daquele buraco; 
condoeu-se, afastou as pedras e um vulto veloz como a flecha saltou de dentro, correu e desapareceu. Era o mameluco.
        - E agora, meu velho, disse Gil - estamos perdidos; ele vai denunciar-nos e vir mostrar a nossa guarida.
        - Sossega teu corao, meu branco; no saiam daqui por ora. Irabussu  o jaguar que vai rondar em volta do arraial dos emboabas: o sagi h de cair nas garras 
do jaguar. No saiam enquanto Irabussu no voltar.
        Ditas estas palavras, o velho paj armado unicamente de um pequeno arco e de algumas flechas curtas, a passos largos e compassados, que mediam quase dois 
metros, dirigiu-se para a boca da furna e saiu. 
        A palavra de Irabussu tinha para Gil e seus companheiros o dom da infalibilidade. Tranqilizados por ela, Gil, mestre Bueno e Nuno, extenuados de fadiga, 
embrulharam-se em suas capas e, fazendo do brao travesseiro, tomaram lugar entre seus companheiros, adormecendo profundamente.
        Era quase meio-dia, quando Irabussu saiu da caverna, voltando quando o sol tocava ao seu ocaso. Quando entrou, achou todos ainda ressonando tranqilamente.
        -  bom deix-los dormir, - pensou o velho paj; - nenhum perigo os ameaa e o guerreiro precisa de repouso.
        E sumiu-se nas profundas e sinuosas cavidades daquele seu palcio nigromntico.
        Quando baixou a noite Gil acordou; reinavam na caverna as mais profundas trevas, se bem que fora dela um esplndido crepsculo afogueava os horizontes, tocando 
com um vu cor-de-rosa o tope das montanhas e a coma das florestas. 
        - Ah! pensou Gil - dormi demais!... e, esfregando e abrindo bem os olhos: Que escurido! meu Deus!... deve ser noite!... Que ter acontecido?!...
        Gil acordou mestre Bueno e Nuno, que atearam o fogo, e despertaram o resto da gente.
        - Meus amigos, - disse Gil, - Irabussu apareceu a mim, a mestre Bueno e ao capito Nuno. Irabussu saiu e ns tambm adormecemos de cansao; algum daqui o 
viu tornar a entrar?...
        - No vimos no, senhor, responderam todos.
        - Pior, respondeu Gil; se ele tivesse voltado, era impossvel que no nos tivesse despertado. Meus amigos! Irabussu no voltou.
        - Voltou sim e aqui est!...
        Era ele.
        Os olhos de todos volveram para o lado donde partia aquela voz. Era o esqueleto vivente, era ele mesmo, o prprio Irabussu!...
        - Que aconteceu, Irabussu?, perguntou com viva curiosidade Gil, avanando para o bugre.
        - Sossega, meu branco; tudo vai bem.
        - Conta-nos o que aconteceu. - J  noite l fora e aqui dentro;  hora de contar histrias.
        - Todos se ajuntaram ao redor de Irabussu, que agachara ao p do fogo. Tinham imenso interesse em ouvir uma narrao, que por certo no era fantstica, podendo 
decidir da sorte dos paulistas, que se achavam em uma situao quase desesperada.
        Irabussu contou que ao sair da gruta correu a toda pressa, em direo ao arraial, e ps-se a rondar em volta da casa do Capito-mor, resolvido a no abandonar 
aquele posto, enquanto no enxergasse o maldito mameluco para enviar-lhe ao peito uma das agudas e ervadas setas que levava. Em qualquer parte que aparecesse, s 
ou acompanhado, no ptio, na rua,  janela o mameluco podia contar com a flecha de Irabussu; seus dias estavam contados, embora Irabussu tivesse de passar ali dias 
e noites sem comer nem dormir. 
        Era esse o seu dever, porque por culpa sua  que o infame caboclinho se havia escapado da espelunca, em que devia ficar morto e sepultado. Irabussu poucos 
emboabas encontrou, e os que o avistavam, plidos e espavoridos, persignavam-se e fugiam a bom correr. Depois de andar espionando por espao de duas horas ao longo 
das cercas e por trs do quintal do Capito-mor, divisou por fim um vultinho de homem pendurado pelo pescoo ao galho de uma alta goiabeira, saltou o cercado, avizinhou-se, 
e reconheceu... era o seu homnculo, era Tiago, que por aquela maneira havia expiado todas as infmias e atrocidades de sua curta vida.
        - Bendito seja Tup, exclamou Irabussu  vista daquele miserando espetculo. Bendito seja Tup, que no permitiu que minhas fechas se estragassem no sangue 
vil daquele malvado. todavia Irabussu no pode esquivar-se ao desejo de satisfazer sua vingana mesmo no cadver do mameluco.
        - Toma, disse ele, descochando24 uma flecha que foi cravar-se na garganta do supliciado; - toma, leva esta de presente a Anhang, junto com a corda que te 
enforcou. Os emboabas que te enterrem e vejam que levas para a cova este sinalzinho da afeio de Irabussu.
        - No admira - disse Nuno, -  esse sempre o fim de todos os Judas.
        Irabussu, depois que relatou o miserando fim que tivera o mameluco, levantou-se, dizendo: - Podem ficar sossegados, meus brancos; enquanto Irabussu for vivo, 
o emboaba no entrar nesta gruta, seno para nela achar a sepultura! E, dito isso, voltou de novo aos misteriosos recessos de sua caverna.
        Como, por quem e por que motivo fora o mameluco pendurado,  o que Irabussu no podia dizer e bem pouco lhe importava saber. No era crvel que tivesse enforcado 
a si mesmo; o miservel que h pouco escapara a uma morte inevitvel tinha bastante amor  vida e no haveria motivo algum capaz de lev-lo a tal extremo.
        Soube-se depois que os paulistas, que ficaram feridos e prisioneiros em casa do capito-mor, interrogados por Fernando, declararam que Tiago se achava na 
vspera no meio deles pronto a tomar parte na revolta; que fora ele quem os avisara de que Fernando, sabedor de seus planos e de seu esconderijo, pretendia atac-los 
no dia seguinte, o que os levara a antecipar o assalto que deram  casa do capito-mor, mas como desconfiaram muito do mameluco, por ser geralmente conhecido como 
embusteiro e traidor, no quiseram aceitar a sua cooperao.
        - E onde se acha? para onde foi ento ele? perguntou Fernando com vivacidade. Desde ontem desapareceu e at agora no tenho notcia desse garoto.
Os paulistas no quiseram contar a Fernando o que tinham feito de Tiago; apenas lhe fizeram sentir que tanto eles como Fernando e os emboabas nada mais tinham a 
recear do mameluco.
        - Mataram-no ento?
        - No senhor, mas o puseram em lugar to seguro, que nem vivo, nem morto de l poder sair, a menos que ns mesmos no vamos de l tir-lo.
        - E em que lugar foi isso? no me podero dizer?
        - Pois vossa merc no se contenta com se ver livre por nossas mos de um traidor?...
        - No; se est vivo, eu quero dar-lhe por mim mesmo o castigo que merece. No; hei de for-los a revelarem e mesmo a irem mostrar-me o lugar onde o encerraram.
        -  escusado, senhor; j o dissemos, ele de l no sair.
        Fernando comeava a enfurecer-se e a ameaar, quando de repente surde de um pulo na sala, em que se achava com os paulistas, a figura diablica do mameluco.
        Qual foi a horrvel decepo e assombro dos paulistas  impossvel exprimir; Fernando, surpreendido, olhava para eles com visos de feroz desconfiana; mas 
as palavras do mameluco vieram confirmar tudo que haviam relatado a Fernando.
        - Ah! meu amo! meu amo!... escapei de boa!... exclamou, entrando sem reparar nos paulistas, brio de alegria por ter escapado a uma morte certa e horrvel.
        - Onde tu te achavas, maldito?!...
        - Onde me achava?... ora!... na sepultura.
        - E como foste cair na sepultura?
        - Ora como? indo espiar o inimigo por ordem que me deu meu amo, tive a desgraa de cair nas unhas deles; meteram-me em um buraco, uma espcie de forno e 
taparam-me l dentro com cada pedra, que dois homens os mais forudos mal poderiam aluir do cho.
        - Mas tu mentes; tu no tinhas ordem nenhuma minha para ir espiar o inimigo; devias, sim, nos guiar esta madrugada a essa gruta, que dizias conhecer.
        Que foste l fazer? fala, maldito.
        - Ah! perdo, - respondeu o mameluco titubeando, - eu pensei que meu amo me tinha ordenado.
- No acredite nesse co tinhoso, senhor Dom Fernando;  o que lhe dissemos; este biltre nos foi avisar de que seramos atacados hoje pela manh; quis ser de nossa 
comitiva a fim de nos atraioar tambm, como j tinha feito a vossa merc. Mas ns bem o conhecemos.
        - Basta - interrompeu Fernando, - j compreendo tudo.
        Fernando, pensativo, guardou silncio por algum tempo.
        Compreendeu, de certo, que aquele diabrete era um auxiliar muito perigoso e que convinha desfazer-se dele; o embuste e a traio estavam bem patentes.
        - E como pudeste escapar dessa sepultura? perguntou a Tiago.
        - Eu mesmo no sei, meu amo; parece um milagre. Um vulto, que na sombria caverna no pude reconhecer, teve d, e arredando as pedras deu-me escapula. Logo 
que me pilhei livre, tratei de voar para casa, sem mesmo olhar para trs.
        - Dou-te meus parabns, meu bom e leal criado; surgiste da sepultura, agora s te falta subir ao cu; mas isso no h de tardar muito.
        Nem Tiago, nem os paulistas compreenderam logo o verdadeiro sentido destas sinistras palavras.
        Fernando mandou chamar dois dos seus malsins, chamou-os de parte e, depois de conversar com eles em segredo por alguns momentos, dirigiu-se a Tiago.
        - Mameluco, disse-lhe ele, deves estar bem aborrecido de ter morado no sepulcro por algumas horas; vai-te com estes senhores distrair-te um pouco pelo quintal.
        O mameluco comeou ento a entrever todo o horror de sua situao; lanou-se aos ps de Fernando - Senhor! Senhor! que pretende fazer de seu pobre escravo?! 
bradava ele.
        - Vai-te! vai-te! estou muito ocupado; depois conversaremos, respondeu Fernando, voltando-lhe as costas.
        Os malsins o agarraram e arrastaram para fora. E assim aquele miservel surgiu da sepultura para subir no ao cu, mas  forca.
        Tranqilizados, portanto, os insurgentes perseveraram na deliberao que tinham tomado.
        Mestre Bueno e Nuno ficariam na gruta enquanto Gil, com alguns companheiros escolhidos, procurariam o rumo de Sabar e Caet a reunir os paulistas, que por 
ali andavam tambm perseguidos por Nunes Viana e Caldeira Brant. 
        Entretanto Gil demorou-se ainda dois dias na gruta, no s tinha de fazer alguns preparativos para a excurso que projetava, como esperava com ansiedade 
alguma notcia de Maurcio. s vezes mesmo lhe vinha  idia, que Maurcio em razo do amor extremo que consagrava  filha do capito-mor, no ousaria afastar-se 
para muito longe e, talvez fazendo alguns rodeios por aquelas paragens que ele e Antnio conheciam perfeitamente, viesse de novo procurar o abrigo da gruta de Irabussu.
        Mas suas esperanas foram tristemente malogradas; no fim de dois dias um dos paulistas que levemente ferido, ficara prisioneiro dos emboabas, conseguiu evadir 
e trouxe  gruta a funesta notcia da morte de Maurcio, depreendida das circunstncias que o leitor j conhece.
        Nesta passagem de sua narrao Gil no pode conter a sua emoo; parou e estreitando nos braos a Maurcio:
        - Mas felizmente aqui te tenho em meus braos, meu bom, meu sincero e valente amigo, exclamou ele - e se no fosse a escurido em que se achavam, ver-se-ia 
umedecerem-se-lhe os olhos pela emoo de sua franca e herica amizade.
        Gil contou mais que a maior parte dos paulistas, depois de saberem de sua suposta morte, ficaram extremamente magoados e arrependidos de sua impacincia 
e insubordinao; tendo dado aquele assalto sem sua ordem e sem sua presena. Reconheceram que, tendo-o  sua frente, as coisas talvez no tivessem corrido to mal 
e se praguejavam a si mesmos com os autores daquele desastre e da morte de Maurcio.
        Tambm no se esqueciam do seu valente e leal camarada Antnio, que de certo fora quem sepultara seu amo e de quem no tinham notcias, e do negro Joaquim, 
que havia desaparecido no fim do combate. 
        Neste momento Gil no meio das trevas viu-se agarrado por quatro valentes braos, que o suspendiam no ar.
        - Que  isto! gritou ele algum tanto sobressaltado. Que temos de novo?
        - Nada, meu caro Gil, respondeu Maurcio, que logo reconheceu seus dois valentes e dedicados camaradas. So eles, os nossos amigos de quem acabas de falar.
        - Sim, somos ns, disse imediatamente Antnio, somos ns o ndio Antnio e o preto Joaquim, que aqui estamos, senhor Gil, sempre prontos a seguir os mesmos 
riscos com vossa merc e meu amo.
        - Meus amigos, disse Maurcio sorrindo, nem o lugar nem a ocasio so prprios para estas expanses. Vamos adiante, e tu, Gil, continua a tua narrativa.

CAPTULO VIII

        Atravs das matas, em uma escurido quase completa, Gil continuava contando a seu amigo os sucessos, que se tinham dado durante dois meses depois de sua 
separao, na desastrada noite do assalto; Antnio e Joaquim continuavam a acompanh-los de perto, sem perderem uma s palavra.
        O leitor talvez estranhe que em tais circunstncias, um pudesse contar e outros escutar com ateno uma to longa narrativa; mas o leitor deve lembrar-se 
de que estes homens eram sertanistas experimentados, que desde a infncia se tinham habituado a varar florestas densssimas e os mais escabrosos caminhos com aquele 
passo firme, e vista penetrante e o ouvido aguado, que se adquirem no decurso de uma vida passada entre contnuos perigos e trabalhos. Demais, os paulistas de Gil 
iam adiante, seguindo a mesma batida que tinham trilhado nesse mesmo dia, o que tornava mais cmoda a marcha aos que lhes seguiam as pegadas.
        Melhor seria que tivesse narrado esses sucessos depois de terem chegado ao pouso, sentados tranqilamente junto a um bom fogo, bem aceso.
        Mas, j o disse, grande era o desejo de Gil de contar, e mais viva ainda a curiosidade de Maurcio de ouvir os sucessos que tinham ocorrido depois que se 
ausentara de S. Joo d' El-Rei.
        Continuaram a caminhar e Gil a contar o que se segue:
        - No terceiro dia depois da sanguinolenta investida, Gil com dez companheiros escolhidos e bem providos de armas e munies, no s para resistir a qualquer 
agresso, como para prover a sua subsistncia, que devia consistir em caa e pesca, saram da gruta de Irabussu e puseram-se a caminho, procurando as vertentes do 
rio Paraopeba, que desgua no rio das Velhas.
        Depois de muitos trabalhos e perigos, chegaram no fim de doze dias a Sabar-ussu, arraial que era colnia de Borba Gato. A nada encontraram seno uma dzia 
de paulistas foragidos e perseguidos como eles.
        Nunes Viana, caudilho dos emboabas, gozava naquelas paragens de uma preponderncia que os paulistas em vo procuravam contrabalanar. Dotado de eminentes 
qualidades, opulento, liberal e beneficente, seu poder era respeitado e seu nome querido de todos os seus patrcios. Era ele secundado por um outro portugus que 
se estabelecera nas regies diamantinas do Serro Frio e arraial do Tejuco, hoje cidade de Diamantina; chamava-se Felisberto Caldeira Brant.
        Este, porm, no possua as qualidades de Nunes Viana; era de carter duro e altaneiro, e posto que se conformasse por necessidade com a vontade de Viana, 
que lhe era muito superior em opulncia e prestgio, no deixava de reprovar no fundo d' alma a prudncia, moderao e esprito conciliador de seu conterrneo.
        Nunes Viana, embora dispensasse mais confiana e proteo a seus patrcios, no perseguia aos paulistas, pelo contrrio procurava todos os meios de alici-los 
ao seu partido, que era, ao em vez do que geralmente se cr, o da resistncia s ordens das autoridades da metrpole, principalmente ao vexatrio imposto do quinto 
sobre o ouro. Os paulistas, porm, que pelo contrrio faziam timbre de sua lealdade ao trono e submisso s ordens d' El-Rei, respeitando sempre o nobre carter 
e prestgio do caudilho portugus, no obedeciam, nem cediam s sugestes e mantinham-se sempre fiis executores das ordens emanadas das autoridades constitudas 
pelos governos da metrpole.
        Pelo tempo que se deram os acontecimentos que fazem o assunto desta histria, Nunes Viana andava ausente, em exploraes que dirigia pessoalmente pelas margens 
do S. Francisco, no s em busca de riquezas minerais, como procurando estabelecer por esse lado uma comunicao mais fcil com a capital de S. Salvador da Bahia.
        Caldeira Brant, que ficara fazendo suas vezes na direo das colnias que tinham fundado, desde Sabar-assu at o arraial do Tijuco, rompeu logo em hostilidade 
aberta e desabrida contra os paulistas.
        O Tenente general Borba Gato, paulista que, dez anos antes,  testa de uma bandeira, tinha feito as primeiras descobertas naquelas regies e que com o justo 
ttulo de primeiro descobridor daquelas minas e fiel executor das ordens de El-Rei, devia ter ali a supremacia, viu-se forado, em conseqncia das vexaes que 
sofriam e das violncias de que eram ameaados, ele e seus patrcios, a retirar-se com grande nmero dos seus para sua terra natal.
        Um frade, segundo rezam as crnicas daquele tempo, foi quem sugeriu a Caldeira Brant um meio prfido de vexar e perseguir os paulistas tirando-lhes os recursos 
para qualquer resistncia. Por conselho desse frade, cujo nome os cronistas no declinam, fingiram-se ordens rgias para serem recolhidas todas as armas dos particulares 
em um depsito, a pretexto de segurana pblica. Estas ordens foram executadas, mas foram apreendidas somente as armas dos paulistas, que na  boa f no se recusaram 
a entreg-las, e ningum procurou as dos emboabas.
        Recolhidas as armas, foram logo presos dois dos mais ricos e notveis paulistas, e espalhou-se imediatamente o boato de que por ordem passada aos cabos dos 
distritos seriam todos eles massacrados.
        Esta terrvel ameaa, pilhando os paulistas assim desarmados  falsa f, os encheu de pavor e consternao, e, como no tinham outro recurso seno a fuga, 
foram-se retirando em bandos para o sul donde tinham vindo,  procura da sua terra natal.
        Informado Amador Bueno destes sucessos pelos primeiros fugitivos que chegavam a S. Paulo de Piratininga, mandou pedir a Caldeira Brant satisfao dos vexames 
e perfdias de que eram vtimas seus conterrneos e intimou-lhe que pusesse cobro a to caprichosa e injusta perseguio.
        Caldeira Brant, porm, de carter violento e obstinado como era, respondeu a este recado com ameaas e dirigiu a Bueno uma carta de desafio, emprazando-o 
para vir desafrontar seus patrcios com as armas na mo e que ele, Caldeira, ficaria  espera de Amador no arraial de S. Joo d' El-Rei, dentro do prazo de seis 
meses.
        Quando Gil chegou com sua pequena comitiva ao arraial de Sabar-assu, j estes acontecimentos se tinham desenrolado, sem que em S. Joo d' El-Rei se tivesse 
notcia deles. Gil ainda encontrou alguns paulistas fugitivos, que se incorporaram ao seu grupo, formando todos um troo de quarenta e tantos a cinqenta homens. 
Estes, porm, vinham desarmados e desprovidos de tudo, e, como em S. Joo, na caverna de Irabussu, Gil possua no s ouro como tambm armamento e munies, graas 
aos cuidados e previdncia de mestre Bueno, resolveu, na impossibilidade de avanar mais por um territrio, onde seus patrcios, em vez de auxlio, s lhes traziam 
embaraos e perseguies, voltar com eles sobre seus passos, induzindo-os a formar um ncleo na caverna do velho bugre, onde encontrariam no s segurana e refgio, 
como tambm armamento e meios de subsistncia. A se conservariam at que Amador, que se sabia ter aceitado o desafio de Caldeira, se apresentasse com a gente que 
estava ajuntando e preparando em S. Paulo.
        Em caminho chegou-lhes a notcia de que Amador Bueno j se achava em marcha,  testa de duzentos homens, que j haviam passado o Rio Verde e o Sapuca e 
que em breves dias se achariam nas imediaes de S. Joo d' El-Rei. Ao saber, Gil entusiasmado disse:
        - A fortuna corre a nosso favor!
        Vamos!... Faa-se da caverna de Irabussu nosso quartel general.
        A chegaram depois de fadigas e privaes. Foi preciso, como era prudente, enviar uma esculca25 ou espia; depois de parafusar por algum tempo e consultar 
com os camaradas, lembrou-se de chamar o prprio Irabussu. Chamou-o por trs vezes como quem faz uma evocao de espritos, voltando-se para o interior da gruta.
        - Irabussu! Irabussu!... Apareceu o esqueleto vivente que o leitor bem conhece. Gil, apesar de conhec-lo, teve um calafrio e tremeu da cabea aos ps, quando 
o bugre lhe pousou a mirrada mo no ombro.
        - Que  que o branco pretende de Irabussu?
        - Irabussu - respondeu Gil - teu amigo Gil espera de ti um grande servio.
        - Qual  ele? fala, branco.
        - H muito no se sabe o que se passa l pelo arraial; precisamos de uma pessoa, que v sutilmente e sem ser percebido, espiar e sondar o que por l tem 
acontecido; e ningum melhor do que tu poder bem desempenhar esta tarefa.
O bugre abanou a cabea e respondeu com voz pesada e amara:
        - Irabussu bem quisera nunca mais ir ao arraial dos emboabas seno para deixar cravadas no corao desses filhos de Anhang quantas flechas pudesse carregar 
ao ombro; mas  Gil que manda, e Gil bem sabe que Irabussu tem vista aguda e ouvido afiado. Irabussu vai e h de saber tudo para contar a Gil; s pede dois dias 
e duas noites.
        Sem mais dizer palavra, o velho ndio encaminhou-se para a boca da gruta e desapareceu.
        Dois dias e duas noites Irabussu andou rondando pelas cercanias do arraial.
        De dia, subindo as eminncias circunvizinhas observava tudo com seu olhar de jaguatirica, mais penetrante que o do lince. De noite, penetrava na povoao 
e, acercando-se das casas, ouvia os menores rumores e escutava todas as conversaes. Alguns emboabas o viram, mas fugiram espavoridos benzendo-se e exclamando:
        - L vem o almanjarra, o bugre feiticeiro!
        Tal era o pnico, de que se achavam possudos os que avistavam aquele vulto, para todos odioso e sinistro, que graas a esse pavor que inspirava no arraial, 
onde passava por um fantasma, um duende, uma alma do outro mundo e no por uma criatura viva, pode, sem correr grande risco, ver e ouvir muita coisa. No fim de dois 
dias e duas noites, Gil e mestre Bueno, postados  boca da caverna, esperavam com ansiedade a volta de Irabussu. Este no tardou a aparecer com tal pontualidade 
que a ambos espantou.
        Gil, que possua um relgio, consultou-o. Com efeito Irabussu tinha gasto justamente quarenta e oito horas, com pouca discrepncia de minutos, em desempenhar 
a rdua tarefa de que se havia encarregado.
         que os selvagens, principalmente os velhos pajs como Irabussu, carregados de anos e de experincia, ora pela observao dos astros quando esto visveis, 
ora pelo canto das aves, ora pela mudana das viraes, ora por outros mil fenmenos da natureza, que nos escapam, e com que eles vivem em ntimo, imediato e contnuo 
contato, sabem calcular o tempo quase com a mesma exatido com que o calcula o homem civilizado que traz o seu cronmetro na algibeira.
        Os trs entraram para o interior da caverna. O sol j era posto, mas reinavam fora dela todos os esplendores de uma formosa tarde de novembro; mas dentro 
j era noite escurssima, e ningum a poderia andar seno s apalpadelas, se no fora o claro de um grande fogo, em torno do qual se aqueciam e conversavam alguns 
insurgentes.
        Irabussu se chegou ao fogo: apenas o avistaram, todos os que ali se achavam se levantaram rapidamente, tomados de respeito e temor. O paj atirou ao cho 
arco e flechas e sentou-se tranqilamente sobre uma pedra junto ao fogo de pernas cruzadas, o queixo sobre a mo e o cotovelo sobre o joelho.
        Gil e mestre Bueno se assentaram ao lado dele, esperando impacientes que o bugre abrisse a boca e lhes desse as notcias por que tanto ansiavam.
        Mas Irabussu permaneceu por alguns minutos na mesma posio, mudo e imvel como uma esfinge; Gil no se pode conter por mais tempo:
        - Ests to calado, meu velho! - disse-lhe ele batendo brandamente com a mo no ombro do bugre.
         m notcia que nos trazes?
        Irabussu desmanchou rapidamente a singular atitude em que se achava, como quem desmancha com um piparote um castelo de cartas, e voltando-se para Gil:
        - Branco, - disse em tom sereno, - conta essas flechas que ali esto.
        Gil apanhou as flechas e contou-as:
        - Doze - O mesmo nmero que levaste.
        - Pois bem;  o nmero de guerreiros que eles tm!
        - Como! eles tm s doze combatentes!?
        Irabussu abanou a cabea como quem dizia no me entendem - e respondeu:
        - Branco, conta cem vezes doze.
        - Mil e duzentos! - exclamou Gil. Eles tm mil e duzentos combatentes! e tu no empregaste nenhuma de tuas flechas?...
        - Nenhuma, - porque no era preciso!
        - E por que no era preciso?
        - Porque ainda aqui est Irabussu, aqui est Gil, aqui est mestre Bueno e Nuno - Mas l!... Mas l ainda est Calixto... e l... l no... mas bem perto 
de l ainda esto...
        - Quem, perguntaram todos com sofreguido?
        - Antnio e Maurcio, respondeu Irabussu.
        - No fezes idia, meu caro Maurcio, como o teu nome e o de Antnio pronunciados por Irabussu nos animou a todos!... Eu, mestre Bueno, Nuno e todos os paulistas, 
bugres e negros, que nos achvamos ali, demos um salto de alegria! A caverna retumbou, no como naquelas horrendas noites em que estiveste em tanto perigo, mas como 
se fosse noite de noivado...
        - E como se soube, - perguntou Maurcio - que eu no tinha morrido?
        - Eu te conto... Irabussu ouviu dois emboabas falando de um paulista que encontraram em Ouro Preto, em casa do Padre Faria, e que, pelos sinais que deram, 
parecia ser Maurcio. Fernando e Diogo Mendes desconfiaram do caso. Mandaram examinar a sepultura. Logo viram que a terra fora intencionalmente revolvida na superfcie 
e que o chapu e a faca de Maurcio tinham ali sido colocadas com o propsito de iludir os emboabas e desviar a continuao de possveis pesquisas.
        Neste momento j se avizinhavam da confluncia do Rio das Mortes com o ribeiro de Elvas, bem perto da gruta.

CAPTULO IX

        - Como h de ser isto? perguntou Maurcio - Devemos descer a procurar a ponte?
        - No, respondeu Gil; isso seria uma grande volta, e no poderamos chegar  gruta seno depois do dia claro, o que de modo nenhum nos convm.
        De mais,  preciso que saibas, Maurcio; Irabussu ficou tambm sabendo que a ponte  guarnecida de dia por dez ou doze homens, sendo essa guarnio dobrada 
 noite.
        -  bem pouca gente para ns; mas um s que nos escape e v levar aviso ao Capito-mor de nossa aproximao ser bastante para a nossa perdio.
        - Isso  claro; mas que faremos para atravessar o rio? Bem vs que leva muita gua e seria loucura fazer toda essa gente pass-lo a nado com armas e bagagens. 
        - No te d isso cuidado, Maurcio! Tudo est prevenido. Assim como eu passei ontem, todos ns passaremos hoje, sem o menor perigo. Andemos mais umas centenas 
de passos pelo rio abaixo e vers com teus olhos.
        Durante esta conversao, os dois interlocutores, bem como Antnio e Zambi, que sempre os acompanhavam de perto, tinham parado  espera do grupo dos Aimors, 
que vinham ainda em distncia, a fim de que no se desorientassem e lhes perdessem a pista.
        Ao fim de alguns instantes, toda a horda se achava reunida em uma longa e compacta fila, que imediatamente se ps em movimento, perlongando a margem do rio.
        Quem, na margem oposta, divisasse na sombra, movendo-se lenta e silenciosamente, aquela delgada e extensa coluna, com suas flechas, arcos, partasanas26 e 
as zagaias, cuidaria ver monstruosa serpente, de dorso crespo e eriado, a deslizar em sinuosos giros ao longo da ribeira.
        Percorrido cerca de um quilmetro, sempre  margem do rio, Gil parou e toda coluna fez alto. Estavam quase em frente da altura em que, da outra banda do 
rio, se achava a clebre gruta de Irabussu.
        Gil levou  boca os dedos ndex e mdio de ambas as mos e soltou um assovio agudo e estridente, que repercutiu ao longe, por ambas as margens.
        Passados alguns minutos, ressoou, em distncia, na outra margem do rio, um assovio idntico. Poucos momentos depois, Gil lobrigou na margem oposta, onde 
tinha os olhos atentamente fitos, o ramalhar da mata, e um grupo de homens que surgiam na praia.
        - Quem ?, bradaram de l.
        - Sou eu, Gil ! Tragam as canoas.
        A escurido da noite, aumentada pela sombra da floresta que orlava a margem, no permitia distinguir quantos eram os homens, nem o que faziam. Em breves 
momentos, porm, Maurcio viu com ntima satisfao duas leves canoas que, tangidas por braos vigorosos, vinham rapidamente atravessando a corrente. Essas canoas, 
leves e velozes, eram todavia pequenas, e mal podiam conter, cada uma, cinco pessoas, contando-se com o remador. Portanto, no podendo elas transportar mais de quatro 
homens, de cada vez, e constando a horda de perto de cem guerreiros, era preciso de quatro a cinco horas para se efetuar a passagem de toda a gente.
        Era pouco mais de meia-noite: restava, pois, at o romper do dia, o tempo justamente necessrio para a travessia da tropilha, podendo, se demorassem, ser 
surpreendidos e observados naquele trabalho por algum que por acaso ali andasse, o que nada tinha de impossvel.
        Imediatamente comeou a faina, que continuou sem interrupo at romper o dia. os que manejavam os remos eram robustos caboclos, resto da horda do valente 
e infeliz chefe Tabajuna, acostumados a cortar, nadando ou remando, as guas dos caudalosos rios do sul de Minas.
        Ao sinal de Gil, tinham acudido em nmero de oito, que se iam revezando, porque dois a ss no poderiam resistir a tanta fadiga.
        Dir-se-ia que tinham adivinhado a laboriosa faina em que se iam empenhar.
        Enquanto se efetuava a travessia, Gil e Maurcio puseram-se de lado e foram-se reclinar a um canto sobre o cho mido e coberto de folhio e areia, encharcados 
das guas pluviais. Por cima lhes choviam continuamente grossas gotas de orvalho, que o vento sacudia dos ramos da floresta e viam o cu azul e as estrelas a lhes 
sorrirem, por entre os ramos do arvoredo, enquanto o rio lhes rugia aos ps. Era um leito macio, em verdade, e at potico, mas,  preciso confessar, as condies 
higinicas e comodidades eram pssimas. Foi esse, porm, o melhor lugar que puderam encontrar, lugar este que no causou estranheza aos nossos dois jovens e valentes 
sertanejos, porquanto no era a primeira vez que isto lhes acontecia.
        Antnio e Zambi no os abandonaram; encostaram-se tambm,  pouca distncia, do melhor jeito que lhes foi possvel.
        Entretanto, embrulhados no capote e com o chapu de feltro cobrindo a cara e a cabea, continuaram a conversar.
        - Estou aflito por saber de que modo arranjaste estas canoas, - disse Maurcio.
        -  mais uma proeza de mestre Bueno e Irabussu, esses dois bons amigos velhos, esses dois velhos troncos que j no cerne, tm-nos servido de valentes escoras 
em todos os nossos trabalhos e perigos!
        - E ns, eu e Zambi, no temos servido de alguma coisa? falou Antnio l de seu canto.
        - Cala-te, Antnio! acudiu Maurcio. No estejas a a morder de cimes! Gil no falou de ti nem de Zambi porque no falou de si nem de Maurcio. Somos todos 
moos, cheios de resoluo e coragem, porm mal de ns se no fossem a prudncia e os conselhos, a astcia e previdncia dos dois velhos!
        Antnio, satisfeito com esta explicao, no deixou de ficar um pouco corrido por ter interrompido a conversao de Gil e de Maurcio.
        - Perdo, meu amo! disse ele. Daqui em diante hei de ficar mudo que nem um peixe!...
        Gil, continuando a explicar a proeza de Irabussu e mestre Bueno, exprimiu-se assim:
        - Quem me contou foi Nuno, a quem, durante a minha ausncia, deixei o comando de nossa pouca gente, refugiada na caverna.
        - Mestre Bueno teve uma feliz lembrana; teve... Como sabes, ele tinha a sua tenda de ferreiro muito bem montada, l na serra do Lenheiro. Era sua glria, 
seu elemento, seu prazer - e sua pobre e tosca oficina. Um dia disse ele a Nuno:
        - Senhor Nuno, eu preciso ter aqui a minha tenda.
        - Para que, mestre Bueno?
        - Ora para qu? Para fazer canoa!
        - Pois canoa se faz de ferro? perguntou Nuno.
        - Mas para trabalhar no pau pode-se dispensar o ferro?
        -  verdade, tens razo! respondeu Nuno. Mas que pretendes fazer?
        - Trazer para aqui a minha tenda!
        - E como h de ser isto?
        - Deixe por minha conta. O ponto  que minha tenda l se ache como eu deixei. Queira Deus que os malditos emboabas j no ma tenham roubado! Tudo serve a 
esses ces tinhosos, at mesmo uns pedaos de ferro velho! Tenho a chave aqui na algibeira do gibo, hoje mesmo vou l ver. Vou entender-me com Irabussu, a ver se 
ele pode ajudar-me nesta empreitada.
        Mestre Bueno ponderou a Nuno a imensa vantagem que disso provinha, a necessidade mesmo que tinham de algumas canoas, com as quais pudessem, a qualquer momento, 
atravessar o rio. Nuno deixou mestre Bueno fazer o que entendesse.
        De feito, na noite desse mesmo dia mestre Bueno partiu com Irabussu para o arraial de S. Joo d' El-Rei, dando longas voltas e rodeios por lugares nunca 
transitados e quase intransitveis, e, costeando a Serra do Lenheiro, chegaram enfim  casinha e tenda do velho ferreiro.
        Deviam ser bem vivas e pungentes as emoes que sentiu o bom velho quando abriu a porta e transps o limiar daquele casebre, onde passara dias to felizes 
e tranqilos, em companhia de sua querida Helena e de seu bom discpulo Calixto, dos quais vivia agora to cruelmente separado, para viver, como um criminoso, no 
fundo de uma escura e mida caverna, exposto  toda sorte de perigos.
        - Ai! Helena! ai! Calixto - suspirou o pobre velho, enxugando com as costas das mos duas grossas lgrimas que rolavam pelas faces rugosas e tisnadas. 
        Estas tristes recordaes, porm, tiveram logo uma compensao que muito alegrou o corao do velho ferreiro. Tirou fogo no fuzil, acendeu um pavio de cera 
preta, de que se havia prevenido, e, percorrendo a casa, viu com ntima satisfao que sua tenda, forja, bigorna, foles e todos os utenslios e ferramentas se achavam 
intactos. Voltou-se risonho para o velho bugre, e, batendo-lhe no ombro, disse:
        - Meu velho, toma coragem, que,  f de paulista te juro, em poucos dias iremos arrancar nossas filhas das unhas daqueles perros malditos, e tomar desforra 
grossa de tudo que at aqui temos sofrido.
        Haja ferro, que fogo no nos faltar para darmos cabo daquela porrada. Vamo-nos embora, depressa para a caverna!
        O ndio ficou olhando perplexo, ora para mestre Bueno, ora para os utenslios da tenda, como quem perguntava:
        - Ento no se leva nada?
        Bueno compreendeu a hesitao do bugre:
        - Ns dois somos muito poucos e muito fracos para carregar tudo que precisamos! Vamo-nos embora. Amanh voltaremos com mais gente para carregar tudo isto. 
Anda, meu velho!
        Voltaram ambos pela mesma trilha, pela qual tinham vindo, e que, sempre previdente, Bueno tivera o cuidado de vir assinalando com ramos cortados por ele 
com uma pequena foice que trazia. No dia seguinte, logo ao anoitecer, o ferreiro, acompanhado de dez companheiros, escolhidos dentre os mais robustos e bem dispostos, 
ps-se a caminho para a tenda.
        Irabussu tambm ia com eles: sua companhia era indispensvel porque, se por acaso tivessem algum encontro com os emboabas, bastava o velho bugre aparecer-lhes 
pela frente, para p-los em fuga precipitada, porque Irabussu, a quem os emboabas deram o nome de - ndio almanjarra - foi e ser sempre, enquanto viver, o espantalho 
daquela corja de covardes. Felizmente l chegaram sem estorvo, nem contratempo de espcie alguma.
        Imediatamente Bueno tratou de desmanchar a forja, com toda a presteza, e arrancar a bigorna. Pouco depois foi distribuda a carga com igualdade a cada um 
dos companheiros, inclusive algumas barras de ferro que lhes eram indispensveis para o fabrico de ferramentas. Ele mesmo botou ao ombro um malho e deu a Irabussu 
alguns trens mais leves e midos.
        Assim carregada, voltou a caravana pelo mesmo trilho e, depois de algumas horas de marcha penvel e fragueira, chegaram felizmente  gruta antes do romper 
do dia, acabrunhados de fadiga, mas sem incidente algum desfavorvel.
        Nuno objetou a Bueno que a tenda de ferreiro, assentada na caverna, podia ser fatal, pois o barulho dos martelos, reboando ao longe, podia chegar aos ouvidos 
de algum emboaba que andasse pelas imediaes, atraindo a ateno para a furna.
        - No tenha cuidado, - acudiu mestre Bueno. Eu no cairei na asneira de fincar minha bigorna na boca da caverna, no senhor! Hei de procurar alguma furna, 
l bem no fundo, para assentar a forja, e hoje mesmo darei comeo ao trabalho. Se vossa merc, a cem passos de distncia daqui, ouvir o barulho do martelo, corte-me 
fora esta cabea.
        Nesse mesmo dia Bueno acendeu fogo na forja e comeou o trabalho sem o inconveniente que Nuno receava, principiando por forjar dois grandes machados, a cujos 
golpes no dia seguinte tombaram dois corpulentos troncos, destinados a se converterem em canoas. Bueno forjou tambm com incrvel prontido as enxs, os formes, 
e mais ferramentas indispensveis para aquele mister, e, em menos de oito dias, as canoas estavam prontas e lanadas ao rio.
        - Oh! que velho incomparvel! disse Maurcio a Gil. Ele, meu amigo, tem sido para ns uma verdadeira providncia!
        - Ainda no  tudo, Maurcio: Bueno alm de ser excelente ferreiro,  tambm um pouco carpinteiro e pedreiro...  enfim o que se costuma dizer: - um pau 
para toda a obra. Alm da sua tenda e bagagem de ferreiro, trouxe-nos de sua casa uma coisa preciosssima, que nas nossas circunstncias vale mais do que prata ou 
ouro:  uma saca de salitre com uma poro de enxofre, com o qual est fabricando plvora, que na ocasio nos  to necessria. A necessidade destas canoas, Maurcio, 
tu agora ests vendo, disse Gil, ao finalizar a narrativa sobre as qualidades de mestre Bueno.
        - Se no fossem elas, com que dificuldades no estaramos ns lutando para ganhar a gruta e irmos reunir a nossa gente!?
        - Mais ainda, meu caro Gil, - ponderou Maurcio, - se no fossem estas canoas, terias de certo tomado outro caminho em minha procura, e, em vez de termos 
tido a fortuna de encontrarmo-nos to perto, irias talvez parar em Ouro Preto, deixando-me aqui a pouco mais de duas lguas da gruta. Bem deves calcular os desastrosos 
resultados que poderiam proceder de tal desencontro. Ainda desta vez, como em tantas outras, o velho Bueno mostrou-se um verdadeiro profeta.
        Enfim, ainda bem que a fortuna, j cansada de nos perseguir, parece que principia a bafejar-nos! 
        - No  a fortuna, Maurcio -  a justia divina, que tardou, mas que, finalmente, comea a manifestar-se pela causa dos oprimidos!
        Mas seja como for, Nuno, compenetrado da incontestvel vantagem da proposta de mestre Bueno, no quis se opor a sua audaciosa e arriscada empresa.
        - Oh! - exclamou Maurcio outra vez. Torno a repetir: Bueno  sem dvida, para ns, um enviado da Providncia Divina.
        -  mesmo, Maurcio! O meu Irabussu tambm no lhe fica atrs. Agora escuta as notcias que este nos trouxe, a respeito do estado em que se acham os emboabas 
no arraial de S. Joo d' El-Rei... So segundo ele assevera, em nmero de mais de seiscentos homens!
        - Mas, como to depressa foi-lhes possvel arranjar tanta gente?
        - Como?... Caldeira Brant, o chefe dos emboabas, que desafiou Amador Bueno e que h poucos dias chegou da Diamantina a S. Joo d' El-Rei, trazendo um reforo 
de gente bem armada e municiada. Bem sabes que  ele o lugar-tenente de Nunes Viana, o mais rico e poderoso emboaba que pisa nestas minas! Temos de lutar contra 
uma onda muito mais forte do que a que por si s nos opunha o capito Diogo Mendes!
        - No importa, Gil! A nossa onda tambm vai-se reforando: se no  to volumosa  talvez mais violenta!
        - Bem o sei! No penses que me desalente o nmero de nossos adversrios, no! Julgo, porm, necessrio que sejam dobrados os esforos e, sobretudo, que deixe 
de existir essa impacincia, indisciplina e esprito revoltoso de nossa gente.
        - J devem estar escarmentados pelo revs que sofremos, Gil;  de esperar que se comportaro melhor daqui em diante.
        - Eu tambm assim espero que acontea, Maurcio. Escuta ainda o que me resta a contar-te. Irabussu, durante os dois dias e duas noites que por l andou, 
observou e esquadrinhou tudo. A parte sul do arraial, a nica por onde podemos atacar, est sendo rodeada de muitas obras de defesa: trincheiras, valas, estacadas, 
faxinas, isto desde a serra do Lenheiro at a mata que fica  beira do rio. A gente de Caldeira Brant no se ocupa em outra coisa. A esta hora deve estar tudo pronto.
        - Talvez... Porm isso pouco importa: amanh veremos! murmurou, bocejando, Maurcio, que estava a morrer de sono.
        Dito isto, adormeceu sobre o mido leito, suspirando o nome de Leonor.

CAPTULO X

        Ainda o dia no comeava a alvorecer e j a horda tinha sido toda transportada para a outra banda do rio. Faltavam s Maurcio e Gil, Antnio e Zambi, que, 
extenuados de fadiga, e, por no estarem a trabalhar depois da conversa que escutamos, se tinham deixado vencer pelo sono.
        Passados todos a outra margem, andaram cerca de meio quilmetro bordejando o rio acima e chegaram, finalmente,  frente da gruta de Irabussu, a qual, como 
sabemos, fica a pouca distncia da beira do rio. Mas o rio no tempo das enchentes em que nos achamos, transvaza para esse lado, sendo separado dela por um vargedo 
plano, ao nvel do barranco, e que fica coberto d' gua at a entrada da gruta. Esse terreno alagadio demorou a marcha da horda, que tinha de andar s vezes com 
gua pelos joelhos.
        A gua penetrava mesmo no interior da gruta e alagava todo o cho; mas os refugiados, que durante a anterior estao chuvosa j haviam experimentado os rigores 
desse grave inconveniente, sendo obrigados a acender o fogo em cima dos blocos de estalagmites e a construir jiraus para no dormirem no charco como os sapos, tinham 
construdo uma espcie de dique, que vedava a entrada das guas de aluvio.
        Graas a esse expediente, a caverna - agora que de novo vamos entrar nela - se achava perfeitamente seca, e at quente, porque, no s por necessidade de 
luz como de calor, ali alimentavam contentemente um grande fogo, principalmente durante a noite. Isto tudo  devido ainda aos previdentes cuidados de mestre Bueno, 
que no podia passar sem fogo e que fez recolher bastante proviso de lenha e carvo.
         impossvel descrever as mltiplas e variadas emoes que assaltavam o esprito de Maurcio, quando deu a primeira passada para transpor o limiar daquele 
misterioso abrigo, onde h perto de trs meses no tinha posto o p e onde ele e os amigos haviam passado por transes to arriscados e to dolorosos.
        Parecia-lhe que ia entrar sob as abbadas de um templo sacrossanto. Tirou o chapu e encostou-se  pilastra de estalactite, na entrada curvou a cabea, e 
assim permaneceu pensativo por alguns minutos. Ningum sabe o que pensava aquela alma nobre e generosa, nem o que sentia aquele corao nobre e generoso, nem o que 
sentia aquele corao to repleto de saudades, de angstias e das mais cruis inquietaes.
        Sem dvida se lembrava de Leonor e enviava ao cu, do fundo d' alma, uma splica ardente a Deus, para que o protegesse a ele e a seus companheiros de infortnio, 
nos transes em que se achavam, pugnando por uma coisa justa e santa. Assim ficou, enquanto a turba dos companheiros entrava de tropel pela gruta adentro. 
        O dia j vinha quase de sobressalto inundando de luz aquelas magnficas paragens, porque os crepsculos nas regies tropicais so breves, e o dia quase que 
surpreende, porquanto a transio das trevas da noite para a claridade do dia  rpida e quase brusca, mormente quando h algum luar pela madrugada. 
        Os Aimors de Antnio, tangidos por este, tiveram de entrar a toda pressa e aos trambolhes pela gruta cuja entrada em certo ponto no chegava a dois metros 
de largura. Era necessrio evitar chana de poderem ser vistos por emboabas que porventura andassem pelas alturas da margem oposta, donde a gruta podia ser devassada. 
Assim tinham tomado prudentes precaues por conselho de mestre Bueno e Irabussu, os dois velhos orculos daquela turba de foragidos.
        Quando todos se acharam da parte de dentro, Gil, que permanecera sempre ao p de Maurcio, o despertou de seus pensamentos - e ambos entraram por ltimo.
        Assim como os dois velhos eram os orculos, estes dois generosos, inteligentes e denodados moos eram os dois braos daquela audaciosa e pertinaz revolta, 
h tanto tempo sustentada pelos paulistas contra o poderio dos emboabas.
        Os recm-chegados ficaram atnitos e maravilhados quando penetraram no primeiro e vasto salo da gruta.
        Os restos de um grande fogo ardiam no centro, dando  vasta abobado e aos muros de estalactites um aspecto fantstico e deslumbrante. Os Aimors principalmente, 
a quem era inteiramente estranho aquele grandioso espetculo, estacaram diante dele como que tomados de um religioso terror e, atropelando-se e unindo-se uns aos 
outros, caram com a face na terra, exclamando:
        - Tup! Tup!
        Imaginaram estar no tempo de Deus, que estavam acostumados a adorar no seio das selvas que acompanham os ribeires portadores de enorme cabedal ao caudaloso 
Rio Doce.
        Antnio, que os comandava, quis aproveitar-se da impresso causada no esprito de seus irmos do mato, como ele os chamava. O jovem Aimor era sagaz e ardiloso, 
e a companhia dos homens civilizados em que tinha vivido, a experincia dos trabalhos e perigos que tinha partilhado com seu amo e Gil, tinham-lhe desenvolvido a 
um alto grau a inteligncia e tino, de que era naturalmente dotado.
        Com algum custo conseguiu alinh-los em fileira em volta do vasto salo, em uma curva que quase se achava em circuito.
        - Esperem a sem mexer que eu volto neste instante! - disse ele com um gesto expressivo. E desapareceu por entre as anfracruosidades da caverna. 
        - Que ir Antnio fazer? perguntou Maurcio a Gil, que com ele se achava sentado a um canto sobre um bloco de estalagmite, observando com o maior interesse 
a cena que se passava.
        - No sei! respondeu Gil. Mas estou certo de que no ir fazer nenhuma loucura: esperemos.
        Passaram-se alguns minutos de ansiosa e geral expectao, tanto da parte dos recm-chegados como da dos antigos freqentadores da gruta. Chegou, enfim, Antnio 
trazendo pela mo Irabussu. Foi como uma apario sobrenatural.
         vista daquele vulto alto, esguio e hirto, empunhando um arco e um feixe de flechas, ainda de novo os Aimors se prostraram, mais alto exclamando:
        - Tup! Tup!
        - Guerreiros! exclamou ento Antnio: no  Tup, no; mas  Irabussu, o paj dos Carijs, que tambm so nossos irmos!
        Irabussu, com voz cavernosa e vibrante, falou assim:
        - Guerreiros de Tup! o que este columim falou  a pura verdade! Este  Irabussu, cacique e paj, que j foi dos valentes carijs, terror e flagelo dos covardes 
e hediondos botucudos e tupinambs! Irabussu tomou por mulher uma filha dos piracis, formosa como o sol e casta como a lua! Desta teve uma filha que se chama Indaba. 
Indaba est em poder dos brancos emboabas. Os emboabas so amigos dos botucudos e tupinambs, que sempre tm feito guerra aos Aimors e aos Carijs, que amigos 
so dos paulistas. O guerreiro Aimor obedea ao cacique que aqui est e com ele marche a cravar suas flechas no peito do emboaba, e de todo aquele que convive com 
o emboaba!
        Guerra! guerra de morte ao emboaba!
        Os ecos da caverna vibraram com a imensa e medonha vozeria dos Aimors eletrizados pela fala de Irabussu, e repercutiram por todas as anfractuosidades da 
gruta.
        Mas Antnio, erguendo bem alto uma das mos espalmada, e levantando o ndex da outra, imps silncio.
        Esses brados poderiam ecoar ao longe, fora da caverna, e era suprema convenincia que os emboabas no suspeitassem nem de leve aquela aglomerao de insurgentes 
na gruta de Irabussu. 
        Acalmaram-se os indgenas e todos aqueles que tinham vindo no troo de Maurcio, no tanto em razo da fala de Irabussu e do ascendente de Antnio, como 
tambm e principalmente porque vinham extenuados de fome e de cansao.
        Gil, que bem sabia disso, mandou imediatamente distribuir com larga mo as provises de que a gruta se achava fortemente abastecida.
        De feito, alm da caa e pesca, que o rio e as matas vizinhas forneciam, os refugiados tinham abundantes provises de vveres de diversas qualidades: mesmo 
o toucinho, o sal, a pimenta, o vinagre e outros condimentos no lhes faltavam, alm de alguns pipotes de aguardente e de vinho, queijos, azeitonas, passas, etc. 
De maneira que naquela caverna de bandidos, podia-se oferecer um jantar quase to delicado e profuso como na mesa do capito-mor Diogo Mendes, com a diferena da 
baixela, que na gruta consistia em cuias e colheres de casca de palmito; por toalha, umas esteiras estendidas sobre mesas redondas de estalagmites, esparsas aqui 
e ali como no salo de um luxuoso hotel.
        Regalados pois os companheiros de Maurcio com a suculenta refeio que Gil lhes mandou distribuir, foram se deixando vergar ao peso do sono, e, recostando-se 
do melhor modo que puderam, no mesmo lugar em que comeram, oprimidos de cansao adormeceram profundamente.
        Da a pouco, aqueles cem peitos robustos comearam a arquejar livremente, nas delcias do sono, produzindo um som mais forte do que os foles de mestre Bueno. 
        Maurcio, Gil, Antnio e Joaquim, que durante a travessia do rio tinham passado por algumas horas de sono, conservaram-se acordados, assim como Bueno, Nuno 
e outros companheiros, que no tinham sado da gruta na noite anterior.
        Como  natural em semelhantes conjunturas, em vez de se entreterem em conversaes banais, comearam a deliberar sobre o que deviam fazer.
        O leitor ficar talvez surpreendido por achar tanta fartura na pobre gruta. Vou explicar em poucas palavras como isso se conseguiu.
        De tempos em tempos, quase todos os meses vinham de S. Paulo de Piratininga tropas ou caravanas carregadas de vveres e fazendas de toda a qualidade para 
abastecer o arraial de S. Joo d' El-Rei.
        Eram comboios, compostos em parte de alguns burros carregados, e em parte de galegos que tambm carregavam s costas fardos bem pesados e volumosos, como 
barris de vinho, sacas de farinha de trigo e outras coisas. 
        Estes comboios andavam mui lentamente, e levavam mais de dois meses a transportar-se da capital de S. Vicente ao arraial de S. Joo d' El-Rei, sendo acompanhados 
por uma escolta de dez a quinze homens armados.
        Todos os meses chegavam a S. Joo d' El-Rei dessas caravanas atopetadas de gneros, ora para o capito-mor, para o consumo de sua casa, ora consignado aos 
ricos emboabas que disso faziam comrcio.
        Como a agricultura naquela pica e neste pas das Minas era muito secundria apesar da uberdade do terreno, apenas haviam em S. Joo algumas pequenas plantaes 
de milho, de feijo ou de mandioca. Alm disso, as lutas, as perseguies e perturbaes que havia dois anos, e talvez mais, reinavam entre paulistas e emboabas, 
nessas regies, no deram tempo a que se fizessem plantaes to difceis naquele solo rude e selvagem, onde a vegetao espontnea suplantaria rapidamente toda 
cultura.
        As roas estavam incultas e destroadas e portanto os mineiros de S. Joo tinham preciso de mandar vir mantimentos de bem longe e a grande custo.
        Mestre Bueno que sabia bem disso, e que sabia de cor os caminhos de S. Paulo para S. Joo d' El-Rei, e que tinha ficado com a direo dos negcios dos foragidos 
durante a ausncia de Gil, entendeu-se com o capito Nuno:
        - Branco escuta uma coisa...
        - Pronto, mestre Bueno.
        - Ns estamos aqui quase a morrer de fome...
        - Ah! nem tanto mestre Bueno! Tanta caa, tanto peixe!
        - Mas sem sal e nem pimenta! J me lembrei de temperar tudo isso com salitre; mas o salitre...
        - Que tem o salitre?
        - No posso gastar dele!...
        - Por que homem de Deus?
        - E a plvora? como eu hei de faz-la sem o salitre.
        O capito Nuno caiu em si, e, depois de alguns instantes de reflexo, disse pousando a mo amigavelmente sobre o ombro do velho ferreiro:
        - Tens razo, meu velho! A plvora para ns  gnero de primeira necessidade, e eu nem disso me lembrava!
        - Pois devia lembrar-se! Estou consertando espingardas velhas... De que serve tudo isso sem plvora?
        - No te zangues, meu velho. Mas como podemos ter sal, pimenta, vinagre, e tudo que  preciso para passar melhor vida?
        - Eu j vou lhe dizer. Eles no esto nos roubando o que  melhor do que a vida e a liberdade! At a liberdade do trabalho eles nos roubaram! E a do trabalho 
para fazer bem! Como eu trabalhava l para fazer ferramentas para tirar ouro, para fazer roa, enxadas, machados, alvies, ps e picaretas... para esses perros vis!...
        Ah! meu capito! Eles nos roubaram nossa liberdade, e a mim furtaram minha filha Helena e meu bom companheiro, que era quase meu filho!
        Aqui o velho ferreiro limpou com as costas da mo umas lgrimas secas pelo calor da forja, porque durante a conversa seu trabalho no cessava.
        - L isso  verdade! replicou tristemente o capito Nuno. Que devemos fazer?
        No havemos por certo de lhes ir roubar a honra, a liberdade, as filhas, as mulheres, porque isso  s prprio daquelas almas danadas; mas podemos, devemos 
e temos preciso de roubar-lhes a fazenda... Isto nem  roubo: ser tomar  fora,  mo armada aquilo que nos esto roubando.
        Mas, enfim, que pretendes fazer?
        - Uma coisa simples:  atacar e roubar toda a carregao das tropas que conduzem mantimentos e outros gneros que de S. Paulo vem para essa corja de verdugos.
        - Que diz, meu capito? perguntou mestre Bueno, que terminando e suspendendo o trabalho, fitava Nuno que por alguns momentos se conservou silencioso e pensativo 
esperando uma resposta.
        - Ns, salteadores de estrada, mestre Bueno! Considera bem no que prope: isso no nos  muito honroso! Os leais e valentes paulistas convertidos  num bando 
de ladres de estrada! De mais, acho que no nos achamos em apertos tais que precisemos lanar mo de to repugnante meio!
        - No estamos!? J, j no estamos em apuros, mas daqui a uns poucos de dias no sei o que ser, se no for tomada a providncia que lhe falo!
        A caa j nos vai faltando aqui por perto, e  preciso ir nossa gente procur-la cada vez mais longe, com grande risco de serem apanhados e sermos descobertos! 
Com o palmito acontece o mesmo; o peixe por estas imediaes j est arisco e cada vez acode menos a nos anzis.
        Em poucos dias, se no quisermos morrer de fome, seremos forados a abandonar esta gruta, que nos tem dado guarida to segura, ou a empregar o meio de que 
lhe falo. Qual das duas coisas acha melhor?
        - Abandonar esta gruta! Oh! isso nunca... Enquanto Gil no chegar com o reforo de gente, que foi procurar, daqui no devemos arredar o p.
        - Pois bem, meu capito, nesse caso mos  obra, no  assim?
        - Est dito, mos  obra!
        O capito Nuno, que era homem de esprito esclarecido e convencido destas e outras muitas razes, que em linguagem tosca lhe apresentara o velho ferreiro, 
ponderou tambm que eles podiam se considerar beligerantes, e que a presa e mesmo o saque, em casos tais, no  uma indignidade, mas sim um direito que lhes assistia 
e os justificava aos olhos da sociedade e da sua prpria conscincia;
        Tomada esta resoluo, trataram logo de concluir aos meios de p-la em execuo do modo o mais seguro e por tal sorte, que os emboabas nem de leve pudessem 
suspeitar quais fossem os autores da projetada depredao.
        Na gruta poderiam existir, depois da partida de Gil e seus companheiros, em rigor trinta a quarenta homens. No era muito para poder assaltar com esperana 
de sucesso caravanas que de ordinrio eram escoltadas por gente numerosa, e, alm disso, alguns deviam ficar de vigia na gruta. Mas isso no desanimou aquela gente 
afeita a todos os transes e perigos e, de mais, a perspectiva da fome que os aguardava em pouco tempo lhes parecia mais ameaadora e terrvel do que todos os perigos.
        -Para vigiar a gruta bastamos eu e Irabussu. Se acaso algum bando de emboabas aparecer por estas vizinhanas, por muitos que sejam, basta surgir-lhes pela 
frente a figura de Irabussu para enxotar toda essa corja. At hoje esto escarmentados da lio que tomaram - e gato escaldado at de gua fria tem medo.
        - Disso estou eu certo! replicou Nuno. Contudo, ser sempre prudente deixar aqui mais uns quatro ou cinco homens, para rondarem os arredores e evitar qualquer 
surpresa ou pesquisa de emboabas, que, ou por acaso ou de propsito, aqui possam chegar.
        - Disso no tenho susto. Eles tm horror a esta furna, e evitam e fogem dela como o veado da ona ou o diabo da cruz. Todavia, como o capito quer, podem 
ficar mais trs parceiros, que comigo e Irabussu, seremos de sobejo para espaventar toda essa canialha. O capito pode ir com o corao sossegado, que, com o favor 
de Deus, nos h de achar aqui todos sos e salvos.
        Assim se fez.
        Quase todos os foragidos, ficando s mestre Bueno, Irabussu e mais trs companheiros, nesse mesmo dia saram da gruta, bem munidos de armamento e provises 
de boca para alguns dias. Debaixo da direo do capito Nuno se puseram em marcha com toda a cautela e silncio, margeando as cabeceiras do rio d'Elvas, e, encobrindo 
a marcha nos capes que as orlam, foram postar-se de emboscada  beira do caminho, junto a um crrego. Era isto nas alturas do lugar chamado Vitria, a cerca de 
trs lguas do arraial de S. Joo d' El-Rei. Nuno compreendeu que no deviam usar armas de fogo, ainda que as levassem para qualquer emergncia, e por isso tinha 
armado a sua gente, mesmo os paulistas, de arcos e flechas, de que tambm havia reserva na gruta.
        Assim procederam porque convinha que os emboabas se julgassem assaltados por hordas selvagens e no por homens civilizados, o que daria motivo a suspeitar 
a existncia do grupo de insurgentes, homiziados na gruta de Irabussu.
        Ora, os paulistas tisnados pelo sol, alm de crestados pelas intempries da vida fragueira que h tanto tempo levavam, tiveram o cuidado de arranjar tambm 
alguns cocares e plumagens, com que enfeitaram a cabea e a cintura, de maneira que se confundiam perfeitamente com os indgenas. Emboscados em lugar apropriado, 
e bem escondidos em um espesso capo,  beira do crrego, depois de tratarem de fazer algumas cobertas de ramos e palmas de coqueiro, para se abrigarem dos rigores 
da estao calmosa, que ento corria, enviaram dois batedores ou guardas avanadas que se colocassem nas eminncias, para que, espreitando ao longe a vinda de qualquer 
tropa, corressem a avis-los.
        Foram mais felizes do que esperavam. No fim de poucos dias, os vedetas ou guardas avanadas descobriram uma grande tropa, de quarenta burros cargueiros, 
pouco mais ou menos, acompanhada de outros tantos homens.
        Este grande nmeros no deixou de inquiet-los; mas Nuno, que era traquejado, tranqilizou-os.
        - Melhor para ns, disse ele: de uma s vez pilhamos mantimentos para um ms.
        O capito Nuno tomou logo suas medidas e deu as necessrias ordens. Mandou sua gente postar-se em grupos de seis ou sete, na beira da estrada, e bem escondidos 
no mato, de cinqenta em cinqenta passos, de maneira que ocupassem toda a extenso, desde o crrego at a sada do campo. Assim ficaram todos nos seus postos, no 
maior silncio e quase suspendendo a respirao, at que a caravana chegasse.
        Quando o ltimo cargueiro e o ltimo homem acabaram de passar para a outra banda do riacho, um alarido espantoso troou no meio da mata, e algumas flechas 
silvaram aos ouvidos dos emboabas, cravando-se uma delas na nuca de um burro, que caiu imediatamente por terra.
        Os emboabas, espavoridos, deixaram o burro tombado, e gelados de terror, trataram de tanger para diante a caravana, o mais breve possvel.
        Mas da a uns cinqenta passos, um alarido ainda mais forte e pavoroso retumbou-lhes ao ouvido, e um dobrado nmero de setas veio cair entre eles, matando 
um homem e inutilizando uma besta.
        Os bandidos que formavam o primeiro grupo, depois de despejarem suas flechas, iam correndo sutilmente pelo mato, a reunir-se ao grupo imediato, de maneira 
que, quando a caravana chegou ao ltimo, estavam todos reunidos e com alarido ainda mais infernal, despejando todas as flechas, fizeram grande estrago nos homens 
e animais da caravana.
        Os emboabas, persuadidos de que eram atacados por uma inumervel horda de indgenas, transidos de pavor, abandonaram tudo e puseram-se em fuga precipitada, 
sem terem nimo de olhar sequer para trs, e no pararam seno em S. Joo, onde chegaram quase mortos de medo e de cansao.
        Os bandidos deixaram-nos ir, mas os foram perseguindo de longe, at uma grande distncia, porm mais com vozerias e gritos do que com armas.
        Assim os insurgentes acharam-se de posse de quarenta burros, carregados de vveres de diversas qualidades, fora os fardos que alguns galegos conduziam s 
costas. Como no era possvel que trinta homens conduzissem de uma s vez a carga de quarenta bestas, os bandidos trataram imediatamente de retirar da estrada todo 
o carregamento e deposit-lo em algum esconderijo ali por perto.
        Feito isto, tomou cada um a carga proporcional s suas foras, e em quatro caminhadas, a muito custo e com grande fadiga, conseguiram recolher na gruta os 
vveres pilhados, faina esta que custou uma noite e um dia de rudes e penveis trabalhos e fadigas.
        Para esse trabalho muito concorreu o bom vinho e os bons alimentos que vinham na tropa, como sejam salsichas, paios, presuntos e outras delicadezas das quais 
foram dando cabo, no s para aliviar a carga como tambm porque no precisavam de preparo culinrio, para o qual no dispunham de tempo.
         escusado dizer que largaram na estrada as bestas com os seus arreios. Alm de inteis, estes animais lhes poderiam ser funestos, porque, soltos pelas imediaes 
da gruta, denunciariam tudo, como o leitor bem pode imaginar.
        O leitor no se ter esquecido de que, segundo as informaes de Irabussu, que andara em espionagem pelo arraial de S. Joo, os portugueses, auxiliados por 
Caldeira Brant, que viera do Serro, contavam mais de seiscentos homens de combate e que estavam construindo fossos, trincheiras e estacadas, que tornavam mui difcil 
um assalto contra aquele povoado.
        Ora, como o leitor no ignora, Maurcio, por intermdio de Antnio e em conseqncia de um feliz acaso, que fizera este encontrar seu pai em Ouro Preto, 
trouxera consigo uns oitenta Aimors e mais uns vinte companheiros. Alguns paulistas, que Gil levara consigo, reunidos aos que fugiram de Caet, perseguidos pela 
gente de Nunes Viana e apanhados em caminho, no passavam de quarenta homens.
        Os que ficaram na gruta com o capito Nuno e mestre Bueno eram quarenta e poucos.
        Ao todo eram portanto cento e tantos homens, foragidos, mal armados, e grande parte selvagens, que ignoravam e no estavam habituados a uma disciplina.
        Era temeridade com to pouca gente tomar a ofensiva contra seiscentos homens bem armados, que se defendiam em lugar fortificado.
        Esta situao seria desesperadora se Gil no tivesse trazido a animadora esperana da aproximao de Amador Bueno,  frente de duzentos e tantos paulistas. 
Todavia nem assim Maurcio tinha nimo tranqilo.
        - Fui, sou e serei sempre desgraado! dizia ele a seu ntimo amigo Gil, que tanto o conhecia, e com quem abria seu corao nas horas de prazer como nas angstias.
        - Que tu foste e s infeliz, isso bem sei eu, e o mesmo me acontece, mas que sempre o sers... no sei porque o dizes!
        - No sabes por qu? Eu te digo: amei, amo e amarei sempre a Leonor e ela me corresponde com igual afeto. Hoje ela me odeia e me odiar sempre, e eu... eu 
sempre a amarei!
        - Perdoa-me, Gil! nunca falei deste meu amor seno ao Padre Faria... mas falei-lhe como foragido, um bandido que procura justificar o seu procedimento e 
pede o auxlio de um homem de bem contra a tirania. Falando a esse bom padre no verti uma lgrima, no pronunciei uma imprecao e me exprimi com dignidade e altivez, 
como um homem que tem a reivindicar no s os seus direitos como os de muitos outros seus companheiros oprimidos por essa corja de emboabas...  exceo de Antnio 
que me acompanhou e sabe de todos os meus ntimos sofrimentos, no tive tempo, nem ocasio de desabafar-me.
        - No vs tu, meu caro Maurcio, querer que poupemos tudo quanto  emboaba e morramos todos e tu tambm, s para salvar a tua cara Leonor!... Oh! que essa 
Leonor h de nos sair bem cara...
        - Tu zombas, Gil?
        - No zombo, no;  que para salv-la  preciso no pensar tanto nela.
        - Hei de pensar sempre nela, quer queiras, quer no queiras: tens o corao desocupado, no tens amor...
        - Oh! prouvera Deus que eu tivesse o corao desocupado!...
        Se assim fosse no me lembraria nem de Irabussu, nem de Indaba, nem de Helena, nem de Calixto, nem de Antnio, nem dos paulistas, nem de ti, meu amigo, 
e at de mim mesmo!
        - Continuas a zombar, Gil?
        - No, no zombo! Esquece-te por um momento de tua Leonor.
        - Eu poderia esquecer-me dela por um momento, por dias, por meses mesmo, quando ela me amava e me tinha em conta de homem honrado e de bem. Mas hoje que 
ela me odeia e me considera um traidor, um assassino, eu hoje... no posso me esquecer dela enquanto no me justificar...
        -  para isso mesmo, interrompeu bruscamente Gil;  para isso mesmo que  preciso pacincia. No vs fazer daquelas imprudncias, que da primeira vez nos 
puseram a perder.
        - No, no; protesto que no darei um passo sem te consultar, a ti e a nossos bons amigos Bueno e Nuno. Sei que o amor cega a gente; na hora do perigo no 
me poupem.
        - Tenho receio de que ainda te volte a mania de tuas fatais entrevistas. No digo que deixes de amar D. Leonor: bem sei que  isso impossvel.
        - Oh! Impossvel; mas tambm, nas circunstncias atuais, bem vs que uma entrevista  do mesmo modo impossvel.
        - Para um amor como o teu nada  impossvel.
        - Ah! Gil, a triste experincia escarmentou-me... Nesse sentido no farei mais a menor tentativa, mas... eu te juro por nossa amizade, mesmo pelo amor que 
eu consagro a Leonor, na hora da deliberao, eu me deixarei guiar por teus conselhos e os de nossos amigos. Na hora do perigo no me poupem, mas tambm fiquem certos, 
esta minha mo no disparar um s golpe contra a pessoa do capito-mor... Ele, tu bem sabes quanto  animoso e temerrio; se na luta chegarmos at o extremo de 
batermo-nos corpo a corpo, como naquela terrvel noite, no s no o farei, como mesmo voarei onde quer que ele se ache, para ampar-lo com meu prprio corpo contra 
os golpes dos nossos. Ah! j no foi pequena desgraa ter eu manchado minhas mos no sangue de seu infeliz filho...
        - Esquece-te disso, Maurcio; no foi por tua culpa: tranqiliza-te, que ns tomaremos todas as medidas para que o pai de tua amada no seja vtima do furor 
de nossa gente ou de sua prpria temeridade.
        - Confio em ti e em nossos amigos que j conhecem o capito-mor e j esto ao fato de nossas intenes. Tambm no receio muito da parte dos oitenta Aimors, 
que vieram comigo do Ouro Preto; devem ficar debaixo do mando de Antnio, que os entende e os saber conter. Mas os duzentos homens de Amador Bueno, aos quais nos 
devemos reunir? Bem sabes como Amador Bueno  altaneiro e assomado; esse no d quartel a inimigo...
        - Oh! isso no te d cuidado; ele  impetuoso e ardente, no h dvida, -  implacvel quando se azeda; mas  fogo de palha: fora disso tem bom corao; 
de mais ele no tem motivo particular de rixa contra o capito-mor. O tal insolente Caldeira, esse sim! Ai! dele se lhe cai nas garras. 
        - Mas, j que estamos neste ponto, sem mudar de conversa,  preciso vermos o que devemos fazer para nos juntarmos com a gente de Amador Bueno. Ele talvez 
nem notcias tenha tido deste arraial de S. Joo d' El-Rei, h perto de trs meses a esta parte. A notcia do assalto, to desastrado para ns, que se deu na casa 
do capito-mor,  impossvel que no tenha chegado a S. Paulo; mas ningum de certo sabe que os restos dessa gente derrotada nessa noite fatal, agora aqui exista 
bem perto de S. Joo e reforada com gente nova. O mesmo capito-mor e seus emboabas nem sonham talvez com isso.
        - Talvez sonhem, Gil; eles sabem que nem tu nem eu estamos mortos.
        - Mas julgam que andamos foragidos, e sem recurso algum... O capito-mor e Fernando - sabes isto melhor do que eu, - nenhum caso faziam de ns quando vivamos 
dentro do arraial, e pnhamos o p na casa dele. Agora que andamos foragidos pelo mato e pelas cavernas, como bichos ferozes, muito menos caso far de ns.
        - No duvido, Gil, e tanto melhor.
        - Agora devemos chamar o capito Nuno e mestre Bueno para combinar o que devemos fazer. No podemos perder tempo; hoje mesmo se deve comear alguma coisa.
        - Sem dvida alguma; o que se pode fazer hoje no se deixa para amanh.
        Gil apressou-se em ir chamar os dois leais companheiros, que por uma natural coincidncia se achavam em um canto da gruta, conversando sobre o mesmo assunto.
        - Oh! Gil! - exclamou Nuno ao avist-lo; - ests a! Pensei que estivesses dormindo em companhia de nosso amigo Maurcio.
        - No, ns dormimos fartamente da outra banda do rio, enquanto se passava nossa gente para o lado de c... Estvamos agora conversando a respeito do que 
havemos de fazer e vim tratar disso.
        -  justamente do que se est tratando - replicou mestre Bueno. E agora, que vossas mercs pretendem fazer?
        - Ainda no sabemos; vamos para l onde est Maurcio, e ns quatro combinaremos, enquanto este povo no acorda.
        Gil levou mestre Bueno e Nuno para o canto em que o vimos com Maurcio.
        Reunidos os quatro em uma conferncia, que durou pouco tempo, deliberaram destacar da gruta um troo de dez ou vinte homens, com o fim de ir ao encontro 
de Amador Bueno, para inform-lo minuciosamente das ltimas ocorrncias, e gui-los com seu exrcito para a gruta de Irabussu.
        Feita esta juno, os chefes deliberaram sobre o modo e o tempo em que deviam atacar os emboabas em S. Joo d' El-Rei.
        Gil, que era o nico que possua um relgio, consultou-o, chegando perto de um ltimo tio que conservava algum fogo, no qual soprou para fazer luz.
        - So perto de duas horas da tarde, meus amigos.  tempo de despertar essa gente, porque hoje mesmo devemos comear a execuo de nossos planos.
        Ento Maurcio, com voz forte, chamou pelo nome de Antnio.
        Este, que sempre despertava  voz de seu querido amo, logo acordou, e imediatamente estava junto de Maurcio.
        - Desperta os nossos amigos aimors;  j tempo, dormiram bastante.
        Da a pouco aquela gruta, em que no se ouviam seno roncos e o resfolegar compassado dos que dormiam, converteu-se em um teatro de uma atividade quase tumultuosa. 
Os aimors que durante o seu longo sono sonharam com a guerra aos emboabas, quando se viram despertados por Antnio, cuidaram que era j tempo de avanar contra 
eles, e instantaneamente pondo-se em p, com todas as suas armas, soltaram seu grito de guerra. 
        Os paulistas e os outros bugres acordaram sobressaltados.
        Antnio, secundado por Maurcio e Gil, Nuno e mestre Bueno, com alguma dificuldade conseguiram acalmar a excitao de uns e o pnico de outros.
        Gil falou aos paulistas, explicando-lhes que convinha partirem alguns ao encontro de Amador Bueno que tambm vinha com perto de trezentos homens atacar os 
emboabas.
        Todos se ofereciam entusiasticamente, mas Zambi (Joaquim), o valente e leal africano, ressentido de que se no lembrassem dele, levantou a voz e o vulto 
gigantesco por cima da multido.
        - J se esqueceram de mim, meus brancos?! - exclamou ele. Ento Joaquim j morreu? Para que tanta gente? Joaquim s pode ir buscar e guiar os brancos de 
S. Paulo, e trazer todos eles para aqui. Eu, h mais de dez anos, tenho traquejo desta estrada; conheo todos os trilhos, desvios e atalhos que h por a, porque 
fui tocador de tropa do defunto meu senhor, um maldito emboaba que com estas mos mandei governar l os diabos nos infernos... Meus brancos, ento no contam mais 
com Joaquim?
        - Contamos muito e muito, meu Joaquim, - atalhou Gil, avanando para o africano; - bem sabemos que s um dos mais valentes e leais de nossos companheiros. 
Mas tu e Antnio deveis estar fatigados das caminhadas e trabalhos que tivestes com Maurcio.  preciso que descanseis.
        - Eu, descansar?... No, meu branco, eu vou onde est esse branco, chamado Amador Bueno... Eu o conheo bem:  um homem alto e magro; a barba j est branqueando. 
Se me no deixam ir, eu fujo para sempre daqui.
        - No  preciso fugir, - acudiu Gil, pousando-lhe a mo no ombro; - tu irs, e aceitamos teu servio; mas no faz mal que leves contigo tambm alguns companheiros.
        - No preciso, acudiu Joaquim; mas enfim isso no faz  mal nenhum.
        - De quantos companheiros precisas?
        - Dois somente.
        - Levars cinco.
        - Pois v feito.
        Joaquim escolheu cinco entre seus companheiros, dos que lhe eram mais conhecidos: dois negros de seus antigos quilombolas, que ainda restavam; dois indgenas 
dos carijs de Tabajuna, e um jovem paulista, mas forte e corajoso, inimigo jurado de tudo quanto era emboaba.
        O paulista que conhecia Joaquim desde S. Paulo, porque servira em casa de seu pai, e tinha sido testemunha da lealdade e valor do brioso africano, nas ltimas 
lutas contra os emboabas, no teve o menor pejo, nem receio, de acompanh-los naquela expedio. 
        Muniram-se do que era necessrio para cinco ou seis dias, e partiram nessa mesma tarde ao encontro de Amador Bueno.




CAPTULO XI

        Amador, tendo recebido a carta de desafio de Caldeira Brant, que em termos speros e pouco corteses o desafiava a campo, aceitou sem hesitar e respondeu-lhe 
em termos um tanto quixotescos, mas no injuriosos, com a fanfarronice e jactncia prprias dos paulistas, que at nisso parecem ter sido mais uma colnia espanhola, 
que portuguesa.
        Amador tratou imediatamente de organizar uma forte bandeira, no j no intuito de descobrir novas regies aurferas nem aprisionar e cativar indgenas, mas 
de punir a petulncia de um insolente emboaba, que o desafiava e insultava.
        Os paulistas, gente empreendedora naquela poca, por terra, como eram por mar os antigos fencios em mais remota era, ou como os portugueses do tempo de 
Colombo e Vasco da Gama, se achavam dispersos por toda a vasta colnia portuguesa.
        Por isso, Amador Bueno, em S. Paulo de Piratininga e nos seus arredores, a custo, pode alistar um bando de cerca de cento e cinqenta homens validos e resolutos 
como ele, e quinze dias depois de ter recebido o cartel de desafio de Caldeira Brant, com eles se ps a caminho para as Minas. Essa marcha durou cerca de um ms, 
em razo das dificuldades do caminho atravs do serto bruto, retalhado de rios caudalosos, eriados de montanhas e cobertos de espessas e emaranhadas florestas.
        Nela, porm, em compensao, Amador teve a felicidade de ir encontrando, em pequenos grupos, grande nmero de paulistas fugitivos, que vinham de Sabar e 
Caet e mesmo alguns de S. Joo d' El-Rei, fugindo das perseguies dos emboabas, e que, incorporando-se ao seu bando, com ele voltaram s Minas.
        Quando, pois, o denodado chefe chegou s imediaes de S. Joo, contava em suas fileiras mais de duzentos e cinqenta homens valentes, resolutos e bem armados, 
graas  proviso de armamento e munio, de que tivera cuidado de prover-se.
        Ele ignorava, porm, que Caldeira Brant, em S. Joo, tinha reunido um nmero de combatentes mais de duas vezes superior ao seu, e que havia como j dissemos, 
fortificado aquele ponto de fossos, e trincheiras construdas de cascalhos tirados das lavras de ouro, tornando aquele lugar um reduto quase inexpugnvel.
        - Este Caldeira, - dizia ele conversando,  tarde, a seus amigos, em um estado de perfeita segurana e cheio de confiana no bom xito de sua empresa: - 
esse Caldeira, a meu ver, no passa de um fanfarro cheio de bazfias. Que nos poder apresentar em frente, a ns que estamos acostumados a escaramuar o gentio, 
lev-los de vencida por campos e florestas, e apanh-los  mo, como quem agarra galinhas na capoeira?
        No pode apresentar mais de algumas dzias de galegos poltres e mariolas, acostumados somente a carregar fardos e barris de vinho por essas estradas, como 
burros de carga. Amanh pela manh poderemos dar-lhes caa; aposto que amanh mesmo nem um deles dormir em S. Joo d' El-Rei, a no ser os que ficarem dormindo 
o sono da morte.
        - Tambm eu no duvido disso, replicou um dos circunstantes: - porm, julgo que no seria mau, antes de atacar o inimigo, procurar-se saber qual o seu nmero 
e a posio em que se acham.
        - Nada disso nos importa, retrucou vivamente Amador. Logo que so emboabas, fossem eles mil, e eu s dispusesse de cem pessoas, no recearia atac-los. Quanto 
 posio que ocupam ns a reconheceremos, logo que l chegarmos.
        Estavam nessa conversa, quando divisaram ao p da colina dois homens que se dirigiam ao acampamento. Eram dois paulistas que no tinham tomado parte da insurreio 
de seus patrcios e se tinham conservado homiziados nas imediaes de S. Joo d' El-Rei, mas separados, e at ignorando a existncia do ncleo de insurgentes que 
se achava na gruta de Irabussu.
        Apesar disso, vendo-se eles alvo das suspeitas dos emboabas e temendo as suas perseguies, depois da derrota e disperso de seus patrcios, tomaram a resoluo 
de abandonar as minas e voltar ao seio da terra natal.
        Foram benigna e cordialmente recebidos por Amador e seus companheiros, e, como se pode adivinhar, Amador, contentssimo com a chegada to oportuna daqueles 
dois homens, cheio de curiosidade, apressou-se a interrog-los minuciosamente sobre as circunstncias em que se achava o povoado e sobre os ltimos acontecimentos 
que ali se tivessem dado.
        As notcias que lhe deram no eram muito tranqilizadoras; mas Amador no revelou e nem deixou transparecer na expresso de seu rosto, nem em sua linguagem, 
o mais leve sinal de desnimo ou inquietao; continuou a falar de emboabas no mesmo tom desdenhoso, e alardear a mesma confiana no feliz xito de sua audaciosa 
empresa.
        Os paulistas expuseram-lhe por mido o estado das coisas. O capito-mor, receoso de mais algum levante por parte dos paulistas e indgenas, se havia rodeado 
das maiores precaues; e os quatrocentos ou quinhentos emboabas vlidos que formavam aquele povoado, bem providos de armamentos e munio, se achavam prontos a 
pegar em armas, ao primeiro chamado.
        Fernando, de dias em dias, e s vezes o prprio capito-mor, os exercitavam e adestravam no manejo das armas e evolues militares.
        Mas isto ainda no era tudo. H uns oito dias, havia chegado das bandas de Sabar e Caet, o caudilho portugus Felisberto Caldeira Brant.
        - Oh! j se acha a esse chefe de mariolas, exclamou Amador Bueno, levantando-se e batendo palmas de contente. Esse biltre teve o atrevimento de nos desafiar 
a campo... Bem; continua, meu amigo! Que mais h? Caldeira j se acha em S. Joo? E que mais?
        - Sim, senhor - respondeu o paulista, - l est e trouxe consigo de duzentos a trezentos homens em socorro do capito-mor, a fim de desbaratar e expulsar 
sempre os paulistas destas minas.
        - Duzentos e tantos homens, refletiu Amador Bueno; com os quatrocentos e tantos do capito-mor formam mais do triplo do que ns temos; mas no importa; quem 
no sabe que um paulista  para dez emboabas?... E que mais, amigo?
        - Ora, continuou o paulista - desde que estes homens chegaram, no se ocupam seno de fazer trincheiras e obras de fortificao.
        - Que miserveis! que covardes! sendo to superiores em nmero, no se atrevem a combater em campo aberto, estes facnoras, que s sabem atirar de trs do 
toco e  traio!... Foi assim que massacraram nossos patrcios aqui bem perto do capo da Traio... Mas eles vero! ... Vamos adiante, que mais h?
        - Nada mais, seno que eles l se acham muito confiados e altaneiros,  espera de vossa merc.
        - No ho de esperar muito tempo; l irei: no costumo faltar a convites desta natureza. Mas diga-me ainda: Essas trincheiras e fortificaes de que so 
feitas? So muito fortes?
        - Parecem-me bem fortes. So feitas, pela maior parte, de cascalho de tiram das lavras de minerao e que eles amontoaram em forma de muralha, at a altura 
do peito de um homem. Em outras partes, so estacadas de madeira grossa, e em outras so valas bem fundas, guarnecidas de faxinas27, atrs das quais devem ficar 
atiradores, de maneira que do lado de c  impossvel romper caminho para entrar na povoao, seno a poder de balas de artilharia...
        - Como? pois no se pode atac-los de flanco, e nem mesmo pela retaguarda?
        - No  possvel: as trincheiras formam um cordo que se estende da serra do Lenheiro e vai acabar na beira da mata do rio das Mortes, atravessando quase 
toda a povoao do lado de c.
        - E do lado de l?
        - Do lado de l est o rio.
        - Pois passa-se o rio.
        -  preciso pass-lo duas vezes, como o comandante sabe, e o rio neste tempo leva muita gua, e no h quem o passe, nem a nado, quanto mais a vau.
        - E a ponte que h no caminho que vai para Ouro Preto?
        - Essa est sempre guardada por uma grande guarnio e, segundo ouvi dizer, se quiserem forar a passagem  guarnio, aquele que no puder defend-la, tem 
ordem de botar fogo nela.
        Amador ficou pensativo, por alguns momentos, e disse depois:
        - E no se poder arranjar umas canoas para passar a nossa gente?
        - Nem isso, comandante; tomaram todas as cautelas, mandaram apanhar todas as canoas que havia por a, e as puxaram para terra a seco, do lado de c.
        - No importa; disse Amador, com o tom de sobranceria que nunca o abandonara; - no nos faltam bons machados nem braos vigorosos para manej-los e nem tampouco 
troncos por essas matas. Havemos de fabricar canoas e jangadas com o favor de Deus, e isto em poucos dias, o que dar em resultado estarmos em S. Joo brevemente, 
enxotando de l essa vil perrada de galegos, comandada por esse vil e covarde Caldeira.
        Amador sustentara aquele tom e linguagem altaneira para no desalentar os seus; mas logo compreendeu as crticas e perigosas circunstncias em que se havia 
enleado. Bem via que somente com duzentos  homens no lhe era possvel ir bater-se com um antagonista que dispunha de mais de setecentos homens, bem aquartelados, 
armados e municiados e, alm disso, combatendo por detrs de fortes trincheiras.
        Avanar imprudentemente era loucura; recuar com sua gente para S. Paulo era covardia; manter-se no mesmo lugar por algum tempo, sem recursos para resistir 
ao inimigo, nem atac-lo, era, alm de imprudncia, covardia: era entregar-se ao inimigo, deixando-se sitiar por ele.
        Ir com sua tropa buscar novos reforos de gente e subsistncia era o nico recurso que lhe restava.
        Mas para onde iria ele?
        Procuraria o rumo de Sabar, Caet? Por a bem sabia que os emboabas andavam fortes, principalmente tendo por si Nunes Viana.
        Grande parte dos companheiros que tinha em suas fileiras vinham escaramuados daquelas paragens; era-lhe impossvel penetrar em semelhantes regies sem correr 
risco de perder-se. Tambm Amador e seus companheiros bem sabiam que em Ouro Preto havia uma forte colnia, composta, pela maior parte, de paulistas mas tambm de 
grande nmero de emboabas e indgenas; mas para l chegar s se ofereciam dois caminhos - era o de S. Joo d' El-Rei que se achava ocupado pelo inimigo que guardava 
com vigilncia a ponte do rio das Mortes; ou alis procurar as cabeceiras do rio nas fraldas da serra da Mantiqueira, a fim de vade-lo e da procurar o Ouro Preto, 
dando uma volta imensa.
        O primeiro alvitre era impossvel, porque no havia meio de flanquear o inimigo sem se expor  quase certa contingncia de por ele ser atacado.
        Amador igualmente no ignorava que os paulistas de Ouro Preto viviam mui contentes de sua sorte, assim como tambm os emboabas, no havendo entre eles rixas 
nem animosidade alguma, sendo este estado de paz e prosperidade da nascente povoao devido, no s  abundncia de ouro que ali encontravam, como principalmente 
ao tino e prudncia dos chefes paulistas, Antnio Dias e Padre Faria.
        Era, pois, difcil, seno impossvel, desviar aqueles mineiros do seu pacfico e lucrativo trabalho para os arrojar a uma empresa belicosa, nos azares de 
uma luta armada contra quem quer que fosse. Metido nesse terrvel impasse ou beco sem sada, o chefe paulista em vo d tratos ao esprito, procurando uma soluo 
s dificuldades de sua crtica situao. Enfim, resolveu reunir em conselho na sua barraca os chefes mais experimentados e de mais prestgio, a fim de lhes expor 
as dificuldades e hesitaes em que se achava, e com eles deliberar sobre o melhor partido que poderiam tomar. 
        Nenhum deles deixou de reconhecer a perigosa e precria conjuntura em que se achavam; mas tambm nenhum deles apontou alvitre algum que pudesse tir-lo daquela 
embaraosa situao com probabilidade de sucesso; e, portanto, todos a uma voz sustentaram que no havia outro expediente possvel seno atacar imediatamente o inimigo 
em S. Joo d' El-Rei, expondo-se embora a uma luta desigual de um contra trs, a uma luta desesperada de vencer ou morrer.
        - Recuar, dizia um deles, seria para ns uma desonra, uma humilhao com que muito se regozijaria o tal Caldeira do inferno e toda a sua perrada, que cantaria 
vitria como se tivesse combatido. Desviar tambm para qualquer dos lados em procura de reforos que por certo no encontraremos em parte alguma, seria rematada 
loucura. Estacionaremos aqui at que eles fiquem cientes de nossa chegada, de nossa posio e mesmo do nmero de nossa gente;  uma imprudncia expormo-nos a ser 
aniquilados.
        - Nada, nada disso! s nos resta um partido, partido desesperado na verdade mas o nico que nos fica bem: marchar avante e direito ao inimigo. Uma surpresa, 
um ataque inesperado e rigoroso, antes de que se apercebam de nossa aproximao...
        E quem sabe se, procedendo ns assim, essas fortificaes em breve estaro em nosso poder e essa corja de emboabas enxotadas para sempre de S. Joo d' El-Rei?! 
E, se tivermos de sucumbir, faamos com que a vitria lhes saia mais cara e amargosa possvel.
        Assim deliberou-se pr imediatamente em movimento a coluna, a fim de atacar de improviso e vigorosamente as trincheiras durante a noite. Ainda bem o paulista 
no tinha acabado de proferir estas palavras, quando se ouviu uma descarga de mosquete que os ps em sobressalto. Amador, que conversava com os amigos dentro de 
uma barraca, correu logo para fora; os paulistas que andavam dispersos a caar pelos lanantes da extensa colina corriam aceleradamente de todos os lados, descendo 
em direo ao seu acampamento.
        - Temos emboabas! - disse um deles a arquejar, o que primeiro chegou  fala junto de Amador. Chama s armas, comandante!
        Mas no foi preciso dar ordens nem sinais. Os paulistas que se achavam dispersos tinham tambm todos reunidos no acampamento.
        Os que receberam a descarga e que felizmente se achavam ilesos informaram em poucas palavras a Amador de que, nas vizinhanas de um mato que ficaria da 
a um quarto de lgua, de outro lado do outeiro, ouviram uma descarga de oito ou dez tiros que saram de dentro do mato. Dispararam a correr, gritando pelos companheiros 
que andavam mais longe, e, chegando ao alto do morro, como no eram conhecidos de perto, olharam para trs e viram um troo de uns cinqenta a sessenta homens, que 
a toda pressa marchavam para eles.
        - So emboabas que nos querem surpreender! - bradou Amador. Este Caldeira  prfido. A eles, meus amigos!
        - No precisamos de ir todos: cinqenta homens saiam para a frente!
        Todos saram.
        Quero s cinqenta!... bradou Amador, ainda que eles sejam cem.
        Todos ficaram em frente; todos queriam ser do nmero dos cinqenta e ter a honra de acompanhar Amador naquela arriscada investida.
        - Pois bem, - exclamou Bueno, impacientado, - querem ir todos; mas eu no posso consentir em tal; venham os primeiros cinqenta que se acham  minha direita; 
acompanhem-me, e j.
        Dizendo isso, Amador arrancou a espada da bainha e apontou para o alto da colina, e ps-se a andar. Os cinqenta da direita o acompanharam de perto, e mais 
uns dez ou doze, e mais alguns talvez que se afoitaram em segui-lo, vendo que naquela emergncia no havia tempo, nem era ocasio de contar homens. Os outros ficaram 
em armas, escondidos no mato.
        De feito, mal tinham avanado alguns passos, viram apontar no alto da colina o troo dos inimigos, que avanavam em coluna cerrada e a passo acelerado, em 
distncia de uns quinhentos passos. Bueno deixou sua gente avanar, ainda um pouco at o meio do lanante, e depois f-los parar at o inimigo chegar ao alcance 
de seus tiros. A coluna dos emboabas, em vista desta parda, observando o nmero dos adversrios, que lhes pareceu muito menor do que o seu, atribuindo a medo a parada 
do inimigo, avanaram afoitamente. Dada a primeira descarga, a gente de Bueno, j industriada por ele enquanto avanou, comeou a bater em retirada e desordenadamente 
como em fuga precipitada, e separando-se em dois grupos, um para a esquerda e outro para a direita do inimigo, at se avizinharem bem do capo, em que se achavam 
ocultos o resto dos paulistas. Vendo este movimento, os emboabas redobraram de audcia; mas j pensavam ir agarrar  mo inimigos aterrados e indefesos, quando se 
viram inopinadamente envolvidos em trs fogos.
        Os fugitivos, reunindo-se e formando-se em distncia, atacavam-nos pelos flancos, enquanto do mato rompia-lhes pela frente, e quase  queima-roupa, um terrvel 
e mortfero fogo de mais de cem escopetas. Em pouco tempo, metade dos inimigos jaziam por terra mortos ou feridos.
        Amador com um brado atroador fez suspender aquela intil carnificina e ordenou aos inimigos que restavam que depusessem as armas e se rendessem  discrio.
        Muitos desses j largavam as armas, e ajoelhando-se de mos postas imploravam misericrdia, e todos se entregaram sem resistncia, dando mil graas a Deus 
e  magnanimidade de Amador por t-los salvado daquele horrvel morticnio.
        Esta vitria to assinalada, posto que enchesse de entusiasmo e confiana a todos os paulistas, no tranqilizou muito o esprito de Amador. Um ataque sobre 
S. Joo d' El-Rei, nico expediente que lhe poderia dar alguma esperana de sucesso, j no era possvel.
        Na coluna de emboabas que acabavam de assaltar o campo dos paulistas, vinham dois cavaleiros, que durante o combate se conservaram na retaguarda, um pouco 
em distncia, tendo os seus animais pela rdea: pareciam os comandantes daquela troa. Estes, porm, logo que viram o negcio mal parado e o desbarato dos seus, 
montaram com presteza e se puseram a galopar, fugindo. Ora, infalivelmente no parariam seno em S. Joo, onde iriam dar notcia de sua desastrosa e completa derrota, 
da posio e nmero dos paulistas, e no deixariam de exagerar.
        Dado este alarma, Caldeira Brant no deixaria de redobrar de vigilncia e de tomar rigorosas providncias de precauo e segurana em seu entrincheiramento, 
contra qualquer surpresa do inimigo.
        Portanto, Amador, de acordo com seus lugar-tenentes, resolveu, como j comeava a anoitecer, a passar a noite naquele mesmo stio, a fim de deliberar sobre 
o que deveriam fazer no dia seguinte. Antes, pois, que se entregassem ao sono, conferenciaram longamente, e foi por fim adotado unanimemente o alvitre proposto por 
Amador, de imitarem os emboabas, isto , de fortificarem tambm o seu campo com trincheiras, estacadas e fossos, e ali permanecerem, visto que em campo fortificado 
uma guarnio qualquer pode-se defender contra foras trs ou quatro vezes superiores. Entretanto, Amador destacaria alguns homens que voltassem  capitania de S. 
Vicente, a fim de angariar mais alguma gente com a maior presteza possvel para reforar suas fileiras.
        - Com mais cem homens, - dizia ele, - eu vos juro que temos segura a vitria. No viram com que perrice se portaram no combate de hoje?... Bem dizia eu que 
um paulista  para quatro labregos a peito descoberto, mas como esto fortificados,  prudente que sejamos ao menos um contra dois. 

CAPTULO XII

        No outro dia o sol, que se ergueu desanuviado em um cu lmpido e luminoso, alumiava no acampamento dos paulistas um espetculo singular e inteiramente novo 
naquelas paragens. Os companheiros de Amador moviam-se em todos os sentidos, j em grupos, j isolados por toda a extenso da vasta colina, uns carregando, em vez 
de escopetas, enxadas, ps e alvies; outros levando ao ombro grossos toros de madeira. No mato as rvores estremeciam aos sonoros golpes do machado, sacudindo da 
coma em chuva de prolas o orvalho da madrugada. Os principais chefes, a cavalo, percorriam a colina, indicando e demarcando os pontos mais convenientes, em que 
se deviam erguer trincheiras, ou cravar estacadas; enfim todos trabalhavam pressurosos e com incrvel ardor, como se desejassem terminar naquele mesmo dia a obra 
de fortificao. Andavam nesta faina, havia duas horas, quando um deles deu vista de um grupo de quatro homens, que se dirigiam para ali, no pelo caminho de S. 
Joo, mas do lado direito, cortando o campo.
        Imediatamente vo dar parte a Amador, que nesse momento se achava em sua barraca com os paulistas designados para voltarem a procurar reforo de gente, os 
quais esperavam suas ordens e algumas cartas que escrevia.
        Amador saltou rapidamente fora da barraca e ps-se a observar os novos visitantes: alguns paulistas puseram-se logo em armas.
        Os forasteiros, que eram um homem branco, um negro de estatura colossal e dois indgenas, logo que chegaram a certa distncia, pararam, talvez receando alguma 
hostilidade. O branco tomou um pedacinho de papel que trazia na algibeira, pegou numa flecha de um dos indgenas, apertou nela o papel e a deu de novo ao ndio.
        Este a embebeu no arco e disparou-a. A flecha voou rpida a uma altura extraordinria, depois retardando o vo e pairando como uma ave de rapina, descreveu 
uma curva, e, baixando como um gavio que se arroja sobre a presa, veio cravar-se no cho, a alguns metros de distncia adiante de Amador. Este apressou-se em tirar 
o papel e l-lo. Continha somente estas duas palavras: - Paz e Aliana.
        O leitor j adivinha que esses quatro forasteiros eram os enviados de Maurcio ao encontro de Amador.
        Amador sentiu um estremecimento de jbilo ao ler aquelas palavras; um lampejo de esperana lhe atravessou o esprito, dissipando nele todas as apreenses 
e desalentos que ultimamente o agitavam.
        O papel andou de mo em mo, entre gritos de alegria. Amador fez sinal com a mo aos forasteiros para que se avizinhassem, e imediatamente uma multido de 
paulistas correu ao encontro deles, e os trouxe como em triunfo at a presena do chefe.
        - Ontem, ponderava ele, j vieram por mero acaso incorporar-se a ns dois dos nossos patrcios; hoje chegam, como que cados do cu, mais quatro camaradas 
que talvez sejam guardas avanadas de outros muitos. Se a coisa continua assim, por Deus que em pouco tempo poderemos ir cuspir balas na cara do emboaba e mandar 
o Caldeira ir ferver nas profundas dos infernos.
        Chegados  presena de Amador, e acolhidos por todos com grande afabilidade, porm com maior curiosidade ainda, o jovem paulista tirou de sua patrona uma 
carta que entregou ao chefe. Esta carta era de Maurcio, que Amador conhecera pessoalmente em S. Paulo, e cujas qualidades altamente apreciava.
        Maurcio, receando que um simples recado oral, dado por pessoas obscuras e inteiramente desconhecidas ao ilustre bandeirante pudesse despertar alguma suspeita 
em seu esprito, julgou prudente tambm escrever-lhe aquela carta em que narrava, por alto, suas aventuras, os ltimos acontecimentos de S. Joo, o lugar e a situao 
em que se achava, as foras de que dispunha, e convidava a unir-se a ele para combaterem juntos contra o emboaba.
        Enquanto amador ia silenciosamente lendo a carta os olhos de quantos o rodeavam estavam fixos em sua fisionomia, a qual,  medida que ia lendo, cada vez 
mais se expandia em uma expresso inequvoca de contentamento e entusiasmo.
        - Bem dizia eu! - exclamou, concluindo a leitura. Estava at adivinhando, quando disse, ainda agora, que estes quatro camaradas eram talvez guardas avanadas 
de outros muitos.
        Leiam, leiam esta carta, - acrescentou, agitando no ar o papel, - j temos gente de sobra para esmagar o emboaba!
        Entregue a carta aos soldados, em breve toda a tropa ficou ciente de seu contedo. Houve uma alacridade, um entusiasmo, uma deciso e coragem inexplicvel 
em todo o acampamento. os mais desanimados tornaram-se os mais resolutos e corajosos, logo que souberam que Maurcio e Gil estavam com eles. 
        Havia nas fileiras de Amador muitos jovens paulistas que conheciam pessoalmente os nossos dois heris. Das proezas e aventuras de ambos, tinham chegado at 
S. Paulo algumas notcias vagas e incompletas.
        O dio dos paulistas contra os emboabas era grande, principalmente depois do morticnio do Capo da Traio, e da perseguio movida contra eles em Caet 
e Sabar pela gente de Nunes Viana e Caldeira Brant, e ardiam no mais impaciente desejo de encontrarem uma ocasio de tomar completa desforra desses aleivosos e 
covardes atentados. Parecia um dia de festa no acampamento. 
         escusado dizer que todos abandonaram os trabalhos de fortificao, e em vez de derribar troncos, cavar fossos, colhiam flores silvestres com que ornavam 
as armas e os chapus, e dando com seus mosquetes salvas de alegria, celebravam a vspera como o preldio de uma vitria mais completa e decisiva.
        Sem mais demora, Amador deu ordem a sua gente para se pr em movimento, a fim de se reunir  tropa de Maurcio.
        Em breve, toda a coluna com sua bagagem estava pronta, e guiada pelos emissrios de Maurcio pelos mesmos lugares escuros e nvios por onde estes tinham 
vindo, se puseram em marcha em direo  gruta de Irabussu, abandonando aquelas elevadas colinas que deixaram para sempre assinaladas com o nome de Alto da Vitria, 
que ainda hoje conserva.
         preciso que o leitor conhea o motivo que deu lugar ao ataque imprevisto que acabamos de narrar, ataque to inesperado para os paulistas como para os prprios 
emboabas.
        Caldeira Brant, sabendo que Amador Bueno aceitava o desafio que lhe dirigira, e tendo notcia que ele j se achava em caminho,  testa de algumas centenas 
de paulistas, enviou ao seu encontro, como guarda avanada em reconhecimento, uma guerrilha de cinqenta a sessenta homens.
        Levavam ordem de os evitar e somente de os observar de longe, calculando pouco mais ou menos o seu nmero, e, logo que tivessem conseguido isso, retirarem-se 
com presteza a dar-lhe conta dessa comisso. 
        Talvez o leitor pense que para isso no eram precisos mais do que cinco ou, quando muito, dez homens resolutos e traquejados, visto que no iam combater 
o inimigo, mas simplesmente observ-lo. Nesse tempo, porm, Caldeira Brant receava com razo algum ataque por parte dos indgenas e mesmo de paulistas foragidos, 
que se sabia  vagarem pelas cercanias de S. Joo, sem se ter descoberto onde era o seu couto28, e por isso entendeu que devia enviar um destacamento numeroso, capaz 
de repelir qualquer assalto.
        Caldeira Brant, computando que Amador Bueno estaria em meio caminho, ordenou aos seus que fossem avanando ao seu encontro, em marchas lentas e cautelosas, 
at o Rio Grande, alm do qual no deveriam passar.
        Convencidos disso, os emboabas, seguindo as instrues de seu chefe, marcharam at as colinas em que se achava Amador, sem nunca olharem para diante, e dando 
somente ateno aos flancos a fim de evitarem qualquer emboscada de indgenas ou paulistas foragidos.
        Assim foram marchando at galgar a colina, por detrs da qual j havia muitas horas se achava acampado Amador com sua gente. O encontro do inimigo foi, portanto, 
para eles, uma verdadeira surpresa, e teriam recuado prontamente em fuga precipitada, se o estratagema habilmente empregado por Amador no tivesse impedido de ajuizar 
do verdadeiro nmero dos inimigos. Na confuso, porm, daquele encontro inesperado, julgando o inimigo em nmero talvez inferior, enganados pela fuga simulada, que 
Amador ordenara aos seus, e que estes admiravelmente executaram com toda a segurana e afoiteza, correndo  sua runa, como acabamos de ver. 

CAPTULO XIII

        Deixando, por agora, Amador com sua tropa marchar penosamente atravs de campos e matos no trilhados, para ir fazer juno com a troa de paulistas e indgenas, 
que Maurcio, Gil e Antnio,  custa de perigos e fadigas extraordinrias, tinham conseguido incorporar na gruta de Irabussu, nos  foroso conduzir o leitor outra 
vez ao seio da povoao de S. Joo d' El-Rei e  prpria casa do Capito-mor, a fim de nos informarmos, por mido, do que a se passou depois da desastrosa noite, 
em que ela foi teatro da horrorosa carnificina, to fatal aos paulistas e principalmente a Maurcio.
        Vamos, pois, nos encontrar com trs interessantes e simpticos personagens, que, com bem saudades minhas e talvez tambm do leitor, h longo tempo no encontramos 
no caminho desta narrativa: - a bela, nobre e altiva d. Leonor, - a gentil, graciosa e dedicada Helena, e a ingnua e formosa filha das selvas, a espantadia, mas 
resoluta Indaba. Temos tambm de encontrar-nos de novo com o Capito-mor Diogo Mendes, seu sobrinho Fernando e outros personagens, dos quais certamente no se ter 
o leitor esquecido.
        Pouco passava de duas horas depois da meia-noite, postos os paulistas em debandada depois do sanguinolento assalto que havia durado apenas meia-hora, quando 
o capito-mor e seus portugueses, entendendo que nada mais tinham a recear, tranqilizaram-se, e encostando as armas, passaram a examinar o estreito teatro daquele 
horrvel e mortfero combate. Todos deviam estar fatigadssimos, mas ningum dormiu naquela noite fatal.
        O lgubre silncio que sucedeu ao retinir das armas e aos gritos ferozes dos combatentes, era interrompido pelos gemidos dos feridos e pelo estertor dos 
moribundos, que jaziam na varanda, no salo e no ptio, de envolta com aqueles que, mais felizes, j tinham exalado o ltimo alento. 
        Leonor e suas companheiras, que deixamos ajoelhadas na capelinha, depois do aparecimento de Maurcio e das palavras rpidas que pronunciou, tranqilizaram-se 
um pouco e sentaram-se no tapete, com os seios arquejantes  de susto e inquietao, e com o ouvido alerta ao menor rudo, como trs rolas espavoridas que escutam 
tremendo o bater das asas do gavio, a cujas garras acabam de escapar. Entretanto, apesar de se irem esvaecendo os sustos e sobressaltos causados pelo horrvel conflito, 
aquelas trs pobres almas sentiam ainda o peso da mais cruel tribulao.
        Como as pragas dos vencidos e os gritos dos vencedores j se iam esvaecendo ao longe, as trs comearam a refletir: Indaba pensava em Antnio, Helena em 
Calixto e Leonor... Leonor pensava em todos e em tudo. Mais feliz do que as outras, tinha visto so e salvo o seu amante. Mas aquelas ltimas e sinistras palavras 
que ouvira dele - estais salvas... mas eu... eu estou perdido!... perdido para sempre, - produziram em seu esprito estranho e singular enleio; mas sua inteligncia 
sagaz, depois de alguns instantes de reflexo, compreendeu tudo. J por vezes lhe tinha passado, rpida como o relmpago, a idia de que Maurcio tambm tramava 
com o resto dos paulistas contra seu pai, contra Fernando e contra todos os emboabas.
        No conhecia e nem mesmo poderia compreender a terrvel coliso em que se achava seu leal e desditoso amante. Depois das duas ltimas entrevistas, as excitaes, 
as expresses equvocas e misteriosas de Maurcio, deram ainda mais constncia a suas suspeitas. No h dvidas, - conclua ela consigo mesma, -  um traidor... 
Ama-me talvez e talvez no... Mas ele acaba de dizer que nos salvou e que est perdido para sempre!... Que quer dizer isto, seno que ele estava no nmero de nossos 
inimigos!... Meu Deus!... meu Deus!... exclamava ela, estorcendo as mos e volvendo seus lindos olhos, macerados de lgrimas e viglias, para a imagem do Crucificado 
- que quer isto dizer?... Minha cabea estala... meu corao est to angustiado... oh!... meu Deus! meu Deus! E meu pai!... e Afonso, que ser deles? Murmurava 
ela estas palavras a meia voz, e suas companheiras a contemplavam mudas, mas cheias de confiana, como se ouvissem seu anjo tutelar, que ia levar imediatamente aos 
ps do Eterno suas splicas, para serem atendidas. Nisto estavam, quando apareceu  porta da capela um homem com as mos ensangentadas, o cabelo em desordem, o 
olhar torvo e as feies transtornadas.
        Trazia debaixo do brao esquerdo uma espada ensangentada e na mo direita uma lanterna acesa. As moas logo que o viram, soltaram um grito de pavor e taparam 
os olhos com as mos, pensando que era ainda algum paulista insurgente, que por ali se achava com ordem de assassin-las.
        - Pois j no me conhecem! - bradou o vulto, com voz spera e agastada.
        - Ah!  o senhor Fernando! murmurou Leonor, volvendo os olhos para o vulto e reconhecendo-o. Desculpe-nos: o susto e o pavor nos perturbam.
        No era entretanto, s o pavor e o susto que as perturbavam; Fernando estava mesmo por tal sorte desfigurado, que ainda mesmo em circunstncias ordinrias 
o teriam desconhecido.
        Os cabelos hirtos e em desalinho; as vestes em desordem e ensangentadas, dilaceradas em diversos lugares, em conseqncia da luta frentica que tivera de 
sustentar, cruzando ferro contra ferro, bastavam para desfigur-lo; mas, alm disso a palidez cadavrica que lhe cobria o rosto salpicado de sangue, o furor que 
lhe estuava n' alma, por se ter visto suplantado pela mo vigorosa de Maurcio e curvado a seus ps; o seu olhar turvo e desvairado, davam-lhe a toda a figura uma 
expresso to sinistra e hedionda, que ningum naquele momento reconheceria nele o belo e garboso gentil homem, secretrio de Diogo Mendes. Pensar-se-ia antes estar 
vendo um bandido ignbil e feroz que, farto de sangue e matana, atira-se ao saque e  profanao do lar, que acaba de assaltar.
        - Compreendo o seu susto, d. Leonor, - retorquiu Fernando; o caso no  para menos; tranqilize-se, porm, os inimigos j vo longe, e tomaram tal esfrega, 
que nunca mais se lembraro de nos incomodar.
        - E meu pai; e Afonso? - perguntou Leonor com ansiedade.
        - Seu pai, senhora, foi ferido, mas...
        - Ferido! exclamou Leonor; meu pai ferido! onde est ele?
        - Ah! por quem  no se aflija: o ferimento no  grave; em poucos dias estar restabelecido. Entretanto,  preciso que a senhora v para junto dele.
        - H mais tempo j estaria se soubesse... Onde est ele?
        - Em seu quarto de dormir, - respondeu Fernando. 
        Sem mais querer ouvir, Leonor arrojou-se para a porta da Capela e desapareceu, voando para o quarto do pai.
        Helena e Indaba quiseram acompanh-la, mas Fernando as deteve.
        - Esperem, meninas! - disse ele, embargando-lhes o passo. Para cuidar do senhor capito-mor, basta d. Leonor e mais algumas pessoas que l j se acham. Temos 
outro dever e caridade a cumprir: a menina Helena toma a lanterna e vamos ver os mortos e os feridos; os mortos para serem enterrados e os feridos para serem socorridos 
enquanto  tempo; e isto j.
        Era uma tarefa bem cruel para duas raparigas na flor dos anos: apesar de no ignorarem o que so dores, inquietaes e sofrimentos ntimos, iam pela primeira 
vez presenciar o espetculo de uma arena do mais terrvel combate, ensopada ainda de sangue quente, e coberta de mortos e moribundos.
        Mas Fernando, para cortar toda a desculpa, lhes fez ver que naquele momento ningum se achava desocupado, e que era indispensvel que elas o ajudassem naquele 
doloroso dever.
        No souberam nem ousaram replicar; entretanto uma curiosidade ansiosa e cheia de inquietao as atraa, mau grado seu, quele teatro de sangue e carnificina. 
Antnio e Calixto, que seriam deles? Por certo estariam tambm no nmero dos assaltantes: as duas amantes bem poderiam ir encontr-los mortos e banhados no prprio 
sangue!... Esta lembrana, ao mesmo tempo que as fazia recuar horrorizadas, ao mesmo tempo as chamava quele cenrio de horrores, impelidas por uma imperiosa e fatal 
curiosidade.
        Helena tomou a lanterna e ambas seguiram Fernando para o grande salo das audincias. A jaziam, estendidos no pavimento ensangentado, quatro ou cinco corpos.
        Fernando mandou que Helena aproximasse a lanterna ao rosto de cada um deles, a fim de reconhec-los e examinar se estavam definitivamente mortos.
        Bem se pode compreender com que angstia, com que estremecimento de pavor, a pobre moa desempenhou esta fnebre tarefa, receando encontrar em cada morto, 
que alumiava, o rosto de seu querido Calixto. Fernando, ao contrrio: com o mais satnico sangue frio, depois de os volver e revolver, um por um, examinou-lhes as 
feies, os golpes, apalpando-os, auscultando-os, a ver se ainda respiravam.
        - Esto mortos e bem mortos; so cinco, dois do inimigo e trs dos nossos, - disse secamente; - com estes nada temos; pertencem ao coveiro. Agora passemos 
 varanda.
        Fernando, ou por acaso ou de propsito, guiou os passos das duas meninas justamente ao lugar em que se achavam, como abraados um ao outro, os cadveres 
dos dois inimigos figadais, Afonso e Calixto.
        Ns vimos na primeira parte desta histria como esses dois belos mancebos, que se detestavam por uma fatal coincidncia, caram ambos derribados pela espada 
de Maurcio, e quase enlaados em fnebre e piedoso amplexo, esquecendo na morte seus dios e seus amores.
        Calixto, caindo com o brao estendido, enlaava o colo ensangentado de seu rival. Era um espetculo para confranger de d o corao mais empedernido e o 
mais alheio s tristes circunstncias, que o acompanhavam.
        Que terrvel impresso no devia produzir ele sobre a pobre Helena, que ali via decifrado o horror de seu destino, que to estreitamente se ligava quele 
doloroso quadro! ... Apenas reconheceu as feies de Calixto, os olhos se lhe turvaram, a lanterna lhe caiu das mos e os joelhos desfalecidos a deixaram cair tambm 
com os braos abertos sobre o corpo de seu amante. 
        - Oh! oh! - rosnou Fernando, trincando os dentes; temos mais uma, que precisa de socorros!...
        Menina! menina! - continuou, apanhando a lanterna, e tocando com a ponta do p no corpo de Helena desmaiada; - vamos adiante!  escusado ficar aqui. Estes 
tambm esto mortos e bem mortos. Eu menina os vi cair trespassados pela espada de Maurcio...
        Vamos!
        Helena, desmaiada, nada ouvia, e, portanto, nada podia responder.
        - Pega na lanterna, - disse bruscamente Fernando a Indaba; - e vamos adiante! Creio que teremos tambm uma defunta a enterrar...
        - Helena! Helena!... bradou a ingnua e corajosa carij, debruando-se sobre o corpo de Helena, estendido sobre o de Calixto. Morreste tambm!? No, no, 
ela no est morta!
        - Morta ou viva, de nada nos pode servir agora: - disse Fernando e, agarrando a pobre Indaba pelo brao, f-la levantar-se e a levou pela varanda e depois 
ao ptio, examinando mortos e feridos, com a feroz tranqilidade do chacal que,  noite, depois do combate, passeia entre os cadveres saciando a fome no campo da 
carnificina.
        O delquio de Helena durou apenas alguns minutos; a linda jovem paulista, a filho do velho ferreiro, herdara a compleio sadia e vigorosa de seu pai, que 
era de tmpera to forte como a do ferro trabalhado em sua forja. S um golpe to doloroso, como esse que acabava de fulmin-la, poderia interromper-lhe o uso dos 
sentidos.
        Despertou como quem acorda de um pesadelo; mas em poucos momentos, recobrou a reflexo e a reminiscncia: ela havia cado com a face sobre a espdua esquerda 
de Calixto. Enquanto reatava suas idias, percebeu que o peito do mancebo arquejava debilmente e o corao batia em fracas e quase imperceptveis pulsaes.
        Um sobressalto de alegria e esperana lhe fez estremecer todo o corpo, e o sangue que o pavor e a angstia lhe tinham enregelado nas veias, aqueceu-se de 
sbito e deu-lhe novo alento. Em um momento colocou-se de p: achava-se em escurido quase completa. Sem mais demora correu ao aposento de Leonor, e, tirando uma 
das velas que ardiam junto do oratrio, voltou  varanda a examinar o estado e a natureza das feridas de Calixto. Desenlaando os corpos dos dois rivais, abraados 
na morte, colocou de costas, com todo o carinho, o corpo do amante, e, com o mais vivo prazer, reconheceu que os golpes que Calixto recebera, apesar de numerosos, 
eram todos leves e superficiais, no sendo o seu desfalecimento mais que o resultado da grande perda de sangue. Mais que depressa se dirigiu ao aposento do capito-mor, 
para pedir a Leonor ataduras e algum blsamo para aplicar s feridas do mancebo.
        O capito-mor, entregue a um ligeiro letargo em conseqncia da debilidade, no percebeu a entrada de Helena; mas Leonor velava  sua cabeceira.
        - Que h de novo, minha amiga? perguntou Leonor com aodamento, logo que viu Helena... Onde est Afonso?... no o viste por a?
        Esta rpida e inesperada pergunta, que exigia pronta resposta, caiu como se fosse uma massa de gelo sobre o corao de Helena. A pobre menina, na angstia 
e tribulao em que se via, nem pensara na eventualidade to natural dessa pergunta, e portanto muito menos havia cuidado em forjar uma mentira qualquer, para ocultar 
 sua patroa, ao menos por algum tempo, a triste realidade.
        - Ah! sim, o senhor Afonso, - respondeu ela balbuciando, enquanto excogitava uma resposta. Eu vim aqui depressa buscar... uns panos...
        - Mas, meu irmo Afonso, que  dele? No me respondes?
        - Ah! perdo, minha senhora, - tinha me esquecido... j no sei onde tenho a cabea... o senhor Afonso, j perguntei por ele... disseram-me que tinha sado 
a perseguir...
        - Ah! meu Deus! aquele doido o que iria por a fazer?! Vou mandar busc-lo  fora.
        - Faz bem, minha senhora, murmurou Helena.
        - Mas... o que me pedias? continuou Leonor um pouco tranqilizada.
        - Umas ataduras para um ferido...
        - Ah! sim! respondeu Leonor, entregando um punhado de fios de ataduras... Vai depressa; no posso abandonar meu pai, seno iria te ajudar... mas quem  ele? 
 um dos nossos?
        - No sei; no o conheo.
        - Mas... seja quem for, vai, vai j socorr-lo. 
        Helena, de caso pensado, no quis declarar quem era o ferido, porque receava que, se soubessem que era Calixto, o mais encaniado dos inimigos dos emboabas, 
e a quem por isso mesmo votavam o mais violento dio, tratassem de dar cabo nele. Nada temia de Leonor, nem mesmo do capito-mor, cujo corao sabia ser humano e 
generoso, mas dos outros portugueses e principalmente de Fernando, cuja malvadez e ferocidade ela, melhor que ningum conhecia.
        Quando chegou de novo para junto do corpo exnime de seu amante; j alguns emboabas e escravos fugitivos, que Fernando a muito custo fizera arrebanhar, se 
achavam ocupados na lgubre faina de desentulhar o edifcio e o ptio dos cadveres que os juncavam. Alguns feridos encontrados ainda com sinal de vida, eram recolhidos 
 sala da priso, que durante o assalto fora arrombada pelos insurgentes.
        Ora, como dissemos, no convinha a Helena que Calixto fosse tambm para l conduzido, e, portanto, dirigiu-se com modo suplicante queles sinistros coveiros, 
e, dizendo-lhes que aquele ferido era um irmo de quem ela mesma se encarregava de tratar, conseguiu que o conduzissem para seu quarto.
        Fernando, tendo terminado sua fnebre tarefa, voltou com Indaba ao lugar onde havia deixado Helena desmaiada sobre o corpo de Calixto, e, vendo que ali 
s se achava o cadver de Afonso, entendeu que os outros dois j tinham sido conduzidos para o lugar do destino.
        - Ainda bem! murmurou ele. Este deve ser enterrado em lugar oculto e debaixo do maior segredo. Toma tento, Indaba! No vs bater com a lngua nos dentes 
para contar, nem a Leonor, nem ao capito-mor, e nem a quem quer que seja, a morte deste mancebo!
        Indaba olhou espantada para Fernando, mas compreendeu o motivo desta recomendao.
        - Mas Helena! Helena no est morta! murmurou a indgena. Vou ver onde ela est.
        - No sei se est ou no: isso pouco me importa... Vou dar as providncias para esconder este cadver. No preciso mais de ti, vai-te para onde quiseres.

CAPTULO IV

        Indaba exultou de prazer ao ver-se livre da companhia daquele homem sinistro, e dando pressa em aproveitar da liberdade, que lhe era concedida, ps-se logo 
 procura de Helena.
        Primeiramente dirigiu-se ao quarto do capito-mor, que se achava aberto, como era mister, e frouxamente alumiado. Chegando apenas  porta, espreitou por 
todos os cantos: o capito-mor ainda dormitava, e Leonor,  sua cabeceira, estava absorvida em seus tristes e angustiados pensamentos; mas Helena l no se achava. 
Indaba correu ao quarto de sua amiga, que era contguo ao seu, e l bem no interior. A porta estava fechada, mas havia luz dentro.
        - Est a - pensou a ndia, com o corao a pular de esperana e contentamento. - Empurrou de leve a porta, que cedeu, por estar apenas encostada, e entrou.
        Calixto estava deitado na pobre enxerga de Helena, que sentada  beira da cama, com a maior diligncia, solicitude e presteza, lhe pensava as feridas.
        O moo no havia ainda recobrado os sentidos; mas j tinha a respirao mais sensvel, palpitaes mais fortes e outros sintomas pelos quais qualquer pessoa, 
por mais ignorante que fosse, o julgaria fora de perigo.
        Helena, ao entrar Indaba, sobressaltou-se algum tanto, mas ao reconhec-la, sua alma serenou, tornando-se mais tranqila e contente do que dantes.
        -  ele!  ele! murmurou Indaba, logo que deu com os olhos naquele grupo.
        - Sim,  ele!  ele e est salvo, no achas, Indaba? replicou Helena, sem interromper o servio urgente que a preocupava. Em poucos momentos a dedicada 
amante, auxiliada agora por sua amiga, tinha concludo seu caridoso mister.
        Os ferimentos de Calixto eram, pela maior parte, pouco importantes; mas, devido  durao da luta, e a uma contuso mais forte no antebrao, produzida por 
uma rija pranchada que de propsito lhe descarregara Maurcio, no intuito de desarm-lo, sem ofend-lo, perdera uma grande quantidade de sangue. No s a dor fsica, 
como tambm o desespero e a raiva que lhe causou essa pranchada, vendo-se desarmado no momento em que, furioso, avanava contra Maurcio, contando certo atravess-lo 
com a espada, contriburam por certo, tanto ou mais do que a perda de sangue, para que casse inanimado e hirto como um cadver sobre o cadver de seu rival.
        - Agora vamos conversar, disse Helena, e puxando Indaba pela mo acocoraram-se ao p do catre onde jazia Calixto, e ali permaneceram bem unidinhas, como 
um par de rolas, que  noitinha se empoleiram sobre um raminho, afagando-se e arrulhando, at adormecer. Assim ficaram as duas raparigas, arrulhando, em voz baixa 
e triste, o angustiado dilogo que se segue:
        - Conta-me, Indaba - comeou Helena, - o que se passou por l?... ah! que noite horrvel, no  assim, minha amiga? ... quando pensamos ns, em dias de 
nossa vida, de passar por transes to cruis?!...
        -  assim: Indaba j tem padecido muito; mas, como esta noite, nunca! soluou a pobre indiana.
        - Eu tremo ao perguntar,... mas...  preciso... S sei de Calixto, que a est... E Antnio?... Viste-o?... e meu pai?...
        - Ah! no, no; no vi nenhum deles, nem vivo, nem morto.
        - Mas, meu pai estava na priso...
        - Eles arrombaram tudo e os presos fugiram.
        - Ento tenho alguma esperana: de certo puseram-se a salvo.
        - Mas o Sr. Fernando j mandou gente perseguir os que fugiram.
        - Mandou? Que homem mau! Aquele perro vil  a causa de todas as nossas desgraas... E o Sr. Maurcio?
        - Tambm fugiu.
        - Ah! ento bem: meu pai de certo foi com ele, e voc bem sabe que no  qualquer que bota a mo neles, principalmente se vo com Antnio e Gil...
        - O Sr. Afonso, coitado!... esse, sim, morreu mesmo! Ah! pobre D. Leonor quando souber...
        - Ah! no! no! o homem no quer que ela saiba.
        - Qual homem?
        - O mau Fernando.
        - Ah!
        - Ele mandou que eu no contasse a ningum, e que se enterrasse o corpo s escondidas.
        - Fez bem... mas eu j sei porque  que aquele diabo fez isso.
        - Por que ?
-  porque ele mesmo quer ter o gosto de dar essa triste notcia  pobre moa.
        - Ah! mau!...
        Aqui o dilogo foi esmorecendo entre suspiros e monosslabos, at morrer de todo. As duas raparigas, extenuadas, de fadiga, e de emoes adormeceram.

CAPTULO XV

        A primeira luz do dia despontava, rsea e risonha, nas orlas do horizonte; mas o arraial de S. Joo e principalmente nas cercanias da casa do capito-mor, 
essa aurora no achava nem um hino, nem um sorriso que a saudasse. Os passarinhos que costumavam ir cantar pela madrugada no jardim de Leonor, tinham fugido espavoridos 
e os sabis, rolas e juritis, que vinham no terreiro debicar as migalhas de opparas refeies que as meninas, em dias no mais alegres, porm mais tranqilos, costumavam 
lanar-lhes, sentindo o cheiro acre de sangue recente, que impregnava o cho, no ousaram ali pousar.
        Gemidos surdos, lgrimas, conversaes em voz abafada, triste e misteriosa, e alguns corvos que, atrados pelo cheiro da sangeira, esvoaavam em volta da 
habitao do capito-mor: heis a as lgubres saudaes que festejaram a aurora que se seguiu a essa desastrada noite.
        Nesse momento do primeiro albor do dia, as duas raparigas que deixamos, h pouco, cochichando em triste e ansiosa modorna, como duas rolinhas, ao p do leito 
de Calixto, despertaram ao som de uns gemidos e de umas palavras, dbil e confusamente pronunciadas.
        Era o mancebo que, graas aos cuidados da amante, ao silncio e frescor da madrugada, depois de um sono breve e reparador, ia pouco a pouco recobrando os 
sentidos.
        - Ai! que  isto? onde estou, meu Deus? Que  que me aconteceu?... Ah! Helena!... Helena... murmurava com voz entrecortada e arquejante.
        - Estou aqui, Calixto! Estou aqui! disse com voz abafada e comovida Helena, levantando-se rapidamente e debruando-se sobre o vulto de Calixto.
        - Oh! ests a! exclamou este abrindo, a custo, os olhos.
        - Sim, aqui estou eu, mas no te mexas; no te desacomodes.
        - Ah! minha Helena! minha querida Helena! Deixa-me beijar essa mo caridosa...  a segunda vez que me chamas  vida... A primeira foi nesse dia cruel...
        - Bem sei, bem me recordo, atalhou Helena; deixa essas lembranas para depois...
        Como o dia j despontava, Helena apagou a pobre candeia de azeite, que ardia no quarto, e entreabriu de manso a janela de fortes balastres, que dava para 
um ptio interior.
        Helena, por certo, no tinha ainda a experincia de uma enfermeira de hospital de sangue; mas, como mulher e amante, tinha esse instinto adivinhador que 
prev e previne tudo. No deixou, portanto, entrar luz muito viva nem ar muito fresco de chofre no aposento. Felizmente para o enfermo, a manh estava serena; uma 
bafagem de ar puro e tpido, de envolta com uma rstia de luz branda, vivificaram os pulmes e ativaram a circulao no empobrecido sangue do ferido.
        Ele conseguiu, com o caridoso e dedicado auxlio das duas meninas, sentar-se na cama, e, abrindo bem os olhos, disse:
        - Ah! Helena!...  ela mesma!... No  um sonho como ainda agora eu pensava... Ah! e tambm Indaba! Estou com dois anjinhos do cu... Mas onde estou? Em 
casa de quem?
        Helena no sabia o que dizer e hesitou em dar resposta a esta pergunta. Se soubesse que estava em casa de seus inimigos, era terrvel notcia para ele: s 
essa idia, no estado melindroso em que se achava, podia comprometer-lhe o pronto restabelecimento, e talvez mesmo a vida.
        - Ests em minha casa, - respondeu Helena, depois de alguns instantes de silncio.
        - Estou em tua casa, em casa de mestre Bueno? No, no pode ser.
        - No, no estamos em casa de meu pai, mas estamos em lugar seguro, em casa de um amigo.
        - Qual amigo?!... se estamos com emboabas, estou perdido.
        - Sossega, meu amigo; logo te direi tudo... Eu vou te arranjar um caldo...  preciso que descanses um pouco ainda: deita-te a, que ns voltamos neste instantinho. 
Vamos l fora, Indaba.
        Calixto obedeceu, sem mais relutncia,  voz daquela excelente rapariga, que considerava com razo o seu anjo tutelar, e recostou de novo sua dbil cabea 
fatigada sobre o travesseiro, cheio de esperana e gratido, e de novo adormeceu. 
        Indaba e Helena logo viram Calixto de novo tranqilo e adormecido, saram e se recolheram ao quarto da indgena, que era vizinho ao de Helena.
        - Tenho uma coisa a recomendar-te, disse esta;  preciso que ningum saiba que Calixto aqui se acha;  preciso mesmo que acreditem que est morto e sepultado 
com os outros infelizes que morreram esta noite.        
        - Sim; mas por qu?
        - Ora, por qu?! Pois no adivinhas, minha tolinha, - que se o senhor Fernando souber  capaz de o fazer morrer  mngua e  fora de maus tratos!? S uma 
pessoa pode saber de tudo, e  preciso mesmo que o saiba, porque sem ela eu em nada poderei valer ao meu pobre Calixto.
        - Quem ?
        -   nossa ama. D. Leonor; ela no nos quer mal; voc bem sabe quanto ela  boa; se ela quiser, e porque no h de querer? - ningum, seno ns trs, saber 
que Calixto aqui existe. Tem pacincia, minha Indaba, fica aqui um bocado vigiando Calixto, enquanto eu vou procurar jeito de conversa com D. Leonor.
        Assim o fizeram. Indaba ficou velando  cabeceira de Calixto, e Helena foi pressurosa procurar Leonor no aposento de seu pai. Ali se apresentou naturalmente 
como a pretexto de saber novas do capito-mor, oferecer seus servios e pedir ordens. Infelizmente para ela, o capito-mor, que havia despertado de sua letargia, 
achava-se agitado e em ansioso dilogo com sua filha.
        Perguntava por Afonso, e Leonor procurava, em vo, dissipar as sinistras impresses que assaltavam o esprito de seu pai. E como no seria assim, se ela 
mesma no estava de todo tranqila a respeito da sorte de seu irmo.
        Quando Helena entrou, Leonor congratulou-se por achar uma companhia to a propsito para tranqilizar, ou antes, para iludir seu pai.
        - Vieste muito a tempo, Helena... Vem, chega-te aqui.
        Helena aproximou-se do leito do capito-mor.
        - Aqui est Helena, continuou Leonor; - ela  quem sabe e viu tudo, e foi ela quem me contou.
        A pobre Helena viu-se ainda forada a mentir e enganar a ambos porque ela bem sabia que Afonso estava morto, e que, quela hora, talvez j estivesse enterrado. 
Mas Helena no era dessas criaturas que se deixam perturbar nas situaes difceis e melindrosas: j tinha mentido uma vez e estava disposta a mentir ainda mais, 
porque compreendia que estas mentiras, em vez de produzir mal, eram naquelas circunstncias um dever de caridade.
        - Ah! viste Afonso, menina? - disse o capito-mor com voz desfalecida. Onde est ele? Fala, minha menina: no me ocultes nada.
        - O senhor Afonso, - respondeu Helena, fazendo extremo esforo para no titubear na mentira que ia pregar: - o senhor Afonso eu o vi so e salvo... depois 
o Sr. Fernando me disse que ele saiu, pela madrugada, perseguindo os revoltosos, e que j, sem perigo, se achava de volta... e que daqui a pouco ele deve estar em 
casa.
        O capito-mor, e mesmo Leonor, reassumiram certa tranqilidade, em virtude do tom cheio de calma e segurana com que Helena conseguiu externar sua piedosa 
mentira. Assim tranqilizado, o capito-mor, a quem sua filha j tinha ministrado algum alimento, adormeceu de novo, e desta vez em sono mais profundo e menos agitado. 
Vendo que ele dormia, Helena, em voz baixa, pediu a Leonor que se afastasse um pouco do leito do ferido.
        Leonor acedeu a este pedido, e Helena, em poucas palavras, lhe contou o que acabamos de narrar a respeito de Calixto, e acabou suplicando-lhe, no s que 
guardasse segredo, como tambm lhe facilitasse os meios de tratar de seu doente.
        - Tens razo, minha pobre Helena! - respondeu comovida a pobre moa. Se Fernando souber, no sei o que ser do teu Calixto. No era preciso que me pedisses 
nem segredo e nem socorro: bastava me contar o que h. Quando precisares de alguma coisa, basta uma palavra, um sinal.
        - Toma esta chave, - continuou, entregando-lhe a chave da copa; - l achars po, vinho e mais algumas coisas. Do caldo, que e fizer para meu pai, tambm 
se dar ao teu Calixto.
        Helena beijou as mos de Leonor com lgrimas nos olhos.
        - Tambm, - respondeu ela, - quando a senhora precisar de nossos servios, meus, ou de Indaba, nos a estamos: no nos poupe.
        Leonor voltou para junto de seu pai, e Helena correu  copa a procurar alimento, de que antes de tudo precisava o seu doente.

CAPTULO XVI

        Fernando, depois que dera as necessrias providncias para sepultar os mortos e tratar dos feridos, e principalmente para sepultar em segredo o cadver de 
Afonso, persuadido tambm de que Calixto j se achava enterrado, deixou entregue o capito-mor aos cuidados de Leonor e de uma nica preta escrava, que na hora da 
matana, ou por dedicao ou por falta de nimo e foras para fugir, se deixara ficar em casa, e recolheu-se tambm ao seu quarto para tomar algum descanso. J de 
antemo tinha tomado todas as providncias para a perseguio dos fugitivos, arrebanhando para esse fim alguns emboabas que no tinham entrado na luta, e que, portanto, 
se achavam em melhores condies de vigor para bem desempenhar esse servio. 
        Mas o seu principal cuidado era a captura de Maurcio. Escolheu para esse fim seis homens dos mais resolutos e bem dispostos, e lhes deu boas cavalgaduras, 
que abundavam nas estrebarias do capito-mor, prometendo-lhes avultadas somas, se o trouxessem morto, e o dobro, se o trouxessem vivo. 
        Depois de os ter regalado com po, salsichas e presunto da copa do capito-mor, expediu essa pequena patrulha que, estimulada por esses incentivos e animaes, 
e principalmente pela esperana das somas prometidas, se ps logo com ardor  pista de sua vtima.
        Os ferimentos que Fernando havia recebido eram leves e superficiais, e o sangue havia estancado apenas com auxlio de alguns fios e ligaduras. Sem cuidados, 
portanto, a respeito de seu estado e enquanto esperava o resultado das diligncias que havia expedido em perseguio aos revoltosos, deitou-se e adormeceu.
        A casa do capito-mor ficou silenciosa durante algumas horas, como se estivesse completamente deserta e abandonada, e todo o arraial de S. Joo d' El-Rei 
parecia tambm um acampamento deixado de vspera. Os mortos j repousavam para sempre debaixo da terra; os vivos, que tinham entrado em combate, feridos ou no, 
procuravam no sono o restabelecimento das foras e da sade. Os que se achavam mais descansados, por no terem tomado parte na encarniada luta, haviam sado por 
ordem de Fernando ao encalo dos fugitivos.
        No foi seno depois de meio-dia que vieram chegando um por um, ou em pequenos grupos, os homens de Fernando, estropiados, estafados e quase mortos de fome, 
sono e cansao; apenas se recolhiam a suas casas, estiravam-se logo no primeiro enxergo que encontravam, e, como no achavam tambm nem a quem contar, nem pedir 
nada, entregavam-se ao sono, continuando assim todo aquele fnebre silncio, em todo o povoado, durante o resto do dia. 
        S na casa do capito-mor havia gente desperta, alerta e solcita: eram as trs mocinhas, iguais somente na idade, na beleza da forma e na pureza d' alma, 
alm do infortnio que as fraternizava. Fora disso pela raa e pela posio social, enorme diferena as distanciava. Uma era de puro sangue indgena; outra era seguramente 
de raa mista e filha de um pobre ferreiro; a ltima era uma ilustre e formosa fidalga em cujas veias girava o generoso sangue luso-espanhol.
        Eram, entretanto, estas trs meninas, as nicas que resistiam ainda ao sono e  fadiga.
         que todas as trs eram amantes; todas trs tinham seres queridos envoltos nos perigos de uma luta feroz e sanguinolenta, que no podiam saber se estaria 
ou no terminada.
        Leonor estava junto de seu pai, tranqila a respeito de seu estado, que no inspirava inquietaes; mas em extrema aflio por no ter visto ainda Afonso, 
depois do pavoroso conflito da noite, e cruelmente impressionada pelas ltimas e sinistras palavras que ouvira da boca de Maurcio.
        Helena tinha tambm junto a si o seu amante, salvo do perigo ao menos por aquele dia; mas seu pai, o velho mestre Bueno? Sabia ela o que seria feito dele? 
Sabia ela o que seria feito dele? Apenas sabia por boca de Indaba que havia fugido, aproveitando-se do arrombamento da priso feita pelos insurgentes; mas no receava 
ela que de um para outro momento ele entrasse pela casa adentro, amarrado, ferido e mesmo morto? 
        Indaba nada receava por seu pai, o velho Irabussu, bem sabia que os emboabas no lhe podiam pr a mo; no podia porm esquecer-se de Antnio... A lembrana 
de Antnio despertava-lhe ao esprito a de Maurcio e de Gil, esses amigos to constantes e dedicados, cuja sorte tambm era ignorada.
        Entretanto, as trs moas, ainda que cruciadas por tantas angstias e tribulaes, eram os nicos entes que giravam pela vasta e taciturna habitao do capito-mor, 
onde, felizmente para o desempenho do seu piedoso dever, ningum as vinha estorvar nem importunar. E no s elas cuidavam dos dois feridos, por quem mais se interessavam 
como tambm iam ministrar todos os socorros, de que dispunham, aos desventurados feridos de uma ou outra faco, que jaziam quase abandonados na priso arrombada, 
que lhes servia de enfermaria sem enfermeiro.
        Calixto restabelecia-se prontamente; o capito-mor, cujo ferimento era mais grave, posto que abatido, no inspirava cuidado sobre seu restabelecimento. As 
trs moas, extenuadas de insnia e emoes, separaram-se para tomar algum repouso, julgando que poderiam gozar dele por algumas horas.
        Indaba recolheu-se ao seu quarto e adormeceu profundamente, sonhando com Antnio; Helena encostou-se  cabeceira de Calixto, e ao som de sua respirao, 
cada vez mais forte e compassada, tambm adormeceu nos braos da esperana.
        Leonor fez o mesmo: encostou-se a um espaldar  cabeceira do leito de seu pai, e, apesar das mil tribulaes que lhe agitavam o esprito, estava dormindo 
sono bem profundo. Mas o sono reparador de que gozavam aqueles trs anjos de caridade e dedicao no durou por muito tempo. 
        Eram passadas apenas duas horas, depois que adormeceram, quando um rumor longnquo, que se foi tornando pouco a pouco mais prximo e distinto, veio perturbar 
o silncio quase sepulcral que reinava dentro e em torno da casa do capito-mor.
        Era uma altercao ou alterao de vozes que veio aumentando at entrar no ptio, de modo o mais atroador e desrespeitoso.
        Eram os seis homens da patrulha, que Fernando enviara com ordem terminante de perseguir Maurcio e traz-lo vivo ou morto. Vinham desde longe disputando 
sobre a partilha da gorda propina de vinte mil cruzados, com que aquele lhes acena, e sobre o emprego que lhe haviam de dar.
        - A mim devia-me tocar o maior quinho - dizia um; - se eu no dou com a trilha e o rastilho de sangue, nenhum de vocs era capaz de atinar com a cova do 
homem.
        - Devagar com isso, camarada, - redargiu outro; - ento tambm a mim deve caber maior poro; quem guiou vocs para aquelas bandas, seno eu, que bem sabia 
que por ali  que o bicho devia procurar safar-se.
        - Cala-te a, palerma; ento o maior quinho devia tocar-me, a mim que fui o primeiro que esbarrei com a cova do homem.
        - Cala-te tu tambm, s intrometido!... Se no fosse eu, que conheci logo o chapu e a faquita do menino, vocs eram bem capazes de passar por aquela cova 
sem saber quem era o que estava l socado.
        - Ora vocs so bem engraados! Ento no pode haver muitos chapus e muitas facas como esses? Se eu, que sou aqui o nico que sei ler e escrever, no tivesse 
soletrado o nome de Maurcio na folha da faca e no fundo do chapu, vocs que no passam de uns asnos, poderiam l saber de quem eram tal faca e tal chapu?
        - Ora, boas! exclamou o ltimo; ento, visto isto, vocs todos cinco tem direito a um maior quinho, e, de certo, para aumentar o de todos, ho de lanar 
mo do meu, e, por fim de contas, ficarei sem nada! Ora vocs so bem engraados! Ponham a mo na conscincia, se  que a tem, e vejam se no  mais de razo que 
o bolo seja partido por igual entre todos?
        - Tens razo;  justo,  justo! - exclamou um. Mas uma coisa me lembra agora; o bolo  grande, mas repartido entre seis no  l grande coisa. Portanto eu 
sou de parecer que com esse principal formemos uma sociedade de negcio de armazm, de minerao, ou de qualquer outra especulao. Que dizem, hein?
        Dois dentre eles aceitaram este alvitre; os outros trs, porm, repeliram-no com todas as foras, reclamando com energia, a entrega imediata da quota que 
lhes tocava, donde resultou uma calorosa discusso, que desandou em violenta altercao, falando todos ao mesmo tempo, em uma algazarra infernal, at a entrada da 
varanda.
        As trs moas, graas ao sono profundo que h pouco tinha se apoderado delas, no acordaram logo; mas Fernando, que h mais tempo dormia e que, alm disso, 
adormecera com o esprito preocupado na volta da diligncia que enviara em perseguio de Maurcio, despertou logo aos primeiros rumores, levantou-se e acudiu  
varanda.
        Ficou soberanamente desapontado quando verificou que os seis malsins por ele enviados, voltavam sem trazer mais ningum, nem vivo nem morto, e mordendo-se 
de raiva e de despeito disse:
        - Ento que  isto, senhores poltres? Que  do homem? Pois nem vivo nem morto?
        - Morto est ele, e bem morto; at sepultado, senhor meu!
        - Felizmente demos cabo da pele do tal maldito!
        - Ento, como foi isso? No lhes ordenei que mo trouxessem aqui vivo ou morto?
        Os seis emboabas comearam a responder a um tempo com tal algazarra e confuso, que levou ao cmulo a impacincia de Fernando.
        - Calem-se, perros! bradou ele com voz convulsa e abafada: No sabem que o capito-mor e sua filha precisam de repouso! Basta que um s me responda.
        Calaram-se todos, submissos e reverentes. Um deles, avanando para mais perto da varanda, disse:
        - Saber Vossa merc, senhor meu, que depois de darmos muitas voltas por esses matos e restingas em procura do homem, demos, enfim, no rastro dele... Ia 
a cavalo, mas ns picamos nossos animais, e, em pouco tempo, alcanamos o bicho; quis respingar, mas ns despejamo-lhe na cabea as nossas escopetas, e ele caiu 
redondamente morto aos ps do cavalo, que disparou pelo mato afora.
        - Mas por que no me trouxeram o corpo?
        - Isso era custoso de carregar: levava muito tempo e eu estava ardendo por trazer aos ouvidos de vossa merc to agradvel notcia; de mais, para que ofender 
as vistas de um fidalgo, como vossa merc, com o espetculo do corpo ensangentado e asqueroso de um pobre diabo!
        - obrigado, - murmurou secamente Fernando.
        - E mais ainda, continuou o emboaba - para prova de que matamos, aqui esto o chapu e o punhal do homem, que entrego a vossa merc.
        - Bem averiguado o caso, talvez vocs venham me apresentar a pele do leo, que outros mataram. - Bem - disse Fernando, venham dar-mos.
        O emboaba subiu a escada e foi entregar nas mos de Fernando esses objetos. Este os examinou por alguns momentos, revolvendo-os entre as mos crispadas pelo 
dio.
        - No h neg-lo, so dele mesmo, e a est a sua firma no chapu e no punhal. Mas, com diabos! - continuou, como que rugindo dentro d' alma; - no era disto 
que eu precisava. O que eu mais ardentemente desejava era ter vivas em meu poder a cabea que este chapu cobria e a mo que brandia este punhal. - Miserveis! acrescentou 
depois, bramindo furioso, - no merecestes mais do que o meu desprezo!
        - Oh! senhor meu! murmurou o emboaba, com voz lacrimosa e trmula, curvando o joelho quase at o cho.
        - Eram seis contra um e no puderam peg-lo vivo!
        - Mas, senhor...
        - No me importune com lamrias... Diga-me c, em que alturas mataram e enterraram o nosso homem?
        - Perto da ponte, uns cem passos rio acima da banda de c. Se vossa merc quer acabar de crer, pode ir l ver com seus prprios olhos a cova em que o enterramos.
        - Sim! sim! - rugiu de novo Fernando, e comeando a examinar com mais ateno o chapu, notou que algumas ndoas de sangue, que o salpicavam, estavam coaguladas 
e denegridas e no pareciam frescas como deviam ser, se fossem derramadas naquele dia. Portanto, Fernando, que era jubilado em velhacaria, comeou a duvidar da veracidade 
da relao dos emboabas. 
        - Estes diabos querem me impingir, - pensou ele - uma furiosa mentira. Tudo me faz crer que acharam morto o paulista, e agora querem fazer comigo como o 
homem da histria da carochinha, que cortou as garras do drago, que outrem matara, e foi com elas reclamar o prmio prometido. Mas a mim no ho de embaar.
        - Retirem-se de minha presena e recolham-se s suas casas, - disse, dirigindo-se aos emboabas.
        - Mas, senhor, e a molhadura que vossa merc nos prometeu?
        - A molhadura! ah! ah! ah! retorquiu Fernando, soltando uma gargalhada feroz e satnica - molhadura por aquilo, que no fizeram!... Ora no faltava mais 
nada!
        - Mas, senhor...
        - Deixemos de parolagem, que no tenho tempo a perder. Que lhes ordenei eu? No foi que me trouxessem Maurcio, vivo ou morto? Fizeram isso? No! Portanto...
        - Ah! senhor meu! mas...
        - No h - mas - aqui! Retirem-se e dem-se por muito felizes em no mand-los aferrolhar, por terem to mal desempenhado a misso importante de que os encarreguei. 
E adeus! Passem por l muito bem!
        Ditas estas palavras, Fernando voltou as costas e desapareceu no interior da casa.
        - Imagine-se com que cara embasbacada ficaram os pobres emboabas depois de ouvirem este brusco e peremptrio despacho!... Eles, que com a mente embalada 
entre sonhos de ouro, esperando sarem dali com as algibeiras cheias de louras e reluzentes moedas, e que entretanto se viram enxotados como ces, a pau e  pedra! 
eles que ainda h pouco, contando com vinte mil cruzados em boa e luzente moeda, forjavam mil planos de vantajosssimas especulaes, viram de repente, como a leiteira 
de La Fontaine, derribados todos os seus castelos em um s momento, e, ainda para cmulo de decepo, ameaados de ferrolho e tronco!
        Largando  toa as cavalgaduras no meio do ptio, saram dali cabisbaixos, resmungando e praguejando entre si.
        Os emboabas pregaram uma mentira, que de caminho haviam combinado, e o leitor bem sabe com que intuito se abriu essa sepultura fictcia, sobre a qual se 
acharam o punhal e o chapu de Maurcio e plantada - uma cruz de madeira, tendo nos braos uma inscrio, feita a sangue: - Orai por ele.
        - Ento, meus amigos, que tal lhes parece esta? Com mil diabos! O maldito fidalgote parece que adivinha, se  que no tem parte com o diabo. Como poderia 
ele saber que ns no matamos Maurcio?! A h alguma alhada; mas em todo caso o homem nos h de pagar, seno vou queixar-me ao capito-mor.
        - Ora, boas! aquele casmurro s sabe fazer a vontade ao sobrinho! Ns  que fomos uns asnos! 
        - Por qu?
        - Porque no nos custava nada desenterrar o corpo do paulista, carregar com ele e atir-lo  cara do fidalgote! Se assim fizssemos, no podia se recusar 
a pagar-nos.
        - Era mesmo, homem! boa lembrana, mas veio tarde.
        Assim se foram queixando e praguejando, cada um para sua casa, onde foram abafar suas fadigas e despeitos nos braos de Morpheu. 

CAPTULO XVII

        Despedidos os homens da malograda diligncia, Fernando, abafando os rudos de seus passos, andou a espreitar com cuidado o estado em que se achavam as poucas 
pessoas, que naquela ocasio habitavam a parte nobre do edifcio; como achou tudo em silncio  e em repouso, desceu  casa da priso e dos troncos, onde foi ver 
os feridos e voltou para o seu quarto.
        Fernando aproveitou-se da solido e do silncio que ali reinavam para refletir sobre a nova e complicada situao em que se achava. Ningum mais do que ele, 
 exceo de Gil e Antnio, estava nos casos de compreender perfeitamente o difcil e complicado papel que Maurcio se via forado a desempenhar, no sanguinolento 
drama da noite passada. Ele julgava realmente morto e sepultado o seu terrvel rival; mas essa idia no o consolava, antes exasperava mais seu esprito cruel e 
vingativo.
        Queria ter Maurcio vivo em suas mos, preso, algemado e posto em um tronco; depois conduzir Leonor  presena do mrtir, infligir a este todos os tormentos 
fsicos e morais, vedando-lhe mesmo o dom da faculdade de falar, de maneira tal que ela ficasse convencida de que amava um facnora, um traidor s digno dos estigmas 
e maldies de todo o gnero humano e depois... entreg-lo s mos de qualquer algoz. Privado deste gosto feroz pela suposta morte de Maurcio, assentou em atassalhar29 
e enxovalhar a memria do infeliz rival, e de vingar-se do morto na pessoa de sua amante, porque ele bem sabia que Leonor, iludida por seus embustes e mentiras, 
poderia ser levada a ponto de amaldioar o nome de Maurcio e at mesmo ser constrangida a despos-lo, mas nunca conseguiria ser amado por ela.
        Se no conseguisse todos os seus perversos intentos, teria ao menos o satnico prazer de fazer estalar entre torturas e angstias o corao da pobre moa, 
e para esse fim forjava na mente as mais terrveis maquinaes, que em breve tratou de pr em prtica.
        Convinha no dar de chofre ao capito-mor a notcia da morte de seu filho: esse golpe era capaz de comprometer a vida do infeliz pai, no estado melindroso 
em que se achava. Era preciso uma mentira plausvel e engenhosa, que pudesse ser sustentada por alguns dias perante a ansiosa curiosidade do capito-mor, at que 
se achasse em estado de ouvir a triste nova; tarefa esta dificlima e quase impossvel. 
        Fernando, no crebro enfraquecido e exaltado, no podia encontrar um meio, por mais que a ele dessa tratos, no conseguiu forjar uma mentira que prestasse. 
Por fim, a poder de muito parafusar, descobriu um:
        - As mulheres em geral so mais engenhosas e astutas do que o homem, quer para o bem quer para o mal. Deixemos isto por conta de Leonor, disse ele; no h 
necessidade de poup-la, e eu tenho preciso e  meu dever mesmo comunicar-lhe a morte do irmo e dizer-lhe quem o matou. Ora, eu, alm de homem, me acho com a inteligncia 
enfraquecida pela falta de sangue e pelas terrveis comoes da noite que aqui acabo de passar. Portanto o meu recurso nico  Leonor. No h remdio seno dar-lhe 
a notcia da morte de seu irmo, ainda mesmo que lhe amargue. Devia ela tambm saber que o seu amante j no existe, e que foi ele quem matou Afonso. Ela apenas 
poder ter algum desmaio, que em poucos minutos se desvanecer, pois no combateu, no foi ferida e nem perdeu sangue. Ela adora o pai: o amor filial e a esperteza 
feminil ho de por certo inspirar-lhe meios de iludir o capito-mor por alguns dias, a respeito da morte de seu filho. No quero que o velho morra: isso de maneira 
alguma me convm. Hoje mesmo, ao cair da noite, hei de me entender com Leonor, porque hoje sou o senhor da casa: pouco me custa isso.
        Entretanto, Leonor no tinha o esprito menos ansioso que seu pai, a respeito da sorte de Afonso. O dia estava a expirar e no aparecia.
        O capito-mor todas as vezes que despertava de seus sonhos breves e letrgicos, a primeira coisa que fazia era perguntar por seu filho:
        - Que  do Afonso? Ainda no chegou? - perguntava com voz desfalecida, fitando em suas enfermeiras um olhar cheio de dvida e angstia.
        - No, senhor, mas no se inquiete: sabemos que  nenhum mal lhe aconteceu.
        Assim responderam elas pelas primeiras vezes, imaginando qualquer pretexto que pudesse explicar a demora do moo; mas, por fim, j o sol descambava e no 
havia motivo algum plausvel, que justificasse tanta demora.
        - J chegou, sim, senhor, mas fatigadssimo; apenas tomou algum alimento, perguntou por vossa merc, e, sabendo de ns que ia cada vez a melhor, recolheu-se 
a seu quarto e est a dormir profundamente. S amanh vossa merc poder v-lo.
        - Ainda bem! suspirou o velho, como se sentisse tirarem-lhe de cima do corao um peso enorme. Deixa-o descansar. Pobre rapaz! que preciso tinha ele de 
andar escaramuando esses canalhas!?
        Foi Helena que forjou essa mentira, com a qual conseguiu completamente acalmar as inquietaes do velho o qual desta vez tomou com mais apetite o alimento 
reparador, que lhe apresentaram, e pouco depois adormeceu em tranqilo e profundo sono.
        Mas Helena e Indaba no estavam ainda tranqilas, por que lhes era mister continuar a iludir tambm a Leonor, que mostrava vivos desejos de ir ver seu irmo 
mesmo adormecido. Era preciso muito ardil para desvi-la de seu intento, e foi difcil, por algum tempo, cont-la junto  cabeceira de seu pai, sem que lhe pairasse 
pelo esprito alguma suspeita sobre a iluso em que procuravam mant-la. Por fim o bom gnio, ou o anjo da guarda de Helena, inspirou-lhe subitamente uma magnfica 
idia, que de mais a mais, no era uma mentira nem mesmo um pretexto.
        - Oh! meu Deus! - exclamou ela de repente; - h que tempo estamos aqui e no nos lembramos do pobre Calixto, que l est sozinho no meu quarto!?
        - Oh! e  mesmo assim, - respondeu Leonor compungida... Desculpem-me, minhas amigas; o estado de meu pai me fez esquecer Calixto. Vo para o quarto dele, 
e se precisarem de alguma coisa, venham me dizer.
        - Pois bem, minha boa senhora, - respondeu Helena; ns j vamos; vossa merc procure no dormir, enquanto no voltarmos, que pouco demoraremos l.
        Helena e Indaba saram e se dirigiram ao quarto em que se achava Calixto, a prestar-lhe os cuidados de que necessitava. o estado deste era o mais lisonjeiro 
possvel e bem poucos cuidados reclamava; mas Helena, no s deixando-se levar pelo prazer de estar com o amante, como de caso pensado prolongando sua ausncia para 
extenuar de viglia a Leonor, a fim de que no lhe fosse possvel procurar naquela noite o irmo, que j no existia, prolongou sua ausncia at um bom pedao da 
noite. Indaba, a singela indiana, que bem mal compreendia o alcance destes manejos, prestava-se a eles com ingnua confiana, e mostrava-se to discreta e solcita 
como sua companheira.
        Quando Helena entendeu que Leonor j no podia resistir ao sono, e que de ir para o aposento do capito-mor, disse  sua companheira:
        - Agora, Indaba, eu preciso ir para o quarto do senhor capito-mor; a coitada de D. Leonor deve estar a morrer de sono; e tu tambm, minha amiga, vai para 
teu quarto descansar um bocadinho. Calixto no tem perigo; pode ficar sozinho e eu j cochilei um pouco; quando eu no puder mais virei te acordar, ouviste?
        Indaba no replicou, encaminhou-se ao seu quarto, e Helena dirigiu-se imediatamente ao aposento de Diogo Mendes.
        De feito, Leonor, acabrunhada por to longa viglia, por tantas e to dolorosas emoes, estava quase a sucumbir ao sono, e com a mo na face e o cotovelo 
encostado ao espaldar da cadeira em que se achava sentada,  cabeceira de seu pai, de quando em quando sentindo-se presa de sono invencvel, o lindo e plido busto 
resvalando da mo, que o sustinha, pendia rapidamente para o cho; despertando, porm, de sbito daquele sono apenas comeado, reerguia prontamente o colo e sacudia 
impaciente a cabea como para expelir a teimosa sonolncia que dela se apoderava. Fazia lembrar a aucena quando verga a haste flexvel ao peso do orvalho que lhe 
satura o clix e de novo o ergue, estremecendo ao sopro da virao.
        - Minha senhora, - disse Helena, chegando-se de manso a Leonor, - v para seu quarto dormir um pouco; est a morrer de sono.
        - E tu, Helena, no precisas tambm dormir?
        - Eu j dormi demais no quarto de Calixto; at foi o motivo de demorar-me tanto, deixando aqui a senhora sozinha; peo-lhe perdo...
        - Perdo de que, Helena? Eu tambm estou a cair de sono, mas queria ver Afonso antes de deitar-me.
        - Deixe disso por hoje, minha senhora; ele est a dormir um bom sono.
        - No faz mal; eu no o despertarei, quero v-lo mesmo dormindo.
        Helena ficou a princpio embaraada com esta insistncia de Leonor; calou-se por alguns momentos, at que lhe acudiu ao esprito uma feliz lembrana.
        - Mas, minha senhora, lembre-se que ele dorme no mesmo quarto com o senhor Fernando, que a esta hora l se acha acordado.
        To viva e extremosa era a afeio, que Leonor consagrava a seu irmo, imediato e companheiro de infncia, quo profunda e invencvel era a averso que sentia 
por Fernando; portanto, o receio de encontrar-se com este, principalmente naquela ocasio, sendo mais forte do que o desejo de ver seu irmo, Leonor no insistiu 
mais, porm quis ficar ali mesmo no quarto de seu pai.
        - Pois bem, Helena, pacincia! deixarei para amanh, - disse ela, e, cedendo o lugar que ocupava  cabeceira de seu pai, assim mesmo vestida, como estava, 
foi recostar-se em um espreguiceiro acolchoado e momentos depois estava profundamente adormecida.

CAPTULO XVIII

        Bem ao contrrio da noite que precedera, aquela em que nos achamos passou-se na vivenda do capito-mor tranqila e silenciosa, mas nesse sossego lgubre, 
nesse silncio tumular, que costuma suceder aos gemidos da agonia e aos gritos do desespero.
        Fernando velou at alta noite, entregue sempre a seus sombrios e sinistros pensamentos, e vendo que tudo em casa jazia em silncio e profundo repouso, assentou 
de guardar para o dia seguinte a execuo de seus planos. No importa, - pensava ele, - at  mesmo conveniente que ela repouse um pouco para ter foras que a ponham 
em estado de receber, sem grande abalo, as agradveis notcias que tenho a dar-lhe, e ficar conhecendo quem era esse amante, a quem abaixara suas vistas.
        Na manh seguinte, o dia surgiu esplndido e festival; as aves agrestes, as pombas do pomar, os pequenos passarinhos, reanimados pelo silncio e aparente 
tranqilidade que reinara durante a noite, voltaram como de costume a esvoaar, chilrear e arrulhar em torno da casa do capito-mor.
        O sol nascente, inteiramente desafrontado de nuvens, esbatia em cheio seus raios horizontais sobre os topes das serras e florestas longnquas, formando um 
vasto tapete mosqueado de luz e sombra pela extenso dos desertos. Parecia que o cu queria enviar um sorriso de paz e consolao quela habitao, teatro recente 
de tantos horrores, e asilo que abrigava agora tanta amargura e desolao, tanto luto, angstia e inquietao. 
        Leonor, ao romper do dia, percebendo que a manh despontara serena e luminosa, fora sentar-se no terrao que o leitor bem conhece e que dominava o pequeno 
jardim de flores, que Maurcio havia de propsito construdo para ela. Vinha ver se ali s auras da manh, e em presena do panorama risonho da natureza que se desenrolava 
a seus olhos, poderia acalmar um pouco as mil ansiedades que lhe torturavam o corao e as inmeras inquietaes que lhe atribulavam o esprito. Mas foi debalde: 
os pensamentos angustiosos, as sinistras apreenses, que lhe devoravam o esprito, no lhe deixavam ver nem as brilhantes fachas de ouro e prpura, que orlavam os 
horizontes, nem ouvir as vozes dos passarinhos, que esvoaavam passando diante dela, soltando alegres trinos, como procurando acord-la de seus angustiosos cuidados; 
nem sentir o delicioso bafejo da aragem matinal, que, depois de ter roado as asas pelas flores do jardim, vinha com seu hlito perfumado afagar-lhe a fronte e agitar-lhe 
brandamente os cabelos soltos em desordem pelos ombros de alabastro.  que as galas e os sorrisos da natureza no podem, so ineficazes para levar contentamento 
e paz ao seio de um corao violentamente agitado pelas angstias do presente e inquietaes do futuro. O lago, cujas guas revoltas e turvas, acabam de ser agitadas 
pelo sopro da tormenta, no pode espelhar em seu regao o azul do firmamento, nem os verdores e louanias das risonhas e vicejantes margens.
        Indiferente, pois, ao espetculo que tinha diante dos olhos, Leonor cismava profundamente, ou antes, se estorcia entre mil amarguradas reflexes, que lhe 
escaldavam o crebro, como em um acesso de ardentssima febre.
        As palavras misteriosas e sinistras, que ouvira de Maurcio: - Estais salva, e eu perdido... perdido para sempre! - acudiam-lhe de contnuo ao esprito e 
lhe ecoavam no corao como um dobre funreo, que sem cessar lhe restrugisse aos ouvidos.
        As vagas suspeitas que concebera contra a lealdade do jovem paulista alimentadas pelas prfidas insinuaes de Fernando, no tinham fora para extinguir 
um amor, que tendo sua origem no bero, tinha lanado profundas razes no corao da moa; o destino dela estava irrevogavelmente unido ao de Maurcio; o infortnio 
dele seria tambm o seu. A idia de perd-lo aterrava-a.
        - Ele perdido! perdido para sempre! - cismava Leonor, mas por que, meu Deus!?... que veio ele fazer aqui nessa noite de sangue e matana?... Seria por ns 
ou contra ns? Ah! meu Deus! quem poder me explicar este mistrio? No sei: talvez Helena e Indaba saibam... mas onde tenho eu a cabea? Essas tambm... coitadas, 
durante o combate no saram de perto de mim...
        - Ah! j sei quem me pode dizer tudo... esse moo paulista que a est ferido, o amante de Helena, oh! sim Calixto, que tomou parte no combate; esse deve 
saber de tudo.
        Assim pensando, Leonor levantou-se lentamente a fim de ir entender-se com Helena. Pretendia ir com ela imediatamente ao quarto de Calixto informa-se por 
mido do papel, para ela inexplicvel, que Maurcio desempenhara no morticnio da vspera. Mas apenas deu o primeiro passo para a nica porta que do terrao comunicava 
para o interior da casa, avista nela imvel e mudo o vulto de Fernando, que, encostado ao portal, de braos cruzados, a contemplava silencioso. Leonor estremeceu 
e recuou.
        - Que tens, minha prima? No se assuste! - disse Fernando, dando  voz uma inflexo de brandura, mas em que ressumbrava um toque de quase imperceptvel ironia. 
Daqui em diante nada temos que recear nesta casa: os malditos paulistas levaram uma boa esfrega e nunca mais tero a idia ou audcia de nos importunar.
        O perverso considerava simples importunao to deplorvel carnificina.
        - Desculpe-me, senhor, murmurou a moa, ando to sobressaltada que qualquer coisa me assusta.
        - J lhe disse que daqui em diante nada tem que temer; os traidores, uns vo longe, e outros j no existem... mas, diga-me, senhora prima, como vai meu 
tio?
        - Vai melhor, graas a Deus, e julgo que est fora de perigo... E Afonso, como vai ele? Ainda no o vi desd' essa terrvel noite...
        - Ah! Afonso... balbuciou Fernando, hesitando se deveria dar de chofre a terrvel notcia, ou se devia ir preparando de antemo o esprito de Leonor para 
suportar to doloroso golpe. Resolveu pela segunda alternativa.  preciso que ela nada ignore - refletiu ele rapidamente. Tenho de dar-lhe duas notcias bem tristes, 
duas mortes; a do irmo e a do amante. Principiemos pela segunda.
        - Mas Afonso? como vai ele? no me sabe dizer, insistiu Leonor, impacientada com o momentneo silncio de Fernando.
        - Ah! perdo, minha prima; eu estava distrado... Afonso est dormindo profundamente.
        - Sempre dormindo... desde ontem  tarde! ponderou Leonor, fitando em seu primo um olhar desconfiado.
        Fernando j tinha adivinhado que as duas prisioneiras amigas de Leonor, que estavam bem certas da morte de Afonso, tambm procuravam esconder-lhe por enquanto 
o triste acontecimento.
        - Dormiu ontem um pouco, - respondeu ele sem hesitar; - mas passou muito mal a noite; teve muita febre e s pela madrugada conseguiu adormecer.
        - Est bem; logo que Afonso acordar tenha a bondade de mandar-me chamar; estou ansiosa por v-lo. No terei tranqilidade de esprito nem o corao sossegado 
enquanto no abraar meu irmo, felizmente escapo de tantos perigos. 
        Fernando, apesar de possuir uma alma de gelo, no deixou de sentir-se algum tanto comovido com esta ltima exclamao da moa, que erguia os olhos ao cu 
como dando graas a Deus por ter-lhe salvado o irmo.
        - Pobrezinha! murmurou ele dentro d' alma; quase que no tenho nimo de revelar-lhe a verdade!... mas  preciso.
        - Agora, continuou Leonor, permita que me retire; h muito tempo que me acho aqui; preciso estar junto de meu pai.
        - Perdo, minha querida prima, atalhou Fernando; peo-lhe como um grande favor que me escute ainda por alguns momentos. Tenho coisas importantes a lhe comunicar 
e que no posso guardar para mais tarde.
        - Mas meu pai...
        - A prima no disse ainda h pouco que o seu estado no inspira cuidados?
        -  verdade, mas...
        - Helena e Indaba l no esto junto dele?
        - Esto sim.
        - Nesse caso nada h que recear; qualquer novidade que haja, elas nos viro avisar.
        - Pois bem, respondeu Leonor, no achando mais rplica nem pretexto plausvel para esquivar-se a um colquio, que tanto lhe repugnava. Vamos a isso: mas 
peo-lhe que seja breve: meu pai ainda necessita de meus cuidados.
        - Oh! minha linda prima, perdo! eu no abusarei de sua pacincia; mas j lhe disse, que as coisas que tenho a comunicar-lhe so importantes e... 
        - Coisas importantes!... Ah! meu Deus!... ainda me estaro reservados golpes mais cruis do que os que j tenho suportado nesta maldita terra! - atalhou 
Leonor, como que falando consigo mesma.
        - Resigne-se, minha prima; as circunstncias em que nos achamos so extraordinrias, e a prima, infelizmente, ainda no conseguiu bem compreend-las. Sei 
que as coisas que vou comunicar-lhe no podem ser agradveis. Eu bem quisera guard-las para mais tarde, ou antes, nunca ter necessidade de lhas contar; mas as circunstncias 
so imperiosas, e eu me acho na dolorosa coliso de dizer-lhe tudo, porque no estado em que seu pai se acha, a senhora no pode ficar na ignorncia de nada do que 
tem ocorrido desde anteontem para c.
        - E o que de mais tem ocorrido, que eu no saiba?! Oh! conte-me tudo j, ou no me diga mais nada; quer ver ainda mais torturado, do que se acha, este pobre 
corao?
        - Deus me defenda; mas repito:  meu dever contar-lhe tudo, como  tambm dever de minha prima ouvir-me com calma e resignao o que tenho a revelar.
        - E por qu?
        - Para salvar os dias de seu pai.
        - Oh! meu Deus! meu Deus! cada vez entendo menos, senhor Fernando. Pelo amor de Deus! explique-se em termos claros, e sem rodeios, - atalhou Leonor, erguendo-se 
plida, hirta e ainda mais ansiosa. - Se  algum novo golpe, que me prepara, esteja certo que o saberei suportar com a mesma coragem e resignao, com que tenho 
recebido os que j me tm fulminado.
        - No sou eu,  o destino que os tem preparado, minha senhora, - replicou Fernando com fria impavidez; - mas muito estimo que minha prima esteja disposta 
e resignada a receber sem grande abalo as novas pouco agradveis, que tenho de dar-lhe. Assim pois, queira revestir-se de toda coragem, de toda a calma, a fim de 
que possa escutar-me.
        - Continue, senhor, que o que est me faltando  a pacincia!... retrucou a moa com aquele ar senhoril, que tantas vezes fizera baixar os olhos de Fernando.
        Desta vez, porm, Fernando no se turbou, porque jogava com cartas superiores, porque tinha em suas mos os meios com os quais ia esmagar o corao da pobre 
moa.
        - Bem, continuou ele, - no fatigarei por muito tempo a sua pacincia; h de me permitir, porm, que rememore um pouco o passado.
        - Por que, senhor Fernando?
        - Porque  indispensvel. A senhora no se esqueceu, por certo, desse jovem paulista, que era o objeto de todas as suas predilees e que h tempos anda 
arredio desta casa...
        - Isso todos os paulistas andam, desde que vossa merc assentou de os perseguir.
        - Mas, senhora, no trato dos paulistas, mas de um paulista, em quem a prima depositava tanta confiana, sobre quem abaixava olhares que at pareciam exprimir 
sentimentos que no me atrevo a declarar.
        - Por que no?
        - Por que no devo: escute-me, senhora, ainda por alguns instantes...
        - Mas esses seus instantes me parecem sculos!
        - Tenha pacincia, eu vou terminar: Esse paulista, sobre quem a senhora, esquecendo o seu nascimento e a sua alta posio, se dignou baixar olhares de ternura...
        - Oh! senhor, basta! - interrompeu Leonor, com altiva impacincia. Bem sei de quem fala: por que no lhe diz simplesmente o nome? No sabe que ele se chama 
Maurcio?
        - Chamava-se! murmurou Fernando, dando a esta palavra uma sinistra inflexo.
        - Chamava-se!?... que quer dizer isso? - perguntou Leonor estremecendo e sentindo gelar-se-lhe o corao.
        - Ah! no sei, minha senhora, - respondeu Fernando, um pouco perplexo e arrependido da frase que soltara. Ainda no  chegado o momento de desfechar o golpe 
- pensou consigo; - nem tanta precipitao. Mas creio, continuou em voz alta, - dizem... que mudou de nome, como costumam fazer todos os bandidos.
        - Queira continuar, - disse Leonor, desafrontada da sinistra impresso que lhe causara a frase - chamava-se, - que Fernando a seu pesar e irrefletidamente 
proferira, com inflexo bastante significativa.
        - Pois saiba que esse homem, - continuou Fernando, - em quem a senhora depositava tanta confiana, com quem desperdiava tanto afeto, foi o primeiro e talvez 
o nico causador de todas as calamidades que nos tm afligido.
        - Ele? Maurcio?!
        - Sim, senhora. Foi ele que, tendo concebido um louco amor  prima, e tendo perdido a esperana de obter, por meios legtimos, a posse do objeto amado, no 
recuou diante de meio algum para conseguir seu nefando projeto... Foi ele quem animou, aulou e organizou contra ns essa malta de aventureiros paulistas, que desde 
que aqui chegamos tem contentemente perturbado o nosso sossego, posto em perigo no s a honra e a propriedade, como tambm a vida dos portugueses. Foi ele, enfim, 
o principal autor dos acontecimentos da noite de anteontem para ontem, dessa noite de sangue e de horrores.
        - Ele?! No  possvel, senhor Fernando.
        - Ele, sim! Escute-me, senhora. Depois de ter excitado e organizado o levante, ps-se de fora e no quis aceitar o comando do assalto.
        - Que fez ele ento?
        - Ficou de parte espreitando o movimento em que os paulistas, levariam tudo de vencida, para depois de destruda e afastada toda a resistncia, ento se 
arrojar sem perigo pelo interior desta casa e rapt-la, minha prima...
        - Raptar-me! replicou Leonor.
        - Sim, rapt-la! - insistiu Fernando - e lev-la...
        - Para onde?
        - Eu sei l! Para os seus antros de bandido, por certo.
        - Mas no posso acreditar nisso, porque ele chegou at a porta de meu quarto, onde eu estava rezando com Helena e Indaba, disse-me algumas palavras e retirou-se 
sem manifestar a menor inteno de nos fazer mal.
        - Porque j no podia faz-lo! E que palavras foram essas que lhe disse?
        - Foram simplesmente estas: Senhoras, no roguem mais por si, nem pelo senhor capito-mor, que esto salvos; roguem por mim que estou perdido... perdido 
para sempre.
        - Ah! pois a prima no est compreendendo o sentido dessas palavras?
        - Creio que sim; essas palavras querem dizer que ele para salvar-nos, perdeu-se a si.
        -  que ele j se achava perdido. Eu vou explicar  prima as maquinaes infernais de que esse homem prfido lanou mos, em vo, para conseguir seus fins 
sinistros. Vendo que no fim da refrega, os paulistas se achavam vencedores e quase de posse desta casa, percorreu o arraial em procura de alguns portugueses, alegando 
o pretexto de nos vir proteger contra os agressores. Ajuntou alguns e apresentou-se aqui com eles, combatendo contra seus patrcios e amigos!
        - Deveras, senhor Fernando!...
        - Escute ainda. Matou alguns deles, ajudado por esses portugueses, a quem disse que vinha salvar o capito-mor e sua filha; mas estes vendo que ele comeava 
a combater contra ns, voltaram-se contra ele e por ns. De outro lado os paulistas, que havia muito desconfiavam de sua traio, derrotados pelo reforo que Maurcio 
nos trazia, carregaram tambm sobre ele, at que enfim o infame, abandonado de todos, se viu obrigado a sair daqui, saltando pela janela, como um ladro que era. 
Os nicos que lhe ficaram fiis foram o tal Gil, to bom como ele, e o velhaco do ndio Antnio, que tambm no passa de um traidor, da mesma laia daquele Tiago, 
que fiz enforcar a no quintal... Se no acredita em mim, e pensa que quero iludi-la, v perguntar aos prisioneiros, aos feridos que aqui se acham, quer paulistas, 
quer portugueses e eles lhe diro se eu minto.
        Leonor ficou aniquilada sob o peso destas terrveis revelaes, que alis tinham a aparncia da mais completa possibilidade.
        Maurcio, Gil e Antnio, os trs entes em quem depositava a maior confiana, com cuja lealdade sempre contara, eram os principais autores de todos os infortnios 
que a acabrunhavam!... repugnava-lhe acreditar em tanta perfdia e malvadez!
        Fernando leu na fisionomia alterada de Leonor a profunda e dolorosa impresso que suas palavras tinham produzido em seu esprito.
        - Tem confiana ainda na lealdade, na dedicao e no amor de semelhante homem, minha prima?...
        - No sei... no sei o que responder-lhe...
        - Ainda no sabe?!... pois vai saber j. Afonso, seu irmo, j no existe, e quem o matou foi...
        - Foi quem?
        - Foi Maurcio.
        - Quem lho disse?...
        - Estes olhos, que o viram cair a meu lado, traspassado pela espada de Maurcio!...
        - Oh! meu Deus! ser possvel! exclamou Leonor com voz sumida e angustiada, e sentindo seus joelhos vacilarem, e sua cabea atacada de vertigem, ia a cair, 
se Fernando, acudindo de pronto, no a sustivesse, colocando-a na cadeira de braos em que h pouco se achava sentada.
        Fernando correu a chamar Helena para ficar junto da senhora; e esta, com cheiros e afagos, fez Leonor voltar a si.
        - J no sofro nada, senhor, foi apenas uma vertigem, que me acometeu, - retorquiu Leonor, esforando-se por assumir toda a sua energia, e procurando abafar 
sob o peso do ressentimento e indignao, de que se achava possuda contra Maurcio e seus amigos, o pesar, que lhe ralava o corao pela notcia da morte de seu 
irmo. 
        - Se vossa merc tem ainda mais alguma calamidade a me dizer, pode continuar sem receio de afligir-me; afiano-lhe que no fraquejarei mais, pois que em 
meu corao no h mais uma s fibra que j no tenha sido ferida dolorosamente.
        -  verdade; e perdoe-me se a tenho magoado tanto; era necessrio dizer-lhe tudo, o que fao por dever, mas com muito pesar. E j que minha prima se acha 
disposta a ouvir-me, peo mais alguns instantes de ateno.
        Agora que a prima conhece bem quem era esse homem que, com diablica habilidade, soube traz-la iludida por tanto tempo; agora que a prima quase viu com 
os prprios olhos a abominvel traio com que pretendia pr cmulo s maquinaes e perfdias, que de longa data tece em derredor de ns, atrever-se- ainda a interceder 
por este miservel bandido? Querer ainda desviar de sua cabea o castigo ignominioso que merece?
        - Que pergunta, senhor Fernando! De hoje em diante posso eu ter no corao seno desprezo e asco pela memria desse homem, e na boca outras palavras, que 
no sejam de maldio para seu nome?
        - Bem, senhora; tendes razo; mas agora sou eu quem vos pede: - tende piedade dele.
        - Piedade dele, e por qu?
        - Porque agora j nada pode influir sobre seu destino o dio da senhora nem de quem quer que seja.
        - No o entendo, senhor.
        -  escusado odiar e amaldioar um morto.
        - Um morto! Maurcio  morto?! Esta exclamao irrompeu dos lbios de Leonor com um estremecimento involuntrio; o sangue refluiu-lhe todo ao corao e seu 
rosto j plido cobriu-se de uma lividez plmbea de cadver.
        O amor, que ainda h pouco parecia ter-se apagado repentinamente naquele corao ao sopro da indignao, lanou novas chamas ao choque da terrvel idia 
da morte do amante. Mas o pundonor, a dignidade ofendida, o pejo reagiram logo com toda sua energia no esprito altivo de Leonor. Recalcou no ntimo d' alma essa 
paixo teimosa, que lhe turbulava a mente, e conseguiu triunfar do desfalecimento, que de novo a ameaava.
         assim que, num grande incndio, uma parede se desaba, apaga uma chama, que momentos depois renasce ainda mais violenta e crepitante, para ser ainda outra 
vez abafada debaixo de novos escombros. 
        - Oh! meu Deus! exclamou Fernando, ao notar a alterao da fisionomia de Leonor, fingindo-se assustado. Perdo, minha prima... Quer desfalecer de novo... 
quando me deu segurana de ouvir com esprito calmo?...
        - No se aflija, senhor; no desfalecerei mais, j o disse. Falando assim, Leonor levantava-se, firme e altiva como uma palmeira, que depois de vergada pelo 
furaco se ergue de novo, balanceando-se ufana, na atmosfera serena, como que desafiando novas tempestades. Seus olhos se encheram de brilho e suas faces se tingiram 
de um carmim afogueado, porque uma nova indignao vinha incendiar-lhe as faces.
        Acreditava em tudo quanto Fernando lhe dizia, porque as provas a estavam bem claras e irrecusveis; mas tambm compreendia perfeitamente a inteno perversa 
com que Fernando, de um modo que no podia disfarar aos olhos de Leonor, se comprazia em dar-lhe aquelas funestas e lgubres notcias. Se deixava de amar Maurcio, 
no podia deixar de detestar Fernando, por quem sempre sentira a mais decidida averso e cujo carter abjeto e atroz bem conhecia.
        - O que  preciso fazer agora, senhor Fernando? - perguntou Leonor, terminando suas frases incisivas e fitando um olhar no menos incisivo em Fernando, que 
se viu forado a baixar os olhos diante daqueles, que tantas vezes o tinham fulminado.
        - Agora, - respondeu Fernando, hesitando e um pouco perturbado, - agora  mister ocultar do melhor modo que for possvel aos olhos do senhor capito-mor 
a morte de seu filho, ao menos por alguns dias; no estado melindroso em que ele se acha, essa notcia, dada de chofre, pode ser fatal, e, ai de ns! se ele nos faltar! 
 preciso que ele viva e que fique conhecendo agora os seus verdadeiros amigos, a fim de que possa melhor governar estas minas, que foram confiadas a seus cuidados. 
        - No se inquiete a esse respeito, senhor; Helena, que aqui est, e Indaba j tomaram a si o cuidado de ocultar essa triste nova no s a meu pai como tambm 
a mim, que, se no fosse o senhor, at agora a ignoraria.
        - Ah! fizeram bem, - disse Fernando; mas... que traa deram para conservar na iluso meu pobre tio?
        - Ns, acudiu Helena, - lhe temos feito acreditar que o senhor Afonso chegara ontem muito tarde, depois de ter perseguido at muito longe os fugitivos, e 
que por muito fatigado se acha dormindo.
        - Dormindo,  verdade... disseste a verdade, - suspirou o fingido secretrio de Diogo Mendes, - e dormindo o sono eterno!... Mas, minhas donas, esse sono 
no pode durar sempre...  preciso inventar mais alguma coisa. O capito-mor, por estes dois ou trs dias, no pode levantar-se sem perigo de se abrirem suas feridas, 
ainda mal cicatrizadas, e ento se lhe chegar ao conhecimento ou menos tiver desconfianas...
        - Mas o que havemos de dizer, - respondeu Leonor, cheia de susto e solicitude.
        - Lembra-me uma coisa.
        - Qual ?
        - Digam-lhe que Afonso levou uma queda do cavalo, destroncou um p, e se acha impossibilitado de sair da cama por estes quatro ou cinco dias.
        - Bem lembrado! - exclamou Helena; eu me encarrego de lhe fazer acreditar tudo isso, e assim, nem um nem outro podendo levantar-se da cama,  fcil sustentar 
o engano...
        - Mas, replicou Leonor, e quando meu pai poder se levantar e quiser ver meu irmo?
        - Ento, atalhou Fernando, trataremos de urdir mais alguma... porm vejo que por fim tudo ser intil. Ele, tarde ou cedo, desconfiar e ento no teremos 
remdio seno dar-lhe a notcia com toda a precauo.
        Leonor, plida e ofegante, despediu-se de Fernando, e, encostando-se ao brao de Helena, retirou-se.
        Primeiramente foram ao quarto do capito-mor, onde Indaba se achava junto a sua cabeceira. O capito-mor dormia; Leonor tomou o lugar da ndia, que saiu 
com Helena, a fim desta dar-lhe conta da conversao que tinham tido sobre o meio combinado para manter o capito-mor mais alguns dias na iluso em que se achava, 
a respeito da morte de Afonso.
        - Que insensvel e soberba mulher! exclamou Fernando, apenas achou-se sozinho. Nem mesmo quebrantada por tantos sustos, fadigas e infortnios, dobra aquela 
cerviz indmita e altaneira... Mas se pouca ou nenhuma esperana me resta de por ela ser amado, fica-me ao menos a consolao de ver-me plenamente vingado de suas 
tolas esquivanas e desdns. 

CAPTULO XVIII

        A muito custo, Fernando e Leonor, de combinao com as duas prisioneiras, conseguiram, durante dois dias ainda, iludir o capito-mor sobre o fim trgico 
de seu filho. Neste piedoso intento, as trs moas eram inspiradas por sentimentos puros e humanitrios; Leonor, por um extremoso amor filial, e as outras, no s 
por ela, pela ternura e dedicao  sua jovem e boa ama, que lhes tinha sabido inspirar afeio, como pelo natural impulso de seus generosos e singelos coraes. 
O mesmo no acontecia a Fernando, o qual, cumpre dizer em abono da verdade, se mostrava algum interesse pela vida de seu tio, no era seguramente por esprito de 
amizade e gratido, mas sim porque essa vida interessava muito a seus planos ambiciosos. Desejava muito a mo de Leonor, no tanto para ser genro de seu tio, como 
para ser seu herdeiro, e herdeiro no tanto da fortuna, como da vantajosa posio e poderio de que gozava.
        Por vezes o capito-mor lhe dissera: - Fernando, eu no pretendo ficar por muito tempo neste cargo, que me  mui penoso, e contrrio a meus gostos, e no 
vejo ningum melhor do que tu para suceder-me nele; havemos de arranjar isso.
        Ora Fernando, que alm de ambicioso era dotado de habilidade, perspiccia, e cultivada inteligncia, podia com razo, aspirar no s a esse como a outros 
mais altos cargos, e os sonhos dourados de sua ambio elevavam-se at o governo de uma capitania. 
        Mas, para que lhe fossem abertas de par em par as portas desse porvir esperanoso, era mister que primeiro obtivesse a mo de Leonor. 
        Sem o grande crdito e decidida proteo do capito-mor, que gozava de bastante influncia junto ao governo da metrpole, bem difcil, seno impossvel, 
se lhe tornaria a realizao de todos esses sonhos de grandeza, prosperidade e elevao. Fernando, porm, como sabemos, nenhuma esperana nutria de que Leonor anusse 
de bom grado a dar-lhe a mo de esposa; mas, nem por isso desistia de sua pretenso, confiado no ascendente e autoridade que o capito-mor exercia sobre o esprito 
de sua filha e na certeza que tinha que este no desaprovava, antes desejava com veras, esse consrcio.
        Embora a tivesse de levar constrangida ao altar, isso no repugnava a sua conscincia pouco escrupulosa.
        Apesar dos encantos e formosura de Leonor, no era o amor, mas sim a ambio, o mvel principal do procedimento de Fernando. At ento o cime, a inveja, 
o despeito de se ver suplantado por um rival de condio obscura, que tantas vezes o tinha humilhado, supria a violncia da paixo e lhe inspirava todos esses atos 
de perseguio e crueldade, que deram em resultado a sublevao dos paulistas.
        Em negcios de amor, a inveja que toma o nome de cime,  a mais feroz de todas as paixes. Agora, porm, que supunha morto o seu feliz competidor e julgava 
removida a principal dificuldade que se opunha a seus projetos, s cuidava em afagar os seus sonhos ambiciosos, tratando de dar-lhes pronta realizao.
        Ao passo que os habitantes da casa do capito-mor, cuja inquietao e desconfiana cada vez mais se aumentavam, viam-se em torturas para ocultar-lhe a morte 
de Afonso, Helena no menos embaraada se achava para impedir que viesse ao conhecimento de Fernando que Calixto, graas aos cuidados e solicitude dela, ali se achava 
com eles debaixo do mesmo teto.
        Era foroso que Fernando ignorasse esse fato, porque sendo Calixto um dos mais audaciosos e implacveis inimigos dos emboabas e um dos mais exaltados chefes 
do levante, no podia ser poupado por Fernando, que havia jurado a morte de todos os paulistas do territrio das Minas, sujeito  jurisdio de Diogo Mendes. Entre 
os cabeas, que eram Maurcio, Gil, mestre Bueno, Antnio e mais alguns estava includo e nem podia deixar de assim ser, o nome de Calixto.
        Bem se pode imaginar o continuado susto em que devia andar a pobre Helena, os incessantes cuidados e preocupaes, que devia tomar, a fim de que seu pobre 
amante escapasse s vistas desconfiadas e perscrutadoras de Fernando, at que ele se restabelecesse e se achasse em estado de pr-se a salvo.
        Felizmente para ela, os afazeres e cuidados de que Fernando se achava encarregado, durante a enfermidade do capito-mor traziam-lhe o esprito bastante preocupado 
e no lhe davam tempo de prestar muita ateno ao que se passava dentro de casa.
        Estava-se j no quinto dia, depois da terrvel noite do assalto. Fernando, Leonor e suas duas companheiras j no sabiam mais o que inventar para acalmar 
as contnuas e crescentes apreenses do capito-mor a respeito da sorte de seu filho.
        Era pela manh; Leonor e Helena, tendo deixado Indaba junto ao leito do ferido, que ainda dormia, se achavam debruadas sobre o parapeito da varanda que 
dava para o grande ptio, conversando misteriosamente, excogitando entre si os meios de manter, ao menos por mais aquele dia, o engano em que se achava o capito-mor 
e esconder aos olhos de Fernando a existncia de Calixto dentro daquela casa.
        - Mas o que esto aqui a contemplar? - perguntou ele, depois de se ter informado do estado de seu tio e procurando entabular conversao com as duas moas. 
 bem triste e sinistra a memria, que vai deixar nos anais da histria destas minas, o terrvel acontecimento de que foram teatro este ptio, esta varanda e aquele 
salo.
        -  verdade, senhor, mas para que rememorar to tristes coisas?...
        - Para qu?... Enquanto o morticnio aqui cometido no for expiado, enquanto as vtimas, tanto de paulistas como de portugueses, aqui imoladas pela cobia 
infrene e a treda30 celerata de alguns bandidos desalmados no forem cabalmente vingadas, no podemos nem devemos esquecer o feroz ultraje que esteve a ponto de 
nos aniquilar. O sangue das vtimas, que ainda ensopa estes lugares, est clamando vingana.
        Ouvindo estas terrveis palavras, Helena, pensando no seu Calixto, sentiu gelar-se-lhe o sangue nas veias.
        - Mas, senhor, esses desgraados a esta hora devem estar bem cruelmente punidos; vencidos e perseguidos a ferro e fogo, quantos deles no tero tido a sorte 
do senhor Maurcio.
        - Cala-te, boa menina; no  de ti, que perdeste teu bom e fiel amante, traspassado de golpes vibrados pela mo de seus tredos companheiros; no  de ti, 
que se devia esperar interesse e comiserao por esta malta de facnoras... Vem - continuou ele, tomando Helena pela mo, - quero te mostrar o lugar em que teu pobre 
Calixto caiu crivado de golpes de seus patrcios. Foi aqui, continuou ele, parando junto  porta do salo. Vendo que Maurcio, seguido por alguns portugueses, os 
atraioava, ps-se de nosso lado com todos os paulistas que o acompanhavam. A dupla traio de Maurcio, que por um nunca visto requinte de perfdia, pretendia embair 
a ambos os partidos, ps-nos a todos em uma confuso horrvel, combatendo cada qual a esmo, sem saber qual era o amigo e qual o inimigo. Ao grito de Calixto - A 
ele, meus amigos!... morra Maurcio! morra o traidor!, paulistas e portugueses, todos voltaram-se contra Maurcio e contra os poucos que lhe ficaram fiis. D. Leonor, 
Helena, acreditem-me: foi esse brioso e denodado moo quem, com seu procedimento leal e corajoso, nos salvou a todos ns, habitantes desta casa, das mais tremendas 
calamidades! Combateu a nosso lado, como um leo furioso, at que, crivado de golpes e esvaindo-se em sangue, caiu, por um golpe de espada que Maurcio lhe desfechou, 
e que quase lhe cerceou o brao direito!...
        Leonor, que maquinalmente acompanhara Fernando e Helena, escutava transida de horror, aquela temerosa narrao,  sentindo, entretanto, no fundo da alma grande 
repugnncia em acreditar que Maurcio, aquele generoso e leal mancebo, que durante tantos anos nunca desmentira o elevado conceito em que ela e seu pai o tinham 
tido, fosse capaz de tanta infmia e de to atroz perfdia!...
        Helena, porm, que tinha pensado todos os ferimentos de Calixto e que bem sabia que, alm de alguns golpes leves, s tinha no brao direito uma forte contuso, 
comeava a duvidar da veracidade da narrao de Fernando. Este bem poderia estar mentindo inconscientemente, pois, no ardor do combate, talvez se enganasse sobre 
a gravidade do golpe com que Calixto cara inanimado.
        Mas a filha de mestre Bueno, sempre prevenida contra Fernando, cujo carter embusteiro e perverso de h muito conhecia, comeou por desconfiar e duvidar 
de tudo quanto ele dizia.
        - Deixa estar - refletiu ela; - quando Calixto se achar restabelecido, ele h de me contar tudo por mido, tudo quanto se passou.
        - Foi aqui mesmo tambm, - continuou Fernando, - que vosso infeliz irmo caiu com a garganta traspassada por uma estocada que Maurcio lhe atirou; deu apenas 
alguns passos vacilantes e foi cair sobre o cadver de Calixto, enlaando-lhe o colo com um dos braos estendidos... Pobres moos!... era um espetculo pungente 
capaz de comover o corao mais feroz!... Nos ltimos instantes da luta tinham combatido ao lado um do outro, contra o mesmo inimigo, e parece que, ao morrer, quiseram 
reconciliar-se na morte, esquecendo os dios e rivalidades da vida, abraando-se e misturando seu sangue no cho da luta. Oh! mil maldies so poucas para o nome 
do autor dessa to dolorosa e sanguinolenta cena! Quem dera no tivesse ele morrido para sofrer o castigo ignominioso que merecia por seus crimes!
        Falando assim, Fernando procurava esmagar o corao de Leonor, aviltando e estigmatizando aos seus olhos, o homem que havia amado.
        Quanto a Calixto e Helena, sua inteno era inteiramente diversa.
        - Consola-te, minha menina; tu tambm perdeste o amante, mas ele morreu heroicamente, combatendo pela boa causa e salvando toda uma famlia das garras de 
um facnora. Quanto me di no ter Calixto sobrevivido ao menos um dia ao seu falso e traidor amigo; saberia ao menos que este no pode esquivar-se ao merecido castigo, 
em conseqncia dos bem certeiros golpes que ele lhe desfechou, indo morrer miseravelmente, abandonado e amaldioado por todos. A ao generosa e herica, com que 
Calixto rematou seus dias, purifica, a meus olhos, a sua rebeldia e as imprudncias que cometeu, levado pelo ardor da mocidade e pelas instigaes de seus perversos 
conselheiros. Assim no tivesse ele sucumbido nessa luta feroz; com que prazer eu e meu tio lhe teramos perdoado, atentos a sua pouca idade e o eminente servio, 
que nos prestou nos seus ltimos momentos; seria ele o nico excludo da perseguio e do suplcio destinado a todos os seus companheiros.
        Ao ouvir estas palavras, Helena sentiu um suave eflvio de esperana banhar-lhe o corao, vendo afastar-se de cima da cabea de seu amante a nuvem sinistra, 
que a ameaava.
        - Se eu agora declarasse que ele se acha so e salvo dentro dessa casa... - pensou ela. 
        Mas o conhecimento que tinha do carter aleivoso e refalsado de Fernando, lanou logo uma sombra nesse reflexo de esperana que comeava a expandir-se dentro 
em sua alma; hesitou e fitou seus grandes olhos meigos e negros em Leonor, que logo compreendeu essa muda interrogao.
        - Pobre moo!... continuou Fernando, sempre no mesmo tom de mgoa e compuno; - no s o perdoaramos, como mesmo, se ele quisesse mostrar-se dcil, como 
foi valente e generoso, procuraramos os modos de o tornar feliz, casando-o com a sua bela Helena, para que nos seus braos esquecesse os vexames que sofreu por 
causa de Afonso; era uma reparao que de bom grado faramos em homenagem a sua memria.
        Rendendo este tributo de comiserao, entusiasmo e gratido  memria do amante de Helena, que ele supunha morto, Fernando no deixava de ser sincero at 
certo ponto; mas o seu principal intuito era captar a simpatia e benevolncia da filha de Bueno, porque bem conhecia a ntima e recproca afeio que a ligava a 
Leonor, desde que estava ali junto dela, afeio que cada vez mais se fortalecia e estreitava, e que tinha feito de Helena a ntima amiga e confidente de sua ama. 
        Se Fernando conseguisse dissipar a pssima impresso que suas crueldades e perseguies contra seus parentes e patrcios tinham deixado no esprito da jovem 
paulista, e tornar-lhe o nimo favorvel a seus intentos, acharia nela, por certo, um poderoso auxiliar para a realizao de seus projetos.
        Leonor, a princpio vacilante sobre o conselho que devia dar a sua amiga, animada agora com as ltimas palavras de Fernando, que pareciam repassadas de sincera 
compuno, tomou uma resoluo e com um aceno de cabea afirmativo animou-a a fazer a declarao que lhe pairava nos lbios.
        - Pois bem, senhor - comeou Helena -  bem agradvel para mim o bom conceito que faz do infeliz Calixto. Diz vossa merc que, se ele tivesse escapado da 
matana de outro dia, nem o senhor capito-mor, nem vossa merc lhe haviam de fazer mal algum...
        - Era preciso que fssemos uns vilos ingratos para lhe fazer mal. Se, por felicidade, ele tivesse escapado, mandaria procur-lo, estivesse onde estivesse, 
e o faria recolher a esta casa, para aqui ser tratado como merece.
        - Oh! senhor! exclamou Helena, - o que vossa merc est dizendo  para mim uma grande felicidade!
        - Maior seria ainda, menina, se ele ainda fosse vivo; verias at que ponto chegaria a minha generosidade para com ele, em honra de Afonso, que foi seu rival 
na vida, e que, tudo faz crer, morreu seu amigo.
        - Pois saiba vossa merc que Calixto no ...
        - No  o qu, menina? - acaba...
        Helena interrompeu-se, sem ousar dizer o resto; ainda tinha n' alma um resto de receio e desconfiana.
        Helena resolve responder por ela.
        - No  morto; disse ela resolutamente.
        - No  morto!? - exclamou Fernando com desagradvel surpresa, que no pode disfarar , e, recuando um passo, franziu o sobrolho com expresso tal, que fez 
estremecer as suas meninas.
        Mas Leonor, que por seu assentimento, tinha induzido sua amiga a fazer aquela perigosa revelao, tomou a si, com a deciso e sobranceria que lhe era natural, 
toda a responsabilidade do passo imprudente que haviam dado.
        - Sim, senhor, no  morto - disse ela, voltando-se para Fernando com olhar altivo e gesto decisivo. - No  morto e acha-se aqui dentro desta casa, so 
e salvo. Se vossa merc no cumpre a palavra, que h pouco deu, de que se ele estivesse vivo nenhum mal lhe faria, e at lhe daria gasalhado e proteo,  indigno 
do nome de fidalgo, que tem, e no passa de um vilo ingrato e refalsado, em cujas palavras ningum mais poder acreditar.
        - Mas quem lhe disse, minha prima, que eu desejo fazer mal a esse moo? - replicou Fernando, inteiramente desconcertado com a nova de que Calixto ali estava 
vivo e com o tom imponente e imperioso que tomara Leonor. Quando tambm dei eu ocasio  minha prima de duvidar de minha palavra?
        - Desculpe-me, senhor; pareceu-me, pelo seu ar, que lhe desagradava a notcia que lhe dei; a desconfiana, o receio e o interesse que tomo por esse pobre 
moo, tornaram-me suspeitosa...
        - Essa desconfiana no deixa de ofender-me, minha senhora; mas  digna de desculpa. Temo-nos achados enredados em um labirinto tal de intrigas, dio e traies, 
que  lcito at duvidar dos santos e dos anjos. Mas  quase incrvel... como pode salvar-se esse moo, que eu julguei realmente morto, pois o vi a meu lado crivado 
de golpes e esvaindo-se em sangue, cair hirto e imvel junto a mim, e que meia hora depois ainda fui encontrar estendido no mesmo lugar e na mesma posio, sem dar 
o menor indcio de vida, como tu e Indaba presenciastes. 
        - No sei, senhor; - respondeu Leonor, mas o certo  que est vivo e fora de perigo.
        - Fui eu que o salvei, senhor - acudiu Helena - e peo-lhe perdo...
        - Bem, boa menina; em vez de repreend-la, louvo muito a sua ao e nem poderia levar-lhe a mal o ter salvado aquele que deu ocasio a que todos nos salvssemos. 
- E onde se acha ele?
        - Aqui mesmo nesta casa, no quarto de Helena.
        -  preciso que eu o veja, mas ficar para logo... vem-me agora ao esprito uma excelente lembrana...  mais um ardil de que podemos lanar mo, com sucesso, 
para manter o capito-mor na iluso, em que se acha, sobre a sorte de seu filho.
        - Qual ? perguntaram as duas moas ao mesmo tempo.
        - Calixto, que se julgava morto, agora redivivo, vai prestar-nos ainda um bom servio a bem do pronto restabelecimento do seu pai, D. Leonor... dando-lhe 
tempo para vigorar-se a fim de poder receber sem perigo a dolorosa nova, que temos de lhe dar.
        - Mas como? explique-se, senhor.
        - O capito-mor talvez amanh mesmo se ache em estado de poder levantar-se do leito e percorrer a casa. Seu primeiro cuidado, e ser impossvel impedi-lo, 
, sem dvida, o de ir ao leito de seu filho.
        - Que achar vazio - exclamou Leonor, suspirando.
        - Escute, senhora; no achar vazio. Farei transportar Calixto para esse leito, que  no meu quarto, como sabem; levaremos l o capito-mor e teremos o cuidado 
de ter o quarto com muito pouca luz. No porte, Afonso e Calixto eram iguais; as feies, no escuro no se distinguiro. Calixto ou melhor, Afonso estar dormindo 
e faremos ver ao capito-mor, com vivas instncias, que no convm despert-lo, pois que o sono, a tranqilidade de esprito e a imobilidade so as principais condies 
para seu pronto restabelecimento. Ser muito conveniente manter o capito-mor no seu engano ao menos at amanh. Esta idia agradou muito no s a Leonor como a 
Helena, e esta tratou logo de ir prevenir a Calixto do lutuoso e singular papel, que tinha de fazer, isto  - de fingir-se adormecido a fim de passar por outro, 
que realmente dormia o sono eterno.

CAPTULO XIX

Com este ardiloso, mas inocente embuste, que foi perfeitamente executado graas ao interesse, que as pessoas nele envolvidas tinham em seu bom resultado e pleno 
sucesso, as desconfianas e inquietaes de esprito do capito-mor se acalmaram durante aquele dia, dando lugar a que dormisse tranqilamente durante a noite que 
se lhe seguiu.
        Mas, no outro dia, j no era mais possvel e nem convinha entret-lo naquela iluso, que no se podia perpetuar.
        Fernando, em vista do estado, j fora de perigo, em que se achava o capito-mor, de acordo com Leonor e Helena, entendeu que era tempo de desengan-lo; mas, 
a despeito das precaues que tomaram, dos rodeios que empregaram para no lhe dar de chofre e de um modo brusco a terrvel nova, esta no deixou de afligi-lo de 
um modo assustador e caiu em profundo abatimento. Afonso e Leonor eram seus dolos; um brilhante futuro para ambos era o seu sonho de ouro, eram as flores que lhe 
adornavam as cs; um deles via esvaecer-se para sempre; o outro estava ainda sujeito a tantas vicissitudes?...
        Acabrunhado pela dor, e imerso no mais profundo desalento, encerrou-se em seu quarto, e por dois dias esteve prostrado no leito, recusando todo o alimento, 
e no querendo falar a ningum seno a Leonor, que em vo empenhava todos os esforos, empregava todos os recursos, que lhe inspirava a ternura filial, para consol-lo 
e induzi-lo a resignar-se a viver.
        - Meu pai - dizia-lhe ela, com as lgrimas nos olhos - se a vida lhe  um fardo insuportvel, tenha ao menos piedade de sua filha. Que ser de mim, se vossa 
merc me faltar? Qual ser o meu amparo no meio deste serto, rodeada de gentios e de homens turbulentos e ferozes talvez mais ainda que os gentios?...
        A dor que acabrunhava o corao do capito-mor com a perda de Afonso era extraordinria, porm vendo a aflio que seu estado causava a sua filha, nica 
afeio sincera que lhe restava, procurou disfarar a mgoa; posto que essa resignao no fosse verdadeira, contudo as palavras de Leonor o enterneceram e no pode 
o capito-mor impedir que lhe brotassem dos olhos algumas lgrimas. As splicas da filha foram um blsamo para sua alma, suavizaram-lhe as agruras do sofrimento.
        - No, disse ele, mal erguendo-se e um tanto mais tranqilizado, - eu quero, eu preciso viver, visto que ainda me resta em ti um amparo e um consolo nas 
minhas aflies. No te inquietes por minha causa; foi apenas uma recada de que eu espero sarar breve... Depois do choque que levei com a morte do meu pobre Afonso 
e de to atrozes aflies, que me tm dilacerado a alma, no pode haver mais infortnios que eu no saiba superar com resignao e coragem... Assim, Deus me d sade 
para viver mais alguns anos e fazer ver a esses paulistas quanto vale a vida de um portugus!
        O capito-mor exaltava-se um pouco ao lembrar-se dos Paulistas, que eram os nicos causadores de seus tormentos e aflies.
        - No, minha filha, continuava ele,  preciso vivermos, para tirarmos uma desforra e salvarmos a nossa honra, que tem sido muito aviltada.
        - Ah! meu Deus! exclamou Leonor, - ainda meu pai fala em vingana!? Eu que cuidava j acabadas essas lutas...
        - Assim  preciso, minha filha. Que diro de mim, ao depois, quando souberem que fomos batidos, e destroados por um grupo desses paulistas, sem tirarmos 
uma desforra e lavarmos a nossa honra?
        A esse desejo de vingana, que comeava a despertar na alma bonach de Diogo Mendes, excitavam-no a morte fatal de seu querido filho, que ali se achava sepultado 
e as narraes, s vezes falsas e exageradas, que ouvia de seu sobrinho. Antes com a presena de Leonor, que sempre a seu lado o consolava, do que mesmo com os remdios, 
que bem pouco efeito produziam, foi ele experimentando melhoras, at que chegou a suportar com mais coragem e fortaleza outros revezes e contratempos que lhe estavam 
reservados.
        No havia, felizmente, outro fato que o tivesse abalado tanto como o da morte de seu caro filho; os outros revezes, bem que fossem numerosos, consistiam 
na mor parte em danos e prejuzos da fazenda: - os escravos que fugiram, aproveitando a ocasio do ataque e o nmero diminuto de portugueses, que bem pouco podia 
valer-lhe; os longos barraces que formavam o ptio da fazenda e que naquela noite haviam se convertido em chamas; os portes desmantelados e mil outros destroos 
que havia deixado aquela horda no seu arremesso devastador. Os portugueses que ainda restavam, uns se achavam convalescendo, outros, que menos sofreram no conflito, 
tinham o brao quebrado ou o p destroncado, talvez efeito de alguma escaramua e alguns chegaram a ficar desfigurados por cicatrizes e brechas, que causariam riso 
a outros que no fossem o capito-mor e sua famlia.
        Tambm o arraial ficara meio despovoado, no havia permanecido a nem um s paulista: as casinhas e algumas tendas conservavam-se fechadas e toda aquela 
povoao se via ento entregue ao mais completo abandono. Vendo-se s com esse punhado de homens invlidos, que se achavam em redor da fazenda, o capito-mor e seu 
sobrinho receavam que os paulistas, conhecedores disso, voltassem a completar a sua obra de devastao. 
        Embora j tivesse decorrido mais de um ms depois de to desastroso acontecimento, tudo parecia-lhes revelar que um novo ataque mais decisivo ia perfazer 
aquela cena de sangue. Com toda razo desconfiavam que os paulistas, certos do estado indefeso da fazenda e do arraial, por menor que fosse o nmero que reunissem, 
no hesitariam um s momento em marchar de novo contra eles.
        Reunindo, pois, alguns moradores do povoado e dos arredores, com promessas de grandes recompensas, os distriburam em patrulhas que rondassem pelos arredores, 
em distncia de duas lguas. Quanto ao resto de sua gente, trabalhava quanto podia na construo de trincheiras, fossos e outros meios de defesa que seriam ento 
de grande auxlio ao nmero minguado e fraco dos seus defensores.
        Embora tivessem os seus espias angariado mais alguns homens, o estado quase inerme de sua gente os teria desanimado, em semelhantes conjunturas, se alguns 
de seus espies, que eram mui bem galardoados, nos lhes viessem trazer a boa nova de que a lgua e meia do povoado se acampava um grande reforo.
        Em S. Joo d' El-Rei j havia chegado a notcia do afrontoso desafio de Caldeira Brant a Amador Bueno e, pelas indicaes dos espias, viram logo que devia 
ser o chefe emboaba que vinha na direo indicada.
        Esta notcia auspiciosa encheu de orgulho e de alvoroto a alma amesquinhada de Fernando, que pode tranqilizar o capito-mor das cismas e receios que jamais 
o abandonavam. nas circunstncias em que se achavam, no lhes podia ser esse grande evento mais benfico, nem mais prprio. Tanto que soube deste fato, Fernando, 
de acordo com Diogo Mendes, enviou dois emissrios ao campo de Caldeira Brant, levando-lhe a relao das circunstncias em que se achavam e oferecendo-lhe a fazenda, 
onde juntos e com mais vantagens dariam combate ao inimigo comum.
        Assim foi que, no outro dia, o arraial de S. Joo d' El-Rei, que cuidava continuar no gozo de tranqila paz, foi despertado em sobressalto pela estrpito 
e vozeria das foras do audaz bandeirante.
        Era um bando numeroso de cerca e quatrocentos homens, que, atravessando o povoado, se dirigiam para a fazenda.
        Por informao de Irabussu, que acompanhou todos esses fatos, perscrutando e espionando, o leitor deve saber que a gente de Caldeira Brant, tanto que chegou 
 fazenda do capito-mor, empenhou-se, toda ela, na construo de trincheiras, estacadas e outros misteres e estratgias de guerra.
        Depois de transformar a fazenda quase inerme e indefesa de Diogo Mendes em uma possante fortaleza, Caldeira Brant esperava impaciente que seu inimigo o viesse 
atacar; mas ainda que bem fortificada, afligia-o a incerteza que tinha da distncia e posio de Amador e da fora que trazia. Reunido, pois, uma escolta de quarenta 
homens bem providos de armamento, mandou-a, como espia fazer reconhecimentos para as bandas do Rio Grande, por onde devia chegar Amador. J o leitor conhece a sorte 
desastrosa e funesta que teve esse grupo de homens, por sua ambio e temeridade, na encosta daquela serra que, desde esse acontecimento, tomou o nome, que ainda 
hoje conserva, de "Morro da Vitria".
        Caldeira Brant, despeitado com esse desastre, antevia a necessidade de sair com sua gente a campo; mas ainda que ele fosse temerrio e arrogante nos seus 
foros de fidalguia, no ousava ainda assim dar esse passo to arriscado, sem primeiro conhecer as foras e os meios de seu adversrio. Assim foi que, no outro dia, 
despachou uma escolta bem armada, com ordens terminantes de ir ao lugar em que se achava acampado Amador e voltar, trazendo-lhe notcias circunstanciadas de tudo 
que l observasse.
        Mas essa escolta de emboabas, que seguia o rumo da precedente, ao chegar ao campo indicado, j o encontrou abandonado, com alguns comeos de trincheira.
        Depois de certificar que o inimigo havia deixado aquele acampamento, voltou a turba de emboabas para a fazenda, conduzindo alguns feridos que, na volta desastrada 
da primeira expedio, tinham ficado sem foras pelo caminho. A nova sada de Amador do stio que ocupava irritou, ainda mais, a iracndia31 de Caldeira Brant, que, 
ignorando a resoluo do chefe paulista, temia ser atacado se surpresa, tratando logo de pr vigias, durante a noite, ao redor da fazenda, e, durante o dia, em observao 
pelos altos dos morros.

CAPTULO XX

        Entretanto Amador Bueno, que havia escondido a marcha ao longo de vales e grotes, chegou  gruta de Irabussu ao cair da noite. A foi ele recebido com grande 
contentamento, no s da parte dos selvagens, que entoavam pocemas de guerra, como de todos os paulistas, que o acolheram com entusiasmo indescritvel. Ao achar-se 
diante da imensa massa de granito, que se elevava perpendicular, fendendo-se num espaoso e vasto prtico, os paulistas pararam estupefatos diante daquele monumento, 
e o prprio Amador, homem avisado e experiente conhecedor dos sertes, no pode conter uma exclamao de pasmo diante daquela soberba obra da natureza.
        Tanto Amador como sua gente no podiam ficar por muito tempo na contemplao da gruta de Irabussu; a longa marcha que fizeram, cheia de rodeios e maus caminhos, 
os havia fatigado, aumentando-lhes a sede e a fome. Foi, pois, toda essa gente introduzida na gruta onde, depois de copiosa refeio, caram logo em profundo sono.
        Havia no meio da gruta um leito natural de estalactite, onde prepararam a cama de Amador; mas este apesar de estar muito fatigado, no quis abandonar seus 
hspedes. O desejo de ouvi-los falar sobre os acontecimentos que os obrigava a refugiarem-se ali na gruta, o entusiasmo de reunir-se a seus patrcios, a esperana 
de alcanar vitria, excitaram de tal maneira que perdeu completamente o sono. Recostado, pois, nesse leito, e sentando-se os outros em pequenos blocos de pedra, 
puseram-se a conversar, alumiados pelo fraco claro de um fogo que Antnio alimentava.
        Satisfazendo-lhe a natural curiosidade, Maurcio fez-lhe a narrao, ainda que superficial, da longa histria de sua vida que, por ligar-se tambm a de seus 
companheiros, era sempre interrompida por apartes e exclamaes.
        Todos os fatos dessa existncia aventureira despertavam sobremodo o interesse de Amador Bueno, que s tinha para seus atos louvores e elogios.
        Quanto a Amador, o que o impeliu a pegar armas era breve e positivo e ele o narrou em poucas palavras.
        Tendo ouvido dizer que Caldeira Brant espoliava seus patrcios e os perseguia e maltratava com desalmado despotismo, reclamou contra um tal abuso. O fidalgo, 
muito ofendido em seu orgulho pretensioso e altaneiro como era, respondeu-lhe com um desafio. Embora no esperasse Amador por essa afronta e estivesse desprevenido 
no s de armas como de gente, reuniu com dificuldade um pequeno contingente e ps-se logo a caminho para So Joo que foi o ponto marcado pelo arrogante emboaba 
para ferir-se o combate. Este grupo foi se aumentando no decurso de sua marcha por paulistas que fugiam  perseguio do chefe portugus.
        Amador havia escutado com o mais vivo interesse a narrao de Maurcio. Esta conversao durou at alta noite, at que fatigados, cada um procurou o seu 
cmodo nos nichos e cantos da imensa gruta.
        O Chefe paulista agradecia  providncia, com todo fervor de sua alma, o lhe ter proporcionado um encontro to feliz. Reunindo sua gente  de Maurcio e 
Gil, que s se compunha de homens fortes e resolutos e aliando-se aos dois mancebos em quem ele reconhecia as mais lisonjeiras qualidades, j no lhe dariam tantos 
cuidados as ameaas do inimigo, embora o nmero de sua tropilha, unida  de Maurcio e Gil, ainda fosse bem inferior ao das foras do caudilho emboaba.
        Maurcio e Gil, por sua vez, com seus outros companheiros, no podiam ficar mais satisfeitos com um evento to afortunado... De mais, a vinda de Amador veio 
lhes pr termo s apreenses e cuidados, pois receavam a cada momento serem descobertos pelos espias de Caldeira Brant, que, segundo disse Irabussu, andavam sondando 
aquelas imediaes e podiam descobri-los na gruta. 
        Depois de um sono reparador, foi Amador despertado pelos malhos de mestre Bueno, cujo tinido compassado, repercutindo pela extensa gruta, chagava-lhe mltiplo 
aos ouvidos. Tanto que se levantou, encontrou logo a seu lado Maurcio, Gil e Nuno que dali o levaram a visitar a tenda do velho ferreiro, onde com grande alegria 
e admirao pode ver o grande provimento de armas de fogo, de azagaias e chuos32, todas concertadas e prontas e a abundante proviso de plvora, que era uma grande 
providncia nas circunstncias em que se achavam. 
        Estas e outras precaues, que no havia tomado, Amador Bueno encontrava ali na gruta. S um homem experimentado e prudente, como era o mestre Bueno, se 
lembraria dessas prevenes, e se no fosse ele, passariam desapercebidos no esprito agitado de seus comparsas esses objetos indispensveis na ocasio em que estavam. 
Maurcio e Gil relataram a Amador Bueno os meios de que dispunham e as circunstncias em que se achavam. 
        Agora o que mais urgia era prevenir e armar sua gente e engendrar os planos de combate, pois no era mais possvel conservar por muito tempo aquele bando 
de quase trezentos homens na gruta de Irabussu.
        O momento do impetuoso combate no podia tardar muito: os espies de Caldeira Brant, cada vez em maior nmero, vagavam agora dia e noite por aquelas cercanias 
em minuciosa observao, andavam mais de duas lguas distantes da fazenda e naturalmente descobririam a gruta. No desejava Amador dar um assalto  fazenda; queria 
antes ser atacado ali mesmo, no porque temesse suas trincheiras, mas porque considerava a Diogo Mendes, cujo carter e procedimento j Maurcio lhe havia preconizado.
        Maurcio, Gil e seus companheiros, entusiasmados com a chegada de Amador, perderam todo o receio de serem vistos e denunciados pela gente da fazenda. Estavam 
ansiosos por um combate decisivo e logo foram ter com o chefe paulista a ouvir sua opinio sobre o que deviam fazer.
        Amador mandou armar barracas em frente da gruta de Irabussu, porque assim seriam vistos; e, conhecedor da audcia de Caldeira, esperava logo o ataque.
        Ordens dadas e executadas, da a 2 horas estavam as barracas armadas e o povo esperando ansioso o momento de mostrar sua coragem e dedicao.
        O sol j ia alto, quando no acampamento de Amador entrou um grupo de ndios e paulistas, trazendo presos alguns emboabas que haviam encontrado nas proximidades 
da gruta. A entrada destes homens no acampamento de Amador e Maurcio levantou grande alvoroo, no s do lado dos selvagens, que entoavam suas pocema de guerra, 
como da parte dos paulistas, que embora respeitassem a ordem no podiam se conter sem soltar gritos e pragas.
        Cercados de toda aquela gente, foram eles levados aos trambolhes  presena de Amador e Maurcio, que logo lhes vieram ao encontro e a muito custo puderam 
acomodar sua gente e acalmar a agitao e o alarido que reinava em torno dos pobres portugueses; estes evocavam o nome de quantos santos havia em seu auxlio.
        Os chefes no consentiram que eles ali fossem maltratados, com grande contrariedade dos selvagens, que j antegozavam o momento de experimentarem neles suas 
flechas.
        Aquele grupo de portugueses imprudentes pareciam enviados ali para avivar e acender a sede de sangue e vingana.
        Maurcio e seus companheiros os puseram logo em liberdade, no s porque lhes repugnava fazer-lhes mal, seno porque eles iam lhes prestar mais servios 
voltando para a fazenda, e indicando a Caldeira e Fernando o lugar em que se achavam acampados.
        No podendo sustentar sua gente por mais tempo aquartelada na gruta, por falta de provises, e para que por outro lado no incomodassem Diogo Mendes, levando 
a guerra  sua casa, os paulistas no queriam mais se ocultar, j os aborreciam tantas delongas e cuidados, e mesmo estavam bem preparados para fazer frente a quatrocentos 
ou quinhentos portugueses.
        Trataram, pois, de soltar aquele grupo de emboabas a fim de que fossem informar a Caldeira Brant, da posio que Amador Bueno ocupava e da existncia de 
Maurcio na gruta de Irabussu.
        Logo que se viram livres e perdoados pelos generosos paulistas, e mal se orientaram do povoado, ao dobrar a serra de S. Jos, puseram-se a correr com toda 
a velocidade que lhe permitiam as foras, ansiosos para se distanciarem do acampamento, e mais ainda para levar a Caldeira Brant a nova de suas descobertas e receberem 
o prmio prometido.
        Chegaram estafados  fazenda, onde encontraram o seu chefe com o capito-mor e Fernando, que conversavam na varanda e que logo saram ao encontro deles, 
vidos de curiosidade...
        A notcia que traziam da estada de Amador na gruta de Irabussu veio confirmar as desconfianas de Fernando quanto  existncia de Maurcio ali; porque Amador 
s poder ali chegar, guiado por pessoas conhecedoras daqueles lugares e estas eram de certo Maurcio e seus companheiros.
        Esta notcia pareceu atear mais o dio e o despeito de Caldeira Brant. Outro tanto no sucedeu a Fernando, que exultou de prazer quando os homens lhe inteiraram 
de que Maurcio se achava tambm na gruta.
        Trataram logo de reunir sua gente, passar revista nas armas e munies e entusiasm-los; para os encorajar, deram-lhes instrues para o tiroteio e prometeram-lhes 
boas pagas.
        Era j tarde. O acampamento distava da fazenda; portanto, deixaram a marcha para o dia seguinte, sito com bastante sacrifcio dos chefes, pois estavam ansiosos 
por decidirem da sorte.
        Tinha Fernando a certeza de vencer e esmagar os paulistas, para o que contava com o auxlio da gente de seu patrcio, com quem muito se havia amistado.

CAPTULO XXI

        Maurcio e Amador tinham um bom vigia em Irabussu, e este, que era respeitado em S. Joo d' El-Rei, percorria o arraial sondando disfaradamente e ia comunicar 
na gruta tudo que via e ouvia. Algumas horas depois que os emboabas se retiraram, chegou Irabussu que, voltando de suas excurses, trouxe aviso aos paulistas de 
que os emboabas vinham atac-los na manh seguinte.
        Maurcio e Amador Bueno trataram logo de pr em prtica os seus planos de combate, e, reunindo sua gente, deu-lhes as instrues necessrias.
        A gente de Amador era toda paulista e bem disciplinada, porm a de Maurcio compunha-se de trs raas diferentes, paulistas, ndios e negros, comandados 
respectivamente por Nuno, Antnio e Joaquim. 
        Antnio, que era ndio e sabia domin-los, teve ordens de emboscar com sua gente num capoeiro que margeava o caminho,  espera da fora inimiga e de fazer 
resistncia  primeira coluna. Joaquim, com os outros, emboscados iam tambm em distncia de duzentos passos, de modo que pudessem acudir logo. Nuno, Maurcio e 
Gil, com os paulistas a seu comando, avanariam pelo caminho, ao encontro do inimigo.
        Amador e os seus ficariam de prontido no acampamento para socorr-los, se preciso fosse.
        Isto combinado, trataram de revistar as armas de fogo dos paulistas e negros, e aos arcos e flechas dos ndios e pr tudo em ordem para se porem de emboscada 
ao alvorecer do dia antes da chegada de Caldeira Brant j deviam estar em seus postos. Antnio recebeu instrues particulares de seu amo, sobre certos pontos que 
deviam ser executados na hora do combate.
        Na fazenda de Diogo Mendes tudo andava em alvoroo; o grosso de portugueses que se preparavam para a luta, no tinham conhecimento algum do exerccio d' 
armas, nem ao menos sabiam enfileirar-se.
        O capito-mor no queria perder a ocasio de mostrar sua coragem acompanhando-os ao campo de batalha; mas Caldeira Brant e Fernando se opuseram logo, fazendo-lhe 
ver o perigo em que se ia meter. Leonor tambm mostrou desejos de assistir ao combate e lembrou a seu pai que podia ficar de longe, sem se envolver na luta. Diogo 
Mendes no concordou com o alvitre da filha; receava que ela no tivesse coragem de assistir a uma peleja sem perder o nimo. Fernando, sempre que se tratava de 
Leonor, procurava contrari-la, mas desta vez protegeu-a, acorooando ao tio a irem ficar de longe para ver o combate. Isto no era aconselhado por bondade, nem 
para satisfazer o desejo de sua prima, mas sim, antevendo a dupla vingana que antecipadamente gozava de matar Maurcio em sua presena.
        Leonor percebeu que seu primo urdia naquele mesquinho crebro alguma trama infernal, pois deixava transparecer em seu rosto um contentamento visvel; mas 
pouca importncia dava a ele e no desistiu de sua pretenso. Combinaram, pois, que os espectadores ficariam no alto do morro, onde podiam observar todo o combate 
sem perigo e voltar para a fazenda quando estivessem cansados.
        As duas companheiras de Leonor bem desejavam acompanh-la, ambas tinham em perigo seus pais e amantes.
        Indaba, por ingenuidade, ou por ser de origem selvagem, nada temia quanto a seu pai e a Antnio; mas Helena, que foi criada com outro mimo, muito sofria 
quando pensava em seu pai, de quem h muito no tinha notcias, e de Calixto que, tendo ficado prisioneiro ainda pelo amor dela, ia agora foradamente bater-se contra 
os seus. Procurou o mancebo e referiu-lhe tudo que incomodava seu esprito. Calixto tranqilizou-a dizendo que nada receasse quanto a mestre Bueno e nem mesmo quanto 
a Maurcio, a quem ele considerava um amigo, e no um prfido, como lhe fizeram acreditar.
        - Prfido  este fidalgo e hei de mostrar-lhe para quanto presto, hei de vingar mestre Bueno, Irabussu e outros, que sofreram castigos brutais por mandado 
dele. O capito-mor tem bom corao e, se algum mal nos faz,  por insinuaes desse malvado. No lhe farei mal algum, nem consentirei que os outros o faam; Leonor 
 um anjo, meu brao estar sempre pronto para sua defesa: a ela e a ti devo a vida.
        Helena conhecia os bons sentimentos de Calixto, e sabia o quanto ele era grato a Leonor, e ao capito-mor, e tambm o dio que consagrava a Fernando; portanto, 
no teve mais que dizer-lhe e confiou na sorte.
        Na manh do dia seguinte, os quatrocentos homens de Caldeira Brant deixavam a casa de Diogo Mendes, e, atravessando o povoado, num falatrio confuso e interminvel, 
demandavam a gruta de Irabussu. Iam eles bem providos de armas e munies e divididos em dois pelotes, um dos quais estava  disposio e comando de Fernando, que 
marchava na frente e o outro era comandado por Caldeira Brant.
        Na formatura e na marcha, no mostravam a menor noo de disciplina; esbarravam-se, feriam-se uns nas armas dos outros e por isso praguejavam e faziam uma 
gritaria infernal. Parecia maios um batalho desbaratado do que um exrcito regular marchando para a guerra. Em distncia acompanhavam-no o capito-mor, Leonor e 
alguns pajens. 
        Depois de uma hora de marcha  vontade, chegaram ao alto da serra, onde deviam ficar o capito-mor, sua filha e criados. Os guerreiros descansaram um pouco; 
enquanto isto, os chefes tiveram tempo de observar o acampamento do inimigo, e viram, com grande prazer, que nas poucas barracas que existiam, no podia haver nmero 
suficiente de homens para fazer-lhes frente, e, cheios de entusiasmo, deram ordens de escorvar33 as armas e prosseguir a marcha. 
        No acampamento de Amador, logo que perceberam o movimento da gente de Caldeira, deram o sinal convencionado e puseram-se a postos.
        Fernando, talvez mais impaciente do que Caldeira, avanou na frente com sua gente. Maurcio e os seus vieram at a altura em que se achavam emboscados Antnio 
e seus ndios, e esperaram.
        Fernando, logo que chegou  distncia que seus tiros pudessem atingir o inimigo, parou e deu ordem de fogo. Maurcio sustentou o tiroteio por alguns instantes 
e deu ordem  sua tropilha de recuar, e, a um sinal dado, os ndios dispararam suas flechas, que partiram sibilando. Os portugueses avanaram tropeando, aqui num 
ferido, ali num cadver de um companheiro, atiravam sem fazer pontaria, na confuso das tropas sem disciplina. Maurcio foi sempre recuando, at que caiu. Imediatamente 
Antnio deixou os ndios, pegou seu amo, p-lo s costas e correu para o acampamento.
        Fernando, cego de clera, continuou a marcha, como se uma fora magntica o impelisse para diante; foi logo ferido e caiu.
        Os paulistas, no encontrando mais espao para carregar suas armas, levaram o resto da gente de Fernando a coice d' armas e empurres, abrindo passagem para 
continuar o combate com Caldeira Brant.
        A fora de Caldeira Brant no tinha nem disciplina, nem prtica de carregar e atirar, de sorte que, enquanto preparavam e escorvavam as armas, j haviam 
recebido duas descargas cerradas dos combatentes de Maurcio e inmeras flechadas dos ndios.
        Caldeira Brant, em um instante, estava prisioneiro: tinha nos flancos os ndios comandados por Antnio, na retaguarda os negros com seu chefe, e na frente 
os paulistas.
        Quando apertaram o cerco e o intrpido bandeirante viu-se prisioneiro, apesar da altivez que o caracterizava, pediu misericrdia para os seus. Acabado o 
combate, os poucos portugueses que restavam em p achavam-se quase to inutilizados como os que haviam cado feridos ou mortos.
        Amador observava impvido a luta, e admirava a disciplina que Maurcio havia dado a sua gente, tanto a seus patrcios, como aos ndios e negros. Na hora 
do combate no se ouvia a sua voz, nem de seus combatentes, s se ouvia o sibilar das flechas, o estampido dos tiros e o baque dos corpos. 
        Caldeira foi levado  presena de Amador e foi recebido cavalheirescamente por este. O caudilho paulista era um homem de maneiras distintas; no tinha a 
arrogncia de seu antagonista, mas achava-se nesse momento satisfeito por ter feito sentir ao insolente emboaba que o sangue que corre nas veias dos paulistas tambm 
 nobre, e talvez mais nobre porque eles no provocam guerras, e s sabem responder dignamente aos insultos.
        Leonor no desviava os olhos do lugar onde estavam sendo sacrificadas tantas vtimas, por causa do dio de um homem e do infundado capricho de outro.
        O capito-mor fez ver  sua filha o mal que resultava para o trabalho essas guerras armadas sem motivo justificvel, que, por simples caprichos dos chefes, 
sacrificavam tantos homens necessrios, que nada tinham que ver com as discrdias particulares.
        Leonor ouvia, mas no respondia; seu pensamento estava no acampamento; ela vira Maurcio cair, mas no sabia em que estado se achava.
        O pai percebeu a tristeza da filha e convidou-a a voltar para a fazenda. J estava terminada a luta; nada mais o prendia ali. Com este convite, Leonor despertou 
de seus tristes pensamentos e pediu a seu pai que a levasse ao acampamento, pois queria prestar seus servios aos feridos; que a retirada deles dali para a fazenda 
sem socorrer os que sofriam seria uma impiedade digna de censura.
        Diogo Mendes achava razovel o desejo de sua filha, mas receava alguma hostilidade da parte de Amador, a quem ele no conhecia, ou mesmo dos ndios e paulistas 
de Maurcio. Debaixo da suspeita que lhe havia sugerido Fernando, de que Maurcio era um traidor, o capito-mor temia que o desrespeitassem e  sua filha.
        Leonor fez-lhe ver que Maurcio sempre o respeitou como filho, e ela tantas vezes havia salvo; no era, portanto, traidor como seu primo o inculcava. Demais 
- acrescentava ela - nem todos os portugueses morreram; l temos Calixto que, apesar de ser paulista, nos  grato, porque nos deve sua vida e a de Helena; l est 
Antnio que sempre lhe foi fiel e submisso como um co, e que, alm disso, lhe  reconhecido pelos benefcios que tem recebido desde pequeno, e tambm pelo carinho 
com que tratamos Indaba. E, enfim, confio em Maurcio, que vale por todos e no consentir que nos faam mal. Antes de Fernando entrar em nossa casa, Maurcio vivia 
com Afonso como se fossem irmos, e vossa merc nunca teve ocasio de o achar mau ou traidor; j v que seus receios so infundados. Ele continua a ser o que foi; 
est arredado de casa porque no pode viver com meu primo que o odeia, e procura intrig-lo, no s para que vossa merc o expulse de casa, como de sua afeio. 
No h perigo algum para ns, eles no podem nos esperar  mo armada, porque sabem que ns no queremos nem podemos fazer-lhes mal algum. 
        Diogo Mendes atendeu ao pedido de Leonor e puseram-se em movimento.
        O corao de Maurcio batia agora mais acelerado do que na hora do combate, ao avist-la descendo o outeiro em direo a eles. O prazer alterou-lhe mais 
as pulsaes do corao, do que o susto e fadiga por que havia passado.
        Receoso de que sua gente, ou a de Amador, no respeitassem convenientemente a pessoa do capito-mor, sua filha e criados, chamou por Antnio e mandou-o conter 
os ndios que o obedeceriam. Preveniu tambm a Gil e Nuno para conterem os paulistas, e ele foi ter com Amador, avisando-o da chegada de Diogo Mendes e sua filha. 
O jovem paulista e Amador foram ao encontro dos recm-chegados, e este convidou-os a descansarem em sua tenda.
        Foi-lhes servido o que de melhor havia ali. J era tarde e precisavam de alguma refeio.
        Diogo Mendes pediu para ver seu sobrinho. Maurcio conduziu-o a uma barraca em que ele se achava e havia sido tratado com toda a caridade por Amador; mas 
seu estado era gravssimo, tanto que no os conheceu.
        Foram depois ver Caldeira Brant; este, apesar de alguns ferimentos no se achava abatido de corpo, mas sofria bastante do esprito. Homem orgulhoso, esperava 
cantar vitria e via-se suplantado por seu antagonista.
        Valeu-lhe a lio, e deu-lhe ensejo de ver como Amador era considerado e estimado por seus patrcios, e compreendeu que a verdadeira fidalguia existe nas 
almas bem formadas e no no sangue azul, como ele acreditava.
        Diogo Mendes o animou muito, mostrou-lhe muitos exemplos iguais. Depois foi ter particularmente com Amador e pediu-lhe o perdo do vencido, e tambm permisso 
de mandar conduzir para sua fazenda os feridos.
        Amador concedeu tudo o que lhe pediu, contou os motivos que ali o trouxeram, e que, tendo salvado sua dignidade, estava satisfeito e no queria vingar-se, 
antes sentia que a insolncia de Caldeira o obrigasse a derramar tanto sangue.
        Amador elevou os dotes de Maurcio a um grau extraordinrio, no por ser seu patrcio, - dizia ele - mas sim pela nobreza d' alma que possua, e que o tornava 
um homem de carter invulnervel. Maurcio - acrescentou Amador, - foi muito feliz em encontrar em seu protetor sentimentos nobres e humanitrios; deu-lhe alm da 
educao necessria, exemplos de honradez e probidade, e ele, reconhecendo tudo isto, lhe consagra uma afeio filial.
        Um resto de desconfiana, que ainda lhe pairava no esprito, sobre a fidelidade de Maurcio dissipou-se ao ouvir as palavras de Amador. Diogo Mendes enternecido 
prometeu ao chefe paulista que em breve faria de Maurcio seu filho legtimo, unindo-o  sua querida Leonor.
        Maurcio abraou-o transportado de alegria. Leonor beijou-lhe a mo com veemncia, mas nem um nem outro podiam articular palavra: a comoo embargava-lhes 
a voz, no esperavam tanta indulgncia.
        Antnio e Calixto, que a um canto escutavam a conversao, compreenderam logo que era chegado o momento do perdo, e vieram pedir a liberdade de Indaba 
e Helena para com elas se desposarem.
        Gil foi comunicar a Mestre Bueno e a Irabussu o que ali se passava nesse momento e levou-os  presena de Leonor e do capito-mor, que os trataram com afabilidade, 
lhes fazendo sentir que Helena e Indaba nunca foram tratadas como escravas, mas sim como companheiras e amigas de Leonor.
        Irabussu voltou  gruta e trouxe dois sacos de ouro, que Maurcio e Gil haviam confiado a sua guarda, - e disse: - Brancos, aqui est o tesouro que me foi 
entregue! Irabussu vai ver sua filha, e nenhum compromisso tem mais neste mundo.
        Maurcio e Gil fizeram presente do ouro a mestre Bueno e a Irabussu para dote de suas filhas. Os dois heris haviam-se alquebrado no trabalho para os dois 
jovens paulistas; a eles pertencia agora mostrar sua gratido. 

FIM
ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS











        
 PERMITIDA A REPRODUO DESTA REVISTA, DESDE QUE PARA FINS NO COMERCIAIS.
1 O perodo, na edio original, apresenta-se truncado. Por essa razo, acrescentamos a palavra "ser", entre colchetes, para torn-lo mais claro. 
2 Lbregas: lgubres.
3 Alcantilado: escarpado, ngreme, escabroso. 
4 Barbac: muro avanado, construdo diante de muralhas, e mais abaixo do que elas.
5 Ciznia: discrdia.
6 Malungo: camarada, companheiro.
7 Alcantis: rocha escarpada, talhada a pique.
8 Almocafre: enxada. 
9 Alvio: picareta.
10 nvios: intransitvel. 
11 Carumb: vasilha ou panela cnica, na qual se conduz o cascalho a ser lavada nas catas de ouro.
12 Colomi, columi, columim, colomim: o mesmo que curumim, "menino", em tupi-guarani.
13 Fragueira: que anda por fragas, serras, mourejando. 
14 Hspede:  poca, possua tambm o sentido de "hospedeiro". 
15 Socalco: poro de terreno mais ou menos plana. 
16 Espatos: plantas dotadas de folhas penadas.
17 Alapardaram: expresso popular para "alapar", esconder-se. 
18 Igaaba: urna funerria dos indgenas.
19 pocema: cantos guerreiros.
20 Carcs: aljava (do rabe, "que atira flechas).
21 Moqum: grelha de varas para assar ou secar a carne e o peixe; aqui a expresso  utilizada para se referir  comida preparda dessa forma. 
22 Provavelmente: irisadas. 
23 Baldo: no contexto, "injria", "m fama", "pecha". 
24 Descochando: soltando, arremessando com o arco.
25 Esculca: vigia, guarda avanada.
26 Partasanas: alabarda de infantaria, aguda e larga.
27 Faxinas: feixe de ramos ou de paus, com que se entopem fossos ou se encobrem parapeitos de baterias, em campanhas militares.
28 Couto: esconderijo.
29 atassalhar
30 Treda: falsidade.
31 Iracndia: ira, clera, furor.
32 Chuos: vara ou pau armado de aguilho.
33 Escorvar: preparar. 
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